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Enquanto se construía o mosteiro, Paulo, na solidão do Santo Anjo, compunha as Regras de
suas futuras filhas em Jesus Crucificado.
Entregava-se a prolongadas orações, consultava a dois de seus filhos, repletos da ciência
dos santos, e escrevia.
Essas constituições são semelhantes às que Paulo compusera, inspirado pelo Espírito Santo,
em São Carlos de Castellazzo. Há pequenas alterações, apropriadas às esposas de Jesus
Cristo. Sendo impossível analizá-las pormenorizadamente, lancemos rápido olhar sobre o
conjunto.
Basta percorrê-las de relance, para concluir-se que foram inspiradas por Deus. Retrata-se
nelas, em certo modo, a alma do santo.
Quem as lê sente-se abrasado no fogo sagrado que lhe inflamava o coração. Respiram
perfumes celestiais.
Paulo põe como base da perfeição religiosa a Paixão de N. Senhor, princípio gerador de
todas as virtudes.
Pela contemplação perene do Redentor, as religiosas reproduzirão em si as dores de Jesus,
suas chagas, agonia, morte... Morrerão para o mundo e para si mesmas, haurindo em Jesus
Crucificado TODOS OS TESOUROS DA SABEDORIA E DA CIÊNCIA (Coloss. 2, 3).
Caminhando sem cessar pelas pegadas do celeste Esposo, quais esposas fiéis, elevar-se-ão
de virtude em virtude ao cimo da sagrada montanha da perfeição; unir-se-ão a Deus,
vivendo. unicamente dele e para Ele: vida de amor, VIDA OCULTA EM DEUS COM
JESUS CRISTO (Coloss. 3,3).
O santo Fundador não podia deixar de assinalar, entre os dias da semana, a sexta-feira.
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“A sexta-feira será para as irmãs dia solene. Até a hora da refeição, meditarão as dores do
Redentor, farão a Via Sacra ou outras práticas de piedade, mortificar-se-ão em louvor do
divino Esposo Crucificado. Nesse dia, uma religiosa, designada por sorte, visitará por 33
vezes o ss. Sacramento, memorial da Paixão de Jesus Cristo”.
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Como auxilio à vida interior e para que as religiosas possam gozar das delícias da divina
presença e da oração, prescrevem as Regras que cada qual trabalhe em sua cela,
conservando-se na presença de Deus pela recitação contínua de orações jaculatórias, a
exemplo dos antigos anacoretas e dos Padres do deserto, que trabalhavam com as mãos,
conservando o espírito e o coração absortos em Deus.
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“Todavia, façam tudo com espirito de doçura e tranqüilidade”.
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A vida das religiosas Passionistas deve ser, pois, vida de trabalho, de oração, de paz, de
tranqüilidade de espirito, de santa alegria, beijando em silêncio as chagas do Salvador.
Maria sereis o modelo da alma que vive sempre ao pé da Cruz:
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“Em suma, dirijam-se, como fiéis servas e boas filhas, a Maria, a Imaculada Mãe de Deus,
invocando-a em todas as necessidades da alma. Esmerem-se particularmente por permanecer
em espirito no Calvário, meditando e compartilhando os cruéis tormentos suportados por
Maria na Paixão e Morte de seu divino Filho, procurando outrossim, com palavras e obras,
nas ocasiões que se apresentarem, insinuar com bons modos essa devoção, culto e
compaixão para com as Dores de Maria”.
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Além dos votos ordinários de pobreza, castidade e obediência, emitem voto de clausura e de
propagar a devoção à Paixão de N. Senhor.
Mas, como poderão cumprir este último voto, na solidão do claustro?
Vejamo-lo. Por ventura a vida dessas religiosas não é a pregação mais eloqüente de Jesus
Crucificado? Certamente. O mundo não lhe contempla a imolação diária no altar da Cruz,
mas cada pedra de seus mosteiros está a bradar: Almas cristãs, não olvideis o preço de
vossa redenção! O sino dos conventos, de som melancólico e suave (causa de remorsos para
os pecadores), faz-nos pensar no Deus do Calvário, quando, principalmente às quinze horas
de sexta-feira, chora a agonia de um Deus! E lá, no interior do santuário, a voz daquelas
virgens, pura como a dos Anjos, que é que nos diz? Almas mundanas, se pensásseis nos
sofrimentos de Jesus, amaríeis tão freneticamente os prazeres da terra?
Se essas virgens admiráveis não vão do claustro ao mundo, muitas almas tristes e sofredoras
vão do mundo ao claustro mendigar-lhes palavras de paz, de luz e de consolação. Quantas
jovens, escravizadas pelas vaidades, fonte de amargura e desenganos, desprezaram essas
frivolidades ao visitar um mosteiro e ao respirar o suave perfume que se exala das grades do
místico jardim do Esposo?!
Ademais, não é a oração o mais eficaz dos apostolados?
Além de rezarem diariamente cinco pai-nossos e cinco ave-marias para a propagação da
devoção a Jesus Crucificado, as religiosas da Paixão pedem a Deus assista com sua graça
aos missionários Passionistas neste sagrado ministério. Esforçar-se-ão, por sua vez, em
inflamar as almas de amor às chagas de Jesus, com explicarem a doutrina cristã às crianças
de primeira Comunhão e às senhoras e moças, que se retiram aos seus mosteiros para
exercícios espirituais.
Finalmente propagam tão salutar devoção quando, por necessidade ou caridade, seja por
escrito seja à viva voz, se comunicam com seus pais ou com outras pessoas seculares.
Se toda Ordem religiosa recebe graças especiais, quão notáveis e fecundas devem ser as que
recebem as religiosas da Paixão! Que preciosa coroa há de brilhar na fronte dessas esposas
de Jesus Crucificado!
Se a devoção a Jesus Crucificado, no dizer dos santos doutores, é a origem de todas as
graças, o caminho mais breve para a perfeição, a vereda segura para a eterna glória e para
merecer a incomparável palma dos mártires, que dizer de uma vida toda entregue à prece e
às lágrimas, ao pé da Cruz?
Tal foi a vida da ss. Virgem. Sempre no Calvário, imersa sempre na contemplação dos
cruéis tormentos de seu divino Filho!
Santa Maria Madalena, no deserto, suplicava a Jesus lhe ensinasse como passar os dias de
seu desterro. Apareceu-lhe são Miguel com uma Cruz. O arcanjo colocou-a à entrada da
gruta, para significar a Madalena que deveria meditar continuamente a sagrada Paixão de seu
Jesus.
E' o que fazem as religiosas Passionistas. Saiba o mundo, di-lo-emos bem alto, embora
ferindo no mais vivo a modéstia daquelas santas almas, as religiosas da Paixão souberam até
hoje satisfazer às doces esperanças do divino Esposo Crucificado. Uma revelação à grande
serva de Deus santa Gema Galgani no-lo patenteia à evidência. Ansiosa por sacrificar-se à
justiça divina pelos pecadores, desejava ardentemente abandonar o mundo e tornar-se
religiosa Ouvira o Redentor dizer que
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“a justiça de seu eterno Pai exigia vítimas”.
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E N.
Senhor acrescentou:
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“Quantas vezes detive seu braço vingador, com apresentar-lhe um
pugilo de almas queridas, vitimas de extraordinário valor! Suas penitências, mortificações e
atos heróicos aplacaram-nO. Agora ainda lhe ofereço vitimas para O apaziguar, mas são
poucas”.
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Perguntou Gema:
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“As filhas da minha Paixão. Se soubesses quantas vezes meu Pai se aplacou ao
contemplá-las!”
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Se Gema desejava ser religiosa Passionista, a começar de então esse desejo tornou-se-lhe a
paixão dominante.
Embora não lograsse consegui-lo, muito trabalhou e rezou para a fundação das Passionistas
em Luca.
Que Jesus Crucificado conserve sempre este celestial aroma de santidade nos claustros de
suas prediletas filhas, as religiosas Passionistas!
Santa Gema Galgani, nascida em Camigliano (Luca), aos 12 de março de 1878, de pais
verdadeiramente cristãos, deu-se a conhecer desde a infância como alma privilegiada, uma
dessas vitimas de propiciação, imagens perfeitas do Coração de Jesus, verdadeiros Anjos de
paz, enviados à terra para abrasá-la e forçá-la a levantar a vista para o Céu.
A oração e o desejo de agradar a Deus foram a única aspiração dessa alma; seu único anseio
era padecer, consumir-se pela glória de N. Senhor, alma de sua alma. vida de sua vida.
Parece que Deus a enviara ao mundo somente para amar e padecer.
Aos nove anos recebeu pela primeira vez, em transportes seráficos, ao Deus da Eucaristia, e
este primeiro contato com Jesus-Hóstia abrasou-lhe o coração em labaredas de amor.
Comungava diariamente.
Distinguiu-se pelo desprendimento total das criaturas, pelo espírito de penitência e
mortificação, por profunda humildade, rara modéstia, castidade angélica. Finalmente,
singular foi o amor de Gema ao sofrimento, desejando assemelhar-se a Jesus Crucificado e
ser vitima de expiação pelos pecadores.
Era esta, não há dúvida, a vontade de Deus em relação a Gema Galgani. pois, desde a mais
tenra idade, foram tais e tantos os sofrimentos de sua vida. que podemos chamá-la duro e
continuado martírio.
O demônio a perseguia e cruelmente a atormentava; por outro lado, Jesus e Maria
visitavam-na freqüentemente, fazendo-lhe prelibar doçuras inefáveis Tinha quase de
continuo a presença visível do Anjo da guarda, seu instrutor nas vias da perfeição e seu
companheiro na recitação dos divinos louvores. A medida que crescia em idade e em
virtude, crescia outrossim no amor de Deus, chegando à perfeita e perene união com o Sumo
Bem, após passar pelos diversos graus da vida mística. Sublimada à vida celeste,
tornaram-se-lhe estreitos os limites naturais do coração, dilatando-se-lhe prodigiosamente
até encurvar três costelas. Desprendia tanto calor, que chegou a queimar a carne e até as
vestes na parte que tocava o coração. Aplicando-se-lhe o termômetro, subia rapidamente o
mercúrio até cem graus, temperatura da água a ferver! Estava quase de contínuo em êxtase.
Uma palavra sobre N. Senhor arrebatava-a dos sentidos e a inflamava com se fora Serafim.
Teve todos os estigmas do Redentor. Da cabeça coroada de espinhos brotava sangue
abundante desde o anoitecer de quinta até a tarde de sexta-feira. Freqüentemente suava
sangue por todo o corpo, como o Salvador no Getsêmani, e, ao presenciar qualquer ofensa a
Deus ou ao ouvir uma blasfêmia, derramava lágrimas de sangue e agonizava com Jesus num
mar de dores. Consumida mais pelos ardores da divina caridade do que pelo martírio do
corpo, faleceu a santa donzela aos 11 de abril (sábado santo) de 1903, conforme predissera.
Contava cerca de 25 anos de idade, levando ao Céu o lírio da inocência batismal.
Deus, sempre admirável em seus santos, não tardou em glorificá-la na terra por maravilhosos
prodígios. A fama de sua santidade estendeu-se por todas as camadas sociais, podendo-se
dizer com toda verdade que suas virtudes abalaram o mundo inteiro.
A biografia desta inocente donzela, escrita por seu diretor espiritual pe. Germano de Santo
Estanislau, santo e sábio religioso Passionista, saiu à luz no ano de 1907. Em brevíssimo
tempo houve numerosas edições, sendo traduzida em quase todos os idiomas do universo, até
mesmo em chinês.
Considerando os admiráveis efeitos produzidos pela leitura dessa biografia, pode-se dizer,
sem medo de errar, que a divina Providência a destinou para realizar assinalado bem na
terra.
O processo ordinário de beatificação, terminado na Cúria eclesiástica de Luca, foi entregue
à sagrada Congregação dos Ritos em dezembro de 1910. Gema foi beatificada aos 14 de
maio de 1933 e canonizada no dia 2 de maio de 1940, por Sua Santidade o Papa Pio XII,
gloriosamente reinante.
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