GRAVÍSSIMA ENFERMIDADE

No Advento, o servo de Deus desejava jejuar e abster-se da carne, conforme as prescrições da Regra, mas a isto se opuseram o enfermeiro, o médico e o confessor. Paulo obedeceu, embora a contragosto.

Na véspera da Imaculada Conceição, os demônios o maltrataram horrivelmente. Não sabia como defender-se. Para cúmulo de males, experimentava cruéis desolações de espírito.

Após uma noite de mortais angústias, ficou tão abatido, que não pôde celebrar a santa missa nem visitar o Papa que, naquela manhã, lhe enviara um coche para conduzi-lo ao Vaticano.

Dois religiosos foram notificar ao Soberano Pontífice o estado de saúde do servo de Deus. Clemente XIV, bastante preocupado, entregou-lhes 40 escudos para o tratamento do santo amigo.

Agravou-se-lhe, todavia, a enfermidade. O médico, julgando tratar-se de febre intermitente, aplicou-lhe uma sangria e prescreveu o quinino. Paulo a sorrir, disse ao confessor

“Isto não é doença para médico; é doença bernifal”.

Alusão ao demônio, a quem por gracejo chamava de Bernife.

Embora notasse que os medicamentos lhe aumentavam as dores, tomava-os por obediência. Não digeria alimento algum.

Aos 18 de dezembro, quiseram administrar-lhe o santo Viático. Paulo disse ao confessor:

“Este mal vem dos demônios, enviados por Deus para atormentar-me, mas não para matar-me. Não creio, pois, que morrerei por agora”.

Desconfiando, todavia, de si, preparou-se para a suprema viagem, recebendo, com muito fervor, o santo Viático. De manhã, pronunciou estas palavras

“Na verdade, nada me perturba, mas, por um ato de obediência a Deus, desejo a absolvição”.

Recebeu-a com a humildade de grande pecador, exclamando em seguida:

“Toda a minha confiança repousa na sagrada Paixão do meu Jesus. Sabe N. Senhor que sempre lhe quis muito bem e trabalhei a fim de que todos O arpassem. Espero usará de misericórdia para comigo... Ah! os pobres salteadores a quem auxiliei nas missões... eles rogarão por mim...!”

E repetia:

“Meu Jesus, misericórdia! Meu Jesus, misericórdia!”

Recebeu o santo Viático com extraordinária piedade. Os religiosos choravam de comoção. À tarde, agravando-se sobremaneira o mal, os médicos o desenganaram. Quando todos se retiraram, interrogou ao confessor:

“Estou deveras muito mal?”

“Sim”,

respondeu-lhe o padre.

“De há muito, prosseguiu o servo de Deus, N. Senhor me deu a conhecer que deveria passar por grave enfermidade, não, porém, mortal. Meu coração aceitou-a com prazer... Todavia, se morrer agora, peço por caridade celebrem-me as exéquias aqui na capela, sem nenhuma solenidade e, a horas caladas da noite, transportem-me secretamente à igreja de São Pedro e S. Marcelino e lá me enterrem sem nenhum aparato. Quando o meu corpo estiver consumido, coloquem os ossos num saco, ponham-no sobre um asno e os levem ao retiro do Santo Anjo para depositá-los ao lado de meu irmão João Batista”.

Ignorava Paulo as ordens do Santo Padre. Clemente XIV determinara depositassem-lhe o corpo na basílica de São Pedro, enquanto os religiosos da Paixão não tivessem igreja em Roma.

Ao dizer-lhe o confessor que, a respeito da sepultura, o Papa já providenciara, surpreso, exalou profundo suspiro e exclamou

“Ah! quisera morrer onde não pudessem tributar-me nenhuma honra”.

Vendo-o muito triste, acrescentou o confessor, para consolá-lo

“Obediência durante a vida, obediência na morte e obediência depois da morte! N. Senhor Jesus Cristo facultou aos discípulos enterrarem-no onde quisessem”.

A estas palavras, aquietou-se o enfermo, lançando-se nos braços de Deus. Perguntado como se sentia, respondeu

“Parece-me que não morrerei por agora”.

De fato, no decorrer da noite, benéfica transpiração e restaurador descanso trouxeram-lhe acentuada melhora. Ao acordar, tomou algum alimento.

Pela manhã, visitaram-no o cardeal Pirelli e mons. Zelada. Lm conversa com os dois ilustres prelados, asseverou-lhes

“Nunca temi tão pouco a morte como nesta ocasião. Na realidade, morrer não é coisa terrível, pelo contrário, é agradável. Se a morte é a privação da vida, quem no-la arrebata é Deus, que no-la deu.”

Acentuaram-se dia a dia as melhoras. Pretendia celebrar na noite cio santo Natal, mas o Sumo Pontífice, temendo uma recaída, lho proibiu.

Dizia com encantadora afabilidade:

“Costumam os príncipes no dia de seu aniversário natalício despachar favoravelmente os pedidos; do mesmo modo, no aniversário de seu Nascimento assinou o doce Jesus a súplica dos nossos religiosos, que desejam o prolongamento de minha existência. Quero, pois, com a graça de Deus, mudar de vida”.

A esperança de conservá-lo enchia de júbilo os corações, mas nova recaída fê-lo experimentar dores mortais. No dia doze de janeiro, perdeu por diversas vezes os sentidos. Uma sangria restituía-lhe a fala, sobrevindo-lhe, porém, violenta febre com freqüentes síncopes e tal prostração de forças, que todos o deram por perdido. Aos 22 do mesmo mês, pediu o santo Viático.

Jesus, ao descer àquela alma querida, fêz-lhe prelibar as alegrias do paraíso.

“Terminada a ação de graças, são palavras do confessor, encontrei-o perfeitamente tranqüilo. Disse-me, com admirável serenidade:”

“Agora já não receio a morte. N. Senhor quase me garantiu o paraíso. Quando um príncipe envia ministros a países distantes provê-os do necessário. N. Senhor, meu Deus e meu Pai, deu-me seu Filho Unigênito como Viático para a grande viagem à eternidade”.

As esperanças em breve se desvaneceram. As alternativas de melhoras e recaídas eram continuas. No dia 16 de fevereiro pediu novamente o Viático.

Desejando morrer como Jesus, pobre e despojado de tudo, mandou chamar o confessor, que desempenhava as funções de primeiro Consultor Geral, e lhe entregou todos os objetos de uso. Pediu-lhe apenas, por caridade, um hábito bem estragado, que lhe servisse de mortalha. Recomendou-lhe, com vivas instâncias, a pobre Congregação, concluindo

“De boa mente aceito a morte. Quem é culpado de lesa-majestade deve morrer. Eu sou culpado; é justo, pois, que morra”

Um dos presentes ponderou:

“Atualmente, pela graça de Deus, não o sois”.

“Ah? respondeu, não sabe o homem se é digno de amor ou de ódio. Nada obstante, eu espero: os méritos de Jesus Cristo são as minhas riquezas”.

Pediu ao confessor o absolvesse no momento de exalar o último suspiro. Este, desfeito em lágrimas, caiu de joelhos, suplicando-lhe a bênção. Paulo o abençoou com o Crucifixo, dizendo

“Deus lhe conceda o seu Santo Espírito - CONCEDAT TIBI DEUS SPIRITUM SANCTUM”.

“Agora, acrescentou, ide, de minha parte, dizer ao Sumo Pontífice, que desejo morrer como verdadeiro filho da Santa Igreja”,

O Papa, vivamente comovido, enviou-lhe de novo a bênção apostólica com indulgência plenária em artigo de morte.

No entanto, o mal cedera, novamente, podendo Paulo, embora sempre enfermiço, ocupar-se do governo do Instituto e da fundação do mosteiro das religiosas Passionistas, em Corneto.

Era o coroamento de seus desejos: dar à Cruz nova família de virgens que, emulando o fervor de seus filhos, seguissem o Esposo Crucificado pela estrada do Calvário. Diz-nos expressamente seu confessor que o servo de Deus, embora achacado pelas suas doenças, não perdia de vista a Congregação e o governo que, como à cabeça, lhe estava confiado. Por isso animava oralmente os religiosos a santamente... agirem e, por meio do secretário, escrevia aos Retiros cartas cheias de santos avisos...

Estando tudo preparado para a inauguração do primeiro mosteiro das Passionistas, mandou como seu representante o Pe. João Maria de Santo Inácio.

Porém, essas consolações espirituais já lhe não alentavam o corpo debilitado. Nova recaída reduzira-o ao extremo. Temiam a cada instante o desenlace fatal.

Demos a palavra ao irmão enfermeiro. Seu depoimento foi confirmado por outras testemunhas:

“Achava-me na residência do Santo Crucifixo, perto de São João de Latrão, quando gravíssima enfermidade reduzira o pe. Paulo quase à agonia. O dr. Giuliani, médico do hospital de S. João de Latrão, tratava o servo de Deus, visitando-o diariamente. Percebendo que o mal progredia, garantiu-nos que o enfermo não passaria a semana. O pe. Procurador Geral e eu fomos avisar o Papa de que o pe. Paulo estava nas últimas. Referimos a Sua Santidade o que nos dissera o médico”