CAPÍTULO XXXIV

1770 - 1771


VISITA A PROVÍNCIA DO PATRIMÔNIO

Principiava o ano de 1770. Surge por vezes, em pleno inverno, um desses dias ensolarados, que dá nova vida à natureza.

Também no ocaso da existência deparam-se por vezes essas transformações repentinas, brilhantes raios solares a reanimarem e revigorarem as forças debilitadas.

Foi o que se deu cola Paulo da Cruz.

Julgando-se com vigor bastante para empreender uma viagem, resolveu visitar os retiros do Patrimônio de São Pedro. Isto é, os dois do Monte Argentário, e os de Tarquínia, Tuscânia, Vetralia e Soriano.

Aos 19 de março solicitou permissão e a bênção do Santo Padre.

O Papa condescendeu com os desejos do santo, contanto que se não opusesse o cardeal Vigário.

Nessa ocasião manifestou o Santo Padre o desejo de cumulá-lo de novos benefícios e, como se nada houvera feito pelo Instituto, queixou-se de que Paulo nada lhe pedisse.

“ Admiro sua discreção, disse o Pontífice, mas, suplico-lhe, peça tudo o de que necessita, sem temor de ser importuno ” .

Paulo foi ter com o cardeal Vigário, que opôs dificuldades à partida, anuindo, afinal, com a condição de que estivesse de volta, ao mais tardar, para a festa de são João Batista. Temia sua eminência pela saúde do ven. ancião, desejando tê-lo em Roma antes dos excessivos calores do estio.

Antes de partir foi Paulo visitar os sepulcros dos Apóstolos são Pedro e são Paulo, recomendando-se à sua proteção.

No dia 27 de março de 1770, em companhia do confessor, dirigiu-se para Civitavecchia. Péssima era a estrada e o vento bastante frio. Paulo, muito teve que sofrer... Ao companheiro que, a sorrir, lhe perguntava se por essas estradas tinha puxado a carroça, respondeu Paulo

“ Carroça? Carroção! Ia e vinha de Roma ao Monte Argentário para os interesses da Congregação, sempre a pé e descalço, nos rigores do inverno como nos ardores do verão. Oh! quanto sofri! ” .

À tarde desse dia chegaram, tiritando de frio, à hospedagem de Monterone, onde, após tomarem leve refeição, pôs-se Paulo a falar de Deus às pessoas da casa, que, naquelas solidões, raramente tinham ocasião de ouvir a palavra divina. Discorria, como sempre, com extraordinário fervor, mas em tom familiar e persuasivo.

No dia seguinte, celebrada a santa missa, prosseguiu viagem. Em Civitavecchia, onde ainda viva era a lembrança de sua missão, deteve-se um dia, a instâncias do benfeitor que o hospedara. Inúmeras pessoas foram visitá-lo e aconselhar-se com ele. Aos 29 do mesmo mês chegava ao retiro de Tarquínia, recebido com indescritível alegria pelos religiosos.

Na manhã seguinte, abriu a visita canônica, pregando simultaneamente o retiro espiritual à comunidade. As lágrimas e o amor emprestavam-lhe às palavras irresistível eloquência.

Celebrou todas as cerimônias na festa de Nossa Senhora das Dores e durante a Semana Santa. Das exortações e conferências transpirava o incomparável apóstolo de Jesus Crucificado.

Depois da Páscoa, encaminhou-se para a querida solidão do monte Argentário, embarcando numa falua, em Corneto. Apenas se fizeram ao largo, violenta tempestade obrigou-os a desembarcarem na torre de Montalto. O santo aproveitou a ocasião para evangelizar os pescadores da praia.

Todo absorto em Deus, não percebeu que lhe cortavam pedaços da capa.

Essa ingênua piedade recebeu imediata recompensa. Pedindo-lhes o servo de Deus algum pescado, responderam nada possuírem.

“ Pois bem, meus amigos, lançai as redes ” .

“ Padre, é trabalho perdido, não sendo tempo propicio ” .

“ Que importa? Lançai as redes ” ,

insistiu o santo.

Por condescendência lançaram as redes e eis reproduzida a milagrosa pesca do evangelho... Duzentas libras de peixe, inclusive enorme esturjão!

Correram a mostrá-lo ao servo de Deus. Exclamavam, surpresos e reconhecidos:

“ Obrigado, padre, obrigado! Isto é milagre devido às vossas orações ” .

Como o mar tardasse em serenar, decidiu Paulo prosseguir a viagem por terra; impossível, contudo, encontrarem um coche. Então, confiando em Deus, resolveu seguir a cavalo. Andou assim cerca de vinte e seis milhas, com vento frio e tempo chuvoso. Ao cair da noite de 17 de abril, chegaram a Orbetello, onde contara entrar incógnito. Enganou-se, todavia. Com a rapidez do relâmpago, toda Orbetello soube da chegada do santo, acudindo em tropel, civis e militares, pobres e ricos, crianças e adultos e, por entre aclamações de alegria, acompanharam-no à casa do benfeitor. Passou a noite a receber visitas e a inflamar corações no amor a Jesus Crucificado. Desejava prosseguir viagem na madrugada seguinte, mas chuva torrencial obrigou-o a permanecer em Orbetello o dia todo. Ditosa chuva, que a cidade bendizia e que não temeu arrostar para estar aos pés do apóstolo, pedir-lhe a bênção e... cortar-lhe fragmentos do hábito e da capa.

Impaciente por rever a saudosa solidão onde passara a juventude, empreendeu corajosamente a subida do Argentário. Repetia de quando em quando:

“ Ah! quantas coisas me recordam estes montes! ”

Aumentou-se-lhe a comoção à vista dos religiosos, descendo contentes a encosta, ao encontro do Pai amadíssimo. Chegado aia retiro da Apresentação, deu principio à visita canônica. Que consolação não experimentou ao ver o fervor daqueles filhos, unidos todos pelos vínculos da verdadeira caridade! Encorajou-os a seguirem, sempre com o mesmo ardor, as pegadas de Jesus Crucificado.

Da Apresentação passou ao retiro de São José. Saíram-lhe ao encontro os noviços, fazendo ressoar pelas quebradas das montanhas, com voz vibrante, o hino BENEDICTUS.

Enternecido, começou a chorar. O confessor, servindo-se das palavras de são Francisco de Sales, interpelou-o

“ Está chovendo? ”

Respondeu-lhe o santo fundador

“ Como quer que não chore, quando me lembro que, ao subir pela primeira vez esta montanha, tinha apenas um pedaço de pão e vinte bagos de uva, recebidos de esmola em Pitigliano e agora contemplo duas casas repletas de fervorosíssimos religiosos que, dia e noite, contam os divinos louvores? ”

Escrevendo do Retiro da Apresentação aos 23 de abril de 1770, diz:

“ Achei este sagrado Retiro um verdadeiro santuário, cheio de verdadeiros servos do Altíssimo, que com seu fervor e santidade de vida repreendem minha grande tibieza... ”

Permaneceu vários dias no noviciado. Comprazia-se sobretudo em estar no meio daquela juventude, primeira florescência da alma, suave perfume do coração, encanto de inocência e de amor que, com embalsamar o santuário. parecia rejuvenescer o santo ancião. Falava com ternura verdadeiramente maternal àqueles filhos ainda necessitados de leite.

Numa de suas alocuções, discorreu de maneira tão comovente, que aquelas almazinhas em flor derramaram rios de lágrimas.

Nos recreios, era o primeiro a comunicar-lhes essa encantadora alegria, que faz da vida religiosa paraíso antecipado.

Para ouvi-lo melhor e não perderem palavra, agrupavam-se os jovens noviços em seu derredor. Certa feita, numa dessas recreações, tinha-os como suspensos de seus lábios, elevando-os insensivelmente da conversação jovial às belezas do paraíso. O pe. Pedro de São João, mestre de noviços, em arroubo de entusiasmo, atreveu-se a dizer-lhe:

“ Meu Padre, se v. revma. morrer longe de nós, digne-se legar em testamento ao noviciado seu coração; queremos conservá-lo aqui ” .

“ Meu coração ” ,

exclamou o santo desfeito em lágrimas e fazendo um gesto como se desejara arrancá-lo do peito,

“ meu coração merece ser queimado e lançadas suas cinzas ao vento, pois jamais soube amar a Deus ” .

Ditas estas palavras, retirou-se à cela, a fim de mais livremente chorar aos pés do Crucificado. Que exemplo e que edificação àqueles religiosos, que davam os primeiros passos no caminho da perfeição!