O ABANDONO EM DEUS

Dirigindo as almas sempre para a humildade e para as virtudes sólidas, o incomparável mestre elevava-as, gradativamente, ao mais alto grau de oração, ao recolhimento, ao silêncio espiritual, ao descanso, à união e à transformação divina. Várias pessoas, religiosas e seculares, dirigidas pelo nosso santo, morreram em odor de santidade. Citemos apenas sóror Maria Querubim Bresciani, Inês Grazi, Rosa Calabresi, sóror Maria Crucifixa, Lúcia Burlini, etc..

Aduzamos, em confirmação do que dissemos, algumas citações; guardemo-nos, porém, de escalpelá-las com seca e árida análise.

“ Quando estiver bem aniquilada, bem desprezada e convencida do seu nada, peça a Deus lhe permita penetrar em seu divino Coração, e Ele não lho negará. Permaneça como vítima naquele divino altar, em que arde eternamente o fogo do santo Amor. Deixe que essas chama. sagradas penetrem até a medula de seus ossos e a reduza a cinza. Em seguida, se o Divino Espirito Santo dignar-se elevar essa cinza à contemplação dos divinos mistérios, consinta que sua alma se abisme na santa contemplação. Oh! como isto agrada a N. Senhor! ”

Para melhor se fazer compreender, elucidava esses ensinamentos com graciosas comparações.

“ Veja essa criança. Após haver acariciado a mãe e brincado em torno dela, descansa e dorme em seu regaço, continuando, contudo, a mover os labiozinhos para sugar o leite. Assim a alma, esgotados os afetos, deve dormitar no seio do Pai celeste, não despertando dessa consideração de fé e amor sem consentimento do Soberano Bem ” .

Dizia ainda:

“ Permaneça em descanso. Se o Esposo a convidar ao sono, durma tranqüila e não desperte sem sua permissão. Esse sono divino é dom outorgado pelo Pai celeste aos filhos queridos: sono de fé e de amor, em que se adquire a ciência dos santos e onde não há lugar para as amarguras das adversidades... Oh! silêncio! Oh! sono sagrado! Oh! solidão preciosa! ”

“ Seja sempre e cada vez mais humilde; seja verdadeiramente pobre de espirito; despoje-se de todos os dons, porque nós os maculamos com as nossas imperfeições. Ofereça sacrifícios de louvor, honra e bênção ao Altíssimo, vivendo em absoluto desapego. Esses sacrifícios devem ser ofertados em fogo de amor, conservando-se a alma no sagrado deserto ” .

Ensina o santo que, uma vez por outra. durante o sono interior, Deus convida a alma a certas práticas piedosas.

“ Quando a alma é convidada à doce solidão, ao silêncio sagrado da fé e do amor, que a obriga a rogar pelas necessidades particulares e gerais da igreja e do mundo, deve ela obedecer prontamente: em cessando, porém., esse movimento interior, volte ao repouso em Deus. Se o descanso se converter em sono de amor e de fé, tanto melhor. Se for humilde e se estiver encerrada em seu nada, espero que a divina Bondade lhe fará compreender esta linguagem ” .

Eis como descreve os TOQUES divinos, que excitam a alma a. desapegar-se de tudo e de si mesma, para abismar-se em Deus:

“ Conserve, diligentemente, em seu interior, as torrentes do amor, ofertas da divina Bondade. embora Jesus, depois da sagrada Comunhão, já possua o seu coração. Não O amará, sem o manancial vivo do santo e puro amor, isto é, sem o divino Espirito Santo... Quando Deus lhe proporcionar essas torrentes, dádivas assinaladas do divino Amor, lance-se no Infinito Bem, e comporte-se como criança, dormindo o sono de fé e amor no seio do celeste Esposo. O amor pouco fala. Note se essa soberana graça de oração, mercê do Altíssimo, lhe proporciona conhecimento mais profundo do seu nada. Viva oculta às criaturas e patente só a Deus, com ardente desejo de sua maior glória, com total menosprezo de sua pessoa, com a prática de todas as virtudes, notadamente da humildade, paciência, doçura, tranqüilidade de coração e amabilidade no trato com o próximo ” .