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Em outra ocasião, passara Paulo a noite toda no confessionário. De manhã, celebrada a santa
missa e dadas as devidas graças, retirara-se à casa paroquial, para breve descanso. Apenas
se recolhera, bateram à porta.
Era um senhor que desejava confessar-se.
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“
Meu filho, disse-lhe o santo, necessito repousar por alguns instantes; vá à igreja e qualquer
de meus companheiros o atenderá
”
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Mas uma voz lhe segredou aos ouvidos:
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“
Confessa esse pobre homem
”
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Chamou-o sem mais
e o penitente lhe declarou:
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“
Padre, se aqui estou para confessais-me a esta hora, é porque o senhor mesmo mo insinuou
”
.
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perguntou, admirado, o servo de Deus.
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“
Esta é a verdade, replicou o penitente. O senhor me disse na noite passada: Vem
confessar-te
”
.
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Maravilhou-se Paulo das sublimes invenções da graça, confessando, todo humildade, que
uma vez por outra, o Anjo da guarda tomava-lhe o semblante para coadjuvá-lo na conversão
das almas.
Confirma-o o fato seguinte.
Na igreja do monte Argentário, denotando grande preocupação, jazia a um canto, ajoelhado,
ex-oficial do exército.
Notou-o o pe. Luís do Coração de Jesus. Aproximou-se dele, perguntando em que poderia
servi-lo.
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“
Está em casa o pe. Paulo?
”
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Perturbou-se ao saber que o servo de Deus estava ausente.
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“
Desejara confessar-me com ele
”
,
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acrescentou, suspirando.
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“
Se é apenas isto o que deseja, não faltam aqui confessores há seis
”
.
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“
Pois bem, confessar-me-ei com v. revma.
”
.
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O pe. Luís conduziu-o à sala do Capitulo, onde havia grande e comovente Crucifixo. Apenas
o ex oficial deu com os olhos naquela efígie, caiu de joelhos e, batendo no peito, exclamava,
chorando:
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“
Perdoar-me-á, padre, perdoar-me-á?
”
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“
O havê-lo atraído a seus pés, é prova patente do perdão
”
,
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respondeu-lhe o pe. Luís, para
animá-lo.
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“
Padre, há mais de 50 anos que vivo em sacrilégio, atormentado sempre por cruéis remorsos.
Não conseguia vencer o pejo. Uma noite pareceu-me ver em sonho a Jesus Crucificado, entre
sua Mãe ss. e o pe. Paulo. Este, tirando de sob a capa afiada espada, disse-me em tom
ameaçador: - Vai, vai confessar-te no retiro do monte Argentário ou dar-te-ei a morte. - A ss.
Virgem, compadecendo-se de mim, acenou-lhe com ambas as mãos a que sustasse o golpe,
assegurando-lhe que eu viria confessar-me.
”
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“
Saltei da cama, apavorado. Estava banhado de suor frio, como se deixara o banho. Pois
bem, apesar de tudo, não me decidia a confessar-me.
”
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“
Dias após, repetiu-se o sonho, mais terrível ainda. O pe. Paulo, com sua fulminante espada,
atirou-se sobre mim, bradando: - Para ti já não há remédio. - A ss. Virgem, sempre a
interceder por mim. asseverava que desta vez eu me reconciliaria com Deus. Despertei com
o mesmo suor e o mesmo espanto
”
.
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“
Clareou o dia, pus-me a caminho e aqui estou. Haverá salvação para mim?
”
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Cálidas lágrimas deslizavam pelas faces do pecador arrependido. A contrição e o amor,
unidos ao Sangue divino do Cordeiro restituíram-lhe a paz juntamente com a segunda
inocência.
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“
Meu padre, disse ele ao levantar-se, jubiloso, dos pés do confessor, já que me não foi dado
confessar-me com o pe. Paulo, suplico-lhe relate ao mesmo o que acaba de ouvir,
recomendando-lhe este pobre pecador
”
.
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No primeiro encontro disse o pe. Luís ao servo de Deus:
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“
V. Paternidade aterroriza os pobres pecadores
”
.
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E relatou-lhe o fato.
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“
Ó meu Deus, exclamou o santo, humilhado, não é esta a primeira vez que o meu Anjo da
guarda se reveste de minhas pobres feições
”
.
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