CAPÍTULO XXVIII


ARAUTO DA SAGRADA PAIXÃO

Paulo, setuagenário, terminará em breve a longa carreira apostólica, conservando, para o resto da existência, as nobres cicatrizes das mortificações e sofrimento. Só por graves enfermidades suspendia os ministérios apostólicos.

Consideremos em conjunto esse admirável apostolado.

Foi a Itália o teatro de seus labores. Percorreu-a pregando missões e retiros espirituais ao clero e às comunidades femininas.

Qual a origem desse apostolado, admiração de todos, inclusive dos Soberanos Pontífices? Vejamo-lo.

Paulo, num ímpeto de fervor, suplicou a Jesus Crucificado a conversão de todos os pecadores, por quem o Redentor derramara seu preciosíssimo Sangue. Depois contemplou a própria alma e exclamou

“ Ali! eu peço pelos outros, quando minha alma está no mais profundo do inferno! ”

Jesus respondeu-lhe com inefável ternura.

“ Tua alma repousa no meu Coração ” .

Eis a origem do apostolado de Paulo da Cruz: o Coração de Jesus.

Nesse santuário o santo vivia a mesma vida de Deus: seus pensamentos e afetos eram os pensamentos e afetos do divino Redentor, seu zelo pela salvação das almas se inflamava no zelo que levara Jesus ao Calvário, à. Cruz, à Morte. A caridade de N. Senhor abrasou o universo; Paulo quisera abrasar o inundo todo.

No horto das Oliveiras, Jesus, à vista dos pecados da humanidade, suou sangue e entrou em agonia; ao considerar a inutilidade do Sangue divino para tantas almas, Paulo, de mil modos diversos, arrancava de suas veias o sangue generoso,

“ para completar na própria carne, o que faltava à Paixão de Cristo ”

(Col. 1.24). Pálido, desfigurado, abatido, em angústias mortais, parecia prestes a exalar o último suspiro. Sussurrava, apenas:

- Ah! um Deus Crucificado!... Um Deus morto!... ó caridade... ó prodígio de amor!... Ó criaturas ingratas! Até as pedra. choram!... Como?! Morreu o Soberano Sacerdote, e nós não choramos? Só mesmo tendo perdido a fé para não desfazer em lágrimas. Ó meu Deus!...

Muitas vezes, ao contemplar N. Senhor na Cruz, pedia-lhe, suplicava-lhe a graça de morrer crucificado. Em parte Jesus o contentou, pois esteve quase sempre a agonizar na Cruz dos sofrimentos.

Nos divinos ardores do Coração de Jesus, perpétua morada de sua alma, consumia-se no desejo de cooperar com Ele na destruição do pecado e no resgate das almas imortais. Essa a sua missão

Acolheu-o, certo dia. o divino Mestre na chaga adorável de seu Coração, inundou-o de luz e descobriu-lhe a maldade do pecado, inflamando-o de ardentíssimo zelo.

Eis o segredo de seu maravilhoso apostolado; eis o incentivo dessa luta sem tréguas ao pecado, ao mundo e a Satanás.

Sempre de armas na mão, arrancou inúmeras almas ao inferno, atacou impiedosamente o inimigo da salvação, conquistando imortais vitórias para a Cruz de Cristo.