CONHECE O FUTURO E AS COISAS OCULTAS

Vejamos agora como Paulo desvendava o futuro e os mais secretos mistérios do coração humano.

Na missão de Viterbo, visitou-o o conde Brugiotti, seu íntimo amigo. Em meio à conversa, o santo, de repente, exclamou:

“ Ah! Senhor! não permitais tal desgraça à pessoa a quem tanto estimo ” .

O conde, sobressaltado, perguntou:

“ Será, por ventura, a morte de meu velho pai? ”

“ Não ” ,

replicou Paulo, e calou-se.

Na decorrer da missão repetia, de quando em quando:

“ Ah! Senhor, não o permitais ” .

Um dia, antes da prática, triste e inquieto, saiu apressadamente. Na rua, encontrou-se com o conde Brugiotti, que lhe perguntou para onde se dirigia.

“ À casa de d. Abatti ” ,

respondeu o servo de Deus.

“ Mas, pe. Paulo, está na hora da prática. Ireis depois ” .

“ Vão, não, depois será tarde ” .

Teve o santo longa e secreta entrevista com o digno prelado.

Ao sair, ouviram-no exclamar:

“ Oh! que terrível desgraça! Oh! que desgraça ” !

Voltou à igreja e, com mais ardor do que nunca, discorreu sobre a morte. Deteve-se de improviso e, após instantes de silêncio, com voz dolorosa e plangente, clamou:

“ Está a expirar o vosso bispo... D. Abatti acaba de falecer!... Rezemos todos pelo descanso de sua alma ” .

Ajoelhou-se e, com acento lúgubre, principiou o DE PROFUNDIS. No mesmo instante chegou apressadamente o mensageiro com um bilhete ao missionário, anunciando a morte repentina do snr. bispo... A fatal notícia confirmou a predição do santo e produziu no povo a mais profunda consternação.

Ler nas consciências, especialmente no ato da confissão, era coisa ordinária na vida do servo de Deus. Se o penitente, por vergonha ou esquecimento, ocultava alguma falta, o confessor dizia-lhe

“ E aquele pecado cometido em tal dia, tal ano, em tal lugar? ”

O coitado se alarmava, mas o bom médico prosseguia:

“ Ânimo, meu filho, Deus enviou-me unicamente para curá-lo. Apenas desejo a vossa santificação... ”

Com essas luzes, conhecia os desígnios de Deus sobre as almas.

Uma jovem teve a desgraça de cometer, por fragilidade, alguns deslizes. A vergonha não lhe permitia confessá-los. Vivia em temores, sobressaltos e horríveis angústias, aumentados pelos sacrilégios cometidos na recepção dos sacramentos.

Foi confessar-se ao servo de Deus, resolvida a vencer o pejo. Não o conseguiu, porém. Manifestou todos os pecados, exceto os que lhe afligiam o coração. Paulo, cheio de caridade, interrompia-a de vez em quando, exortando-a a declarar as culpas mais graves. Ela não se decidia.

Vendo que tudo era inútil, disse-lhe, por fim

“ Agora, filha, deixe que eu fale ” .

E principiou a expor pormenorizadamente, com circunstâncias de lugar, tempo e pessoas, todas as faltas que a jovem se envergonhava de confessar. E acrescentou

“ E você, filha, nunca se confessou delas, não é verdade? N. Senhor aqui me enviou para curar as chagas de sua alma. Desejo que seja santa ” .

A jovem tremia como frágil cana e pouco faltou que não desfalecesse, mas, criando Animo, sentiu-se tão aliviada na consciência, experimentou tão doce consolação como jamais gozara no passado. Chorou os seus pecados e foi, desde então, alma piedosíssima.

Paulo, iluminado pelo Espírito Santo, descobria as faltas mais comuns dos lugares onde pregava. Descobria outrossim os pecados cometidos durante a missão. Por vezes essa luz celeste o fazia interromper o sermão e exclamar:

“ Vejo-te, infeliz! Enquanto prego a penitência, estás ofendendo a Deus ” .

Vinha-se depois a saber que naquela hora se havia cometido algum pecado.

Embarcara em Porto de Santo Estêvão com destino a Piombino. Furiosa tempestade lançara a embarcação às praias de Tróia. Desembarcados, exclamou o homem de Deus:

“ Não sei como o mar não nos tragou a todos, pois há aqui um senhor que faz muitos anos não se confessa ” .

Um dos passageiros adiantou-se e, sem respeito humano, declarou:

“ Sou eu esse infeliz ” .

Oficiais e marinheiros, todos se confessaram com Paulo.

Tão habitual era esse dom do servo de Deus, que quem se aproximasse dele devia ter a consciência bem pura. Um dos principais personagens cie Roma chegou a dizer a um nosso religioso:

“ Antes de entrar na cela do pe. Paulo é necessário confessar-se. pois ele descobre as faltas mais recônditas do coração ” .