PAULO PREGA O JUBILEU EM ROMA

No mesmo ano, conforme a praxe, publicara Clemente XIV um jubileu extraordinário pela sua elevação ao sólio pontifício.

Santos e ardorosos missionários deveriam pregar missões nas principais igrejas de Roma, a fim de disporem as almas ao precioso tesouro das indulgências. O Santo Padre incumbira ao cardeal Vigário da escolha, com a condição, porém, de não faltar o grande apóstolo (Ia, Paixão, caso seu estado de saúde o permitisse. Foi o cardeal pessoalmente à residência do Santo Crucifixo comunicar a Paulo os desejos do Pontífice.

Escusou-se por modéstia o humilde ancião, alegando o peso dos anos, o estado de saúde e a quase completa surdez. Respondeu-lhe o cardeal:

“ Pe. Paulo, possuís excelente voz; quanto à surdez, basta que não sejam surdos vossos ouvintes ” .

Reconhecendo sempre na vontade dos superiores a vontade de Deus, submeteu-se à obediência, preparando-se, com o estudo e a oração, para essa última batalha por Deus e pelas almas.

Colonna pôs à escolha do servo de Deus três igrejas: São Carlos no Corso, Santo André delle Araste, freqüentada pela alta sociedade romana, e Santa Maria da Consolação, em arrabalde de gente pobre.

Como era de esperar, preferiu Paulo a última, dizendo que N. Senhor o enviara a evangelizar os pobres:

“ EVANGELIZARE PAUPERIBUS MISIT ME (Luc. 4, 18) ” .

Não esteve sua eminência pela escolha. Admirou a humildade do santo, mas desejava campo mais vasto ao zelo do apóstolo, para mais abundantes serem os frutos de suas palavras.

“ V. revma. pregará na basílica de Santa Maria do além-Tibre ” ,

concluiu o cardeal.

Iniciar-se-ia a missão no dia 10 de setembro; dias antes violenta febre prostra o santo missionário. Afligiu-se deveras o Soberano Pontífice, enviando imediatamente ao Santo Crucifixo o próprio confessor para consolar o amigo e seu médico para o tratar.

Comoveu-se o humilde religioso à afetuosa solicitude do Pontífice, exclamando, a chorar:

“ Donde a mim tanta ventura? Eu, o menor filho da santa Igreja...? ”

Geral foi o desapontamento, quando viram no púlpito, ao invés do célebre missionário, a um de seus filhos, mas o desapontamento se converteu em angústia ao saberem do motivo da substituição.

Verdadeira multidão dirigiu-se ao Santo Crucifixo para saber da gravidade da doença e se ainda havia esperança de ouvi-lo,

O anelo do povo e a mágoa do Pontífice conseguiram de Paulo um ato heróico. Debilitado pela febre, convalescente ainda, levantou-se do leito e dirigiu-se ao combate!...

“ Se aqui me encontro, exclamava o atleta de Cristo ao imenso auditório, se aqui me encontro, devo-o ao valor da obediência ao Santo Padre ” .

Geral era a comoção ao contemplarem o venerando ancião, levado ao púlpito pelos braços de pessoas caridosas. Todavia, na cátedra da verdade, ele se transformava. Apoiado ao bastão, descalço, de cabeça descoberta, como em anos passados, o zelo renovava-lhe as energias. O fogo da juventude reanimava-se-lhe nos olhos; a voz, sempre vibrante e sonora, verberava os vícios ou magnificava a virtude. Quando discorria sobre a Paixão de Senhor, desfazia-se em lágrimas e obrigava a todos a chorarem com ele.

Roma em peso se comove: nobres e plebeus, prelados e cardeais, todos ouvem aquela sublime linguagem como eco do Céu, onde já pairava a alma do apóstolo.

Aumentava dia a dia o concurso do povo. Tornando-se pequena a imensa basílica, teve que continuar as pregações na praça fronteiriça. Mesmo assim, milhares de pessoas foram obrigadas a retirar-se sem terem a consolação de ouvir a voz do Pregador.

Terminado o sermão, precipitavam-se sobre o santo: todos queriam tocar-lhe as vestes, beijar-lhe as mãos, vê-lo de perto. Homens vigorosos e uma companhia de soldados, mandados pelo cardeal Panfili, a custo conseguiam protegê-lo da multidão.

O Sumo Pontífice desejava, todas as noites, ter notícias do amigo, especialmente de sua saúde e do êxito de seus sermões. Satisfeito dos frutos colhidos pelo seu povo de poma, assim se expressava:

“ Deixai-o fizer, deixai-o fazer ” ,

como se dissera: veremos outros prodígios.

Foi o que sucedeu: a voz do apóstolo sacudiu toda Poma. Sua palavra poderosa repercutia em todas as igrejas, impulsionando irresistivelmente todas as almas. E' que Deus se comprazia em coroar, com a mais brilhante e fecunda das missões, no centro do catolicismo, na cidade dos grandes Apóstolos Pedro e Paulo, um apostolado de cinqüenta anos...

Na abundância de tão rica messe, apanhemos humilde flor, desconhecida aos olhos do mundo, mas toda fragrância aos olhos de Deus.

Enternecida com as palavras de Paulo sobre a Paixão de N. Senhor, a jovens princesa de Carignano sentiu nascer-lhe na alma imenso prazer pelas coisas do Céu. Renunciou aos prazeres mundanos, aos esplêndidos saraus, às estéreis frivolidades do século, para, de ajuste com seu marido, príncipe Dória, viver unicamente para Deus. Seu palácio tornou-se verdadeiro claustro.

Mudança tão repentina foi causa de murmuração entre os adoradores do mundo. Pesarosos pela ausência de unia princesa que, pela distinção da juventude, pelos dotes de inteligência e pela magnitude das riquezas, era o atrativo e o encanto das brilhantes reuniões, caluniaram-na de que os escrúpulos lhe haviam perturbado o juízo. Paulo, penalizado por essas calúnias, exclamou:

“ Que glória para Roma se pudera ufanar-se de possuir muitas loucuras como esta! ”

O servo de Deus animava-a à perseverança em meio dos doestos insensatos. Seus conselhos chegavam à jovem princesa por intermédio de santo sacerdote. O fulgor das virtudes da princesa fêz com que todos reconhecessem naquela alma o modelo da nobreza romana. Pregado o último sermão com força prodigiosa, fugiu Paulo dos aplausos, ocultando-se no Santo Crucifixo, para lá viver no recolhimento e na oração.

Com a definitiva e solene aprovação das Regras, julgava terminada a sua missão. Nutria um único desejo: retirar-se à solidão do Santo Anjo e ali terminar seus dias na paz do Senhor, dormindo o último sono ao lado de João Batista, o saudoso irmão.

Para despedir-se da Cidade eterna e enriquecer a alma com os tesouros das santas indulgências, visitou, em outubro, as sete basílicas.

Os grandes santuários, as relíquias dos mártires, notadamente dos Apóstolos Pedro e Paulo, seus patronos, reanimaram-lhe sobremodo o fervor.