SEU MÉTODO NAS MISSÕES

Vejamos o seu método de missões.

Começava por avisar os párocos do dia da chegada dos missionários. Nessas cartas respirava o fogo de seu zelo. Fazia questão que a entrada fosse solene, porque, ao pôr os pés na paróquia, costumava anunciar ao povo a paz e o perdão. Em calorosa alocução, dizia que viera trazer a paz e a guerra a paz com o Pai celestial e a guerra ao pecado e ao inferno. Nosso Senhor seria o medianeiro da paz e o generalíssimo da guerra, garantindo aos ouvintes que, sob a mediação e direção desse comandante, estavam asseguradas a derrota dos inimigos e a reconciliação com Deus. Entre cânticos piedosos, dirigiam-se à igreja, onde pregava o sermão preparatório. Assim ficava aberta a missão.

No curso da mesma havia duas instruções catequéticas: uma de manhã aos camponeses, consistindo na explicação simples e clara dos mandamentos da lei de Deus; a outra, à noite, sobre disposições necessárias à recepção dos sacramentos da Confissão e Comunhão. Tinham a duração de uma hora.

Em seguida a esta pregava-se o sermão de máxima.

Por vezes, particularmente nos primórdios de seu ministério, organizava procissões e outras práticas de piedade.

Tinha em grande conta os assim chamados ORATÓRIOS DE PENITÊNCIA, porque dispunham os homens a confessar-se com as devidas disposições. Para isso reunia-os na igreja, meia hora depois da ave-maria. Um missionário excitava-os ao arrependimento e ao propósito. Proibia terminantemente às mulheres aproximarem-se da porta da igreja; aconselhava-as a permanecerem em casa, rezando pela conversão dos maridos. Praticava-se este exercício cinco ou seis vezes durante a missão.

A noite, uma hora depois do sol posto, dobravam-se todos os sinos, lembrete aos pecadores de que estavam mortos para Deus e para a graça. Todos deviam rezar cinco pai-nossos e ave-marias em louvor das Chagas de Jesus, implorando perdão e misericórdia para os que se achavam na inimizade divina.

Quatro pessoas, das mais influentes e edificantes, recebiam a incumbência de reconciliar os inimigos e restabelecer a paz nas famílias.

Sem descuidar o estudo e os princípios da sagrada eloquência, mais do que nos livros, era nas chagas do Redentor que Paulo hauria os argumentos cie seus sermões. Antes de subir ao tablado, prostrado de joelhos ante o Crucifixo, por vezes sobre uma tábua eriçada de pregos, buscava força, eloquência e unção para si e graças para as almas dos ouvintes.

Pregando a missão em Bassano de Sutri, vieram procurá-lo com urgência enquanto preparava a prática em seu quarto. O dono da casa, Nicolau Cappelli, tomou a liberdade de entrar para avisá-lo. Paulo, surpreendido por essa visita inesperada, procurou esconder com presteza o instrumento de penitência e, para disfarçar, disse:

“ E' aos pés do Crucifixo que costumo preparar minhas práticas ” .

Recitava aos pés de Jesus Sacramentado o símbolo de santo Atanásio, acrescentando.

“ Eis, Senhor, o momento em que irei glorificar as vossas misericórdias ”

e subia ao estrado.

Dava os avisos que julgava convenientes e começava o sermão. Por vezes, terminando o exórdio, deixava as regras da eloquência, dirigindo-se pelo impulso da graça. Sem perder de vista o objeto principal, fazia admiráveis digressões, cujos efeitos patenteavam a assistência do divino Espírito Santo. Súbitas iluminações, abrasadas expansões de amor brotavam-lhe do coração. Dir-se-ia um ser sobrenatural. Afirmavam:

“ A presença do pe. Paulo no estrado já é uma missão ” .

Sua eloquência vigorosa, doce, simples, ardente e insinuante, arrastava os corações ao amor de Deus.

Os sentimentos da alma reverberavam-se no exterior: por vezes os olhos chamejavam a cólera divina, para logo, todo meiguice, evidenciarem a misericórdia do Senhor; o rosto refletia o horror ao pecado e a compaixão aos pecadores; a pesar seu, caía amiúde em pranto desfeito. Quando tratava de assuntos terríficos, bastava fitá-lo, para sentir-se atemorizado: o olhar, o gesto, a voz, tudo denunciava o terror que o dominava.

“ Tremiam-lhe todos os membros, diz testemunha ocular. Amedrontava, por estar amedrontado ” .

Famoso bandido disse-lhe mais de uma vez:

“ Pe. Paulo, v. revma. no púlpito me faz tremer dos pés à cabeça ” .

Oficial de alta patente dizia-lhe também:

“ Pe. Paulo, tomei parte em batalhas sangrentas, encontrei-me sob o fogo do canhão e jamais tremi, mas vós me fazeis tremer dos pés à cabeça ” .

Na prática do inferno. arrepiavam-se-lhe os cabelos, chamejavam-lhe os olhos.

“ Oh! Que dura necessidade, bradava, que dura necessidade a de odiar para sempre Aquele que nos ama desde a eternidade! ”

“ Ai! Jamais ver a Deus!... ”

“ Eternamente longe de Deus!... ”

E repetia, com acento terrível, que parecia se lhe despedaçasse o coração:

“ Sempre!... Jamais!... ”

Tremia, estremecia, chorava, fazendo o auditório tremer,, estremecer e chorar com ele.

Qualquer que fosse o assunto, na peroração abrandava a voz e falava com extraordinária ternura, comovendo os corações mais empedernidos.

Se pregava sobre o paraíso, os ouvintes deixavam com ele a terra, para antegozarem as inefáveis delícias do Céu.

Diziam sábios doutores:

“ O pe. Paulo sabe mais teologia do que nós... Preliba a felicidade do paraíso; eis porque discorre maravilhosamente sobre ele ” .

Pregava sobre a Eucaristia? Suas palavras eram um cântico de amor, um hino seráfico. Amiúde era arrebatado em êxtase e envolvido de brilhante luz.

Discorria sobre a Paixão de N. Senhor? Sua alma se desfazia em suspiros e lágrimas.

“ Este Padre, diziam todos um dia morrerá no estrado, pregando a Paixão de Jesus ” .

Com que emoção não repetia:

“ Um Deus amarrado por meu amor! Um Deus açoitado por meu amor! Um Deus morto por meu amor! ”

Ao pronunciar essas palavras, penetrava no santuário da Divindade, oceano de bondade e perfeição infinitas. O amor arrebatava-o; ninguém sabia falar sobre a sagrada Paixão como o pe., Paulo.