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O pe. João Batista adoecera de febre terçã, enfermidade passageira no entender doe médico:.
Paulo, porém, repetia apreensivo:
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“
Meu irmão morrerá desta doença. Sei o que digo; vê-lo-eis em breve
”
.
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A febre progredia. Certo ele também do fim próximo, jazia no pobre leito, sempre absorto
em altíssima oração. Paulo, por sua vez, estava de cama, prostrado por forte ataque de gota.
Ambos se viam privados daqueles recíprocos estímulos que tanto, os fortificavam.
Passados alguns dias, Paulo melhorou. Apoiado em muletas, pôde arrastar-se até o leito do
querido irmão, já quase moribundo,. Com ternura, perguntou-lhe
Inspirando-se nas palavras e no heroísmo de Judas Macabeu, respondeu-lhe o enfermo:
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“
SI APPROPIAVIT TEMPUS NOSTRUM, MORIAMUR FORTITER
”
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- se chegou o nosso
tempo, morramos corajosamente (Mac. 9, 10).
Para melhor dispô-lo aos amorosos amplexos do Redentor,, discorria o santo sobre as
incomparáveis belezas do paraíso; excitava-o a vivos sentimentos de fé, esperança e amor,
ao perfeito abandono à vontade divina. Ajudava-o e o servia por si mesmo deixando
transparece, a pesar seu, a profunda dor que o amargurava. À vista, porém, da resignação do
enfermo, adorava o divino beneplácito.
Aconselhava-lhe o moribundo:
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“
Busquemos unicamente a glória de Jesus Crucificado. Apascente o pequeno rebanho que o
Pai celeste lhe confiou. Atenção, muita atenção no admitir os postulantes e em fazê-los
ordenar. Com essa diligência sereis poucos, é verdade mas, um batalhão escolhido, todo
consagrado à glória de N. Senhor
”
.
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Para fortalecer-lhe sempre mais a alma, o santo multiplicava as absolvições sacramentais.
Perguntava-lhe amiúde se algo o inquietava.
respondia o enfermo, com o sorriso nos lábios.
Ao aproximar-se o momento fatal, suplicou-lhe Paulo dele se lembrasse no paraíso. João
Batista, com simplicidade, o prometeu.
Entrou, finalmente, em agonia. Conservava o espírito fixo em Deus, único objeto de seu
amor.
Paulo, conforme o costume do Instituto, convocou todos os religiosos à cela do moribundo e,
com muita piedade e ternura, começou as orações da ENCOMENDAÇÃO DA ALMA.
Todos choravam, desejando na hora suprema serem assistidos pelo santo Fundador.
Como se vislumbrara na fronte do irmão as primeiras fulgurações da eterna glória, entoou
com voz plangente, mas entusiasta, a SALVE-RAINHA, continuada pelos religiosos.
Recitavam ainda essa belíssima oração e a alma de João Batista voava para o seio de Deus.
Era sexta-feira, 30 de agosto do ano de 1765. Contava 70 anos e alguns meses de idade.
Os santos não são insensíveis, pois a graça não destrói a natureza, mas a eleva e a enobrece.
Mais do que ninguém possuem delicada e ardente sensibilidade.
Paulo tinha o coração lacerado. Era homem e não o dissimulava. A fé e o amor
reprimiram-lhe até então as lágrimas, mas agora já as não podia reter. Como são Bernardo,
em semelhante circunstância, pagou o tributo à natureza.
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“
Correi, correi, ó lágrimas, que já vos não posso reter! Já não vive quem as impedia de
caírem... Não foi João Batista que morreu, fui eu, que não vivo senão para morrer
”
.
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E prosseguia:
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“
Agora que meu irmão morreu, quem me mortificará, quem me corrigirá? Ah!
tenho sobejos motivos para chorar; perdi o vigilante guarda da minha alma
”
.
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E repetia:
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“
Quem me corrigirá os defeitos?...
”
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[ S. 1. 768 § 63. Vida escrita pelo Pe. João Maria Cioni,
ed. 1934, p. 215-221].
Pago esse tributo à natureza, depositou sua aflição nas chagas do Salvador, exclamando:
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“
OBMUTUI ET HUMILIATUS SUM - guardei silêncio e humilhei-me
”
.
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As lágrimas deram lugar às orações em sufrágio da alma do falecido.
Ó Religião do Calvário, como és formosa e consoladora! Como elevas o homem,
divinizando-lhe a dor!
O santo ancião, que apenas podia ter-se em pé, fêz questão de celebrar os funerais,
mergulhando o morto querido no Sangue divino do Cordeiro. No decorrer das cerimônias, a
voz de Paulo era um amálgama de lágrimas, de esperança, de resignação e de amor.
Interrogado pelo confessor, logo após a santa missa, onde estaria a alma do finado,
respondeu
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“
Não posso negá-lo, senti imensamente a morte de meu irmão; no entanto, se Deus me
perguntasse: Queres que ressuscite a teu irmão? Se o desejares, fá-lo-ei, mas eu prefiro que
continue morto; eu logo responderia: Não quero, Senhor, senão o que quereis; morto também
eu o quero
”
.
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O conceito que são Paulo da Cruz tinha de seu irmão se deduz das seguintes
expressões: o Pe. João Batista
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“
é tão assíduo na oração, que não há na Congregação quem o
iguale
”
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“
teve uma morte verdadeiramente santa, como santa foi sua vida
”
;
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“
foi tal o
concurso de povo, que foi preciso colocar guardas junto ao seu cadáver
”
.
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Assevera ainda
que com suas relíquias muitos conseguiram graças.
Virtude tão heróica foi logo recompensada. Enquanto meditava estas palavras: REGEM CUI
OMNIA VIVUNT, contemplando em Deu o Princípio de todos os seres, luz celeste lhe
certificou que o irmão gozava da eterna bem-aventurança. A partir instante, sempre que
falava de João Batista transfigurava-se-lhe o rosto e exclamava:
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“
Não, meu irmão não morreu... não morreu... ele vive em Deus...
”
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