CANÇÕES DE AMOR

De tempos a tempos, em meio deste oceano de sofrimento, alçando a cabeça sobre as ondas, canta-a com santo entusiasmo.. O canto é a efusão das grandes almas. Todos os santos cantaram os mártires do sangue, nos patíbulos; sobre o altar do sacrifício, os mártires da caridade.

Nos cânticos de amor de Paulo da Cruz retratam-se os cânticos de amor dos Franciscos de Assis e das Teresas:

AMOR AO SOFRIMENTO

E' na Cruz que o santo Amor
A alma amante purifica,
Quando férvida, constante,
A Ele toda se dedica.

Quem me dera descrever
O tesouro alto, divino,
Que encerrou no sofrimento
O grande Deus Uno e Trino!

Mas, por ser grande segredo,
Só revelado cio amante,
De longe apenas o admiro
Eu, que sou pobre ignorante.

Quão feliz o coração
Que, na Cruz abandonado,
Se consome em santo amor,
Entre os amplexos do Amado!

Mais ainda é felizardo
Quem, no seu puro penar,
E' em Cristo transformado,
Sem a sombra do gozar.

Oh! feliz é quem padece
Sem apego ao seu sofrer,
P'ra mais amar quem o fere,
Só buscando a si morrer!

Com Jesus à Cruz pregado,
Eu te, dote esta lição;
Muito mais aprenderás
Quando imerso na oração. Amém.

Coisa admirável! Quando Paulo sofria maiores aridezes, trevas e abandonos da parte de Deus, então é que lhe brotavam da coração vivíssimos transportes de amor e puríssimas luzes do Céu. Mas, ainda assim, se lhe ocorria a idéia da condenação, tremia dos pés à cabeça, fazendo tremer aos seus ouvintes. Mesmo nessas ocasiões, porém, compreendia, à primeira palavra, o estado das almas, divisava os perigos e as dificuldades, inspirando-lhes coragem, sugerindo-lhes os meios eficazes para vencerem as tentações e se disporem aos favores celestes.

Estava em trevas e espargia luz; em aridezes e abrasava. os corações; em desolações e consolava maravilhosamente as almas!

Quem lhe desconhecesse o interior, tê-lo-ia por alguém que nadasse em grandes consolações. E' que as virtudes varonis não necessitam das doçuras concedidas à debilidade dos principiantes.

N. Senhor, ocultando-lhe os méritos, ocultava-lhe outrossim o estado de sua alma. Eis a razão por que, hábil no consolar a outrem, não conseguia elevar-se do abismo de amarguras em que se achava, nem valer-se dos conselhos dados às almas ou encontrados nos livros.

Dizia ao diretor:

“ Estou envolto em trevas e obscuridade; agitado de temores e inquietações, não encontrando nenhum livro que me auxilie e tranqüilize. Li o tratado místico de Taulero: deparei com alguma coisa, mas não me satisfez... E' mister continuar vivendo entre ondas e tempestades ” .

Ainda lobrigaremos na alma do servo de Deus alguns relâmpagos, ainda ouviremos alguns ribombos de trovões, mas serão tormentas de verão, logo dissipadas pela bonança e pela serenidade, prêmio das lutas passadas, penhor da eterna tranqüilidade do paraíso.