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Mas, que são todos os assaltos do inferno em comparação com as provações divinas? Cerca
de cinqüenta anos viveu Paulo em trevas, aridezes espantosas e desolações internas. De
tempos a tempos um raio de luz vinha espancar essas trevas, como nas prisões dos mártires.
N. Senhor, que se comprazia em fazer-se procurado pelo servo fiel, privava-o da doçura das
consolações e das luzes com que outrora o favorecia. Permanecia no âmago de seu coração,
mas, Paulo só o via irritado contra si!
Eis o término da Paixão: o cimo da Cruz, o desamparo do Calvário. A paz, a luz, o amor,
tudo desaparecera. O espírito de Paulo jaz submerso num oceano de tristeza, envolto em
densas obscuridades: Deus se retirara e escondera. Já o não vê em sua alma, nem o percebe
no coração. A fé ocultara-se em noite lúgubre. O Céu já lhe não pertence; escancara-se-lhe
aos pés o báratro infernal!... Desamparado do Céu e da terra, pede ajuda, implora um raio de
luz... Nada, ninguém responde... apenas o tétrico silêncio de morte.
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“
Paulo, escreve são Vicente Strambi, foi martirizado pelos demônios, perseguido pelos
homens e provado por Deus com dolorosas enfermidades: nada obstante, não foram essas as
mais terríveis provações. O cravo que lhe trespassou o coração, a suprema agonia de sua
alma, foi o temor de haver perdido a Deus, de jamais poder contemplar-lhe o divino rosto. O
pobre Paulo que, abrasado de amor, desde a mais tenra idade aspirava por essa união!... que,
para possuir eternamente o seu Deus, tudo abandonara; que, para agradar-lhe, houvera
sacrificado mil vidas... perdê-lo, e perdê-lo para sempre?! Para ele não há mais lenitivo nem
consolo. Seu coração lança-se para Deus com todas as forças... mas é repelido, golpeado,
ferido por mão de ferro...
”
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Ó abandono do Gólgota! Ó trevas espantosas! angústias, agonias, desolações!...
Não há negar, o nosso santo tragou até a última gota o cálice do Redentor.
Desse profundo abismo, em meio das ondas encapeladas pela furiosa tempestade, perseguido
por todos os lados, o coração trespassado, respirando com dificuldade, desprende-se-lhe do
peito o brado do abandono, o lúgubre lamento:
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“
MEU DEUS, MEU DEUS, POR QUE ME ABANDONASTES? (Mat. 27,46). Oh! em que
estado me acho! Temo a cada instante a voz do Senhor, ordenando à, terra que me trague!...
”
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“
Estou em meio dos combates, - escrevia a um de seus religiosos - mas Deus não permite
que isto se manifeste no exterior. Até no sono me persegue a tormenta e desperto a tremer.
-Já faz anos que me encontro neste estado...
”
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“
Grande Cruz pesa sobre mim há tanto tempo, sem consolação alguma. Comparo-a ao
granizo, pois de todo se lhe assemelha. Estou como um homem em alto e revolto mar e
ninguém me apresenta uma tábua de salvação. Resta-me, todavia, um raio de esperança, bem
fraco, é verdade, que apenas o diviso
”
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“
Imaginai, prosseguia, imaginai pobre náufrago agarrado a uma tábua: cada onda, cada
lufada de vento o apavora... vê-se no fundo do mar... Imaginai um condenado à força:
palpita-lhe o coração e estremece sob o peso de contínuas ansiedades. Oh! que horrível
expetativa! Julga continuamente haver chegado a hora fatal... esse o estado de minha alma!
”
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Seu único refúgio era o abandono em Deus. Como Jesus, desamparado, ele se lança nos
braços do Altíssimo:
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“
MEU PAI, EM VOSSAS MÃOS ENTREGO MINHA ALMA (Luc. 23, 46)
”
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Exclamava ainda:
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“
Podeis fugir, ó meu Deus: seguir-vos-ei sempre, sempre serei vosso filho...
”
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Ouviram-no protestar, na cela, com indizível ênfase:
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“
Não desejo outro bem senão ao meu Deus. Ó bondade infinita do meu Jesus!... Fugi, ó
Senhor; fugi para onde quiserdes, que eu serei vosso e vos seguirei sempre: sim, serei
sempre e inteiramente vosso
”
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