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Voltemos à residência do Santo Crucifixo.
Em pobre e humilde cela, o santo ancião, do leito de dor, entrega a Jesus Crucificado uma
nova família religiosa. Esse leito foi para ele, durante dezoito meses, como que o crisol em
que se purifica o ouro.
Na primavera de 1772, readquirindo alguma força, amparado pelos enfermeiros e apoiado às
muletas, pôde ouvir missa e comungar diariamente. Essa melhora, no testemunho do próprio
Fundador, consistiu em levantar-se durante uma hora cada dia ou, melhor,
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“
em ficar sentado
fora do leito, sem poder caminhar a não ser com muletas e amparado por dois religiosos,
para se poder arrumar a cama
”
,
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como escreve a 14 de abril desse ano.
Desse jeito, mais ou menos, passou o restante do ano e a primeira metade de 1773.
Na festa do Corpo de Deus de 1773, o mistério do amor o fez transbordar e o reanimou a tal
ponto que conseguiu, embora
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“
com grandíssima dificuldade
”
,
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celebrar três vezes durante a
oitava. A seguir, porém, teve que se resignar a celebrar apenas alguma vez por semana, até
que a festa de são Bernardo (20 de agosto) lhe trouxe a consolação de recomeçar o santo
Sacrifício diário.
Era o ardor do espírito a triunfar da debilidade do corpo. Terminado o santo Sacrifício, não
se mantinha em pé. Deitado ou sentado, passava os dias na cela, transformada em verdadeira
escola de virtude.
Personagens os mais insignes principalmente sacerdotes, vinham visitá-lo. O Santo a todos
inflamava no amor a Jesus Crucificado, terminando por recomendar-lhes a meditação
assídua da sagrada Paixão do Redentor. Esse assunto fazia-lhe olvidar as dores que o
atormentavam. A voz, quase imperceptível, tomava então entoações prodigiosas.
Os alunos da Propaganda ficaram tristes ao saber que não podiam ser recebidos por estar o
Santo muito mal. Paulo, informado pelo enfermeiro, mandou-os entrar. Ao ver aqueles
jovens, destinados a derramar pela fé o suor e, quiçá, o próprio sangue, reanimou-se e, com
o rosto inflamado e voz sonora, como nos mais belos dias de seu apostolado, pôs-se a
exaltar a sublimidade da vocação a que foram chamados. Os jovens levitas, comovidos,
retiram-se dispostos a todos os sacrifícios pela salvação das almas.
O enfermo consagrava à meditação de Jesus Crucificado o tempo que passava a sós em sua
cela. A alma, em efusões de afeto, desabafava-se em jaculatórias, verdadeiros dardos de
amor.
Quando as dores eram mais violentas, os colóquios com Jesus Crucificado tomavam
inflexões de inefável ternura.
Respondia aos que dele se compadeciam
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“
É tão grande a felicidade que nos está preparada, que devemos reputar em nada os nossos
sofrimentos...
”
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Estava-lhe sempre nos lábios o cântico dos Serafins:
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“
SANTO, SANTO, SANTO Ê O
SENHOR...
”
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bem como este cântico de louvor:
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“
BÊNÇÃO, GLÓRIA, SABEDORIA, AÇÃO
DE GRAÇAS, HONRA, VIRTUDE E FORTALEZA A NOSSO DEUS NOS SÉCULOS DOS
SÉCULOS (Apoc. 5,13)
”
.
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Por vezes parecia que Deus o abandonava, desaparecendo-lhe da alma os raios da luz
celeste. Exclamava, então, todo resignado:
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“
Tratai-me como vos aprouver, ó meu Deus, jamais deixarei de amar-vos...
”
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Comovedora era a sua humildade. Obrigado por um de seus religiosos a repetir a célebre
oração de são Martinho:
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“
Senhor, se sou necessário a vosso povo, não recuso o trabalho
”
,
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sobressaltado de terror, como em presença de grave tentação, exclamou
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“
Qual! eu necessário! eu necessário! Jesus é necessário, só Jesus é necessário!
”
,
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acrescentando ainda:
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“
Ah! se me julgasse tal, crer-me-ia um condenado...
”
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Não somente se cria inútil, mas de pêlo a seus filhos, repetindo às vezes ao enfermeiro
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“
Oh! como sou pesado para a comunidade! Como sinto ver-vos ocupados sempre com minha
pobre pessoa! Chamai-me o Superior do vizinho hospital; vou pedir-lhe que me receba entre
os pobres enfermos
”
.
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Respondeu-lhe o enfermeiro que, ao invés de pêlo à comunidade, era de consolação a todos
e todos chorariam inconsoláveis a sua morte.
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“
Vossa grande caridade, replicou o Santo, vossa grande caridade é que me suporta, porque
apenas mereço ser abandonado como uma besta. Sou mais perverso que os mesmos
bandidos
”
.
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Voltando-se em seguida para o Crucifixo, batia no peito, dirigindo-lhe palavras de grande
humildade. O enfermeiro chorava ao ouví-lo; o santo enfermo tomou-lhe a mão e acrescentou
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“
Ah! meu querido irmão, quanto lhe sou obrigado!...
”
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O mais leve trabalho que lhe prestassem, aceitava-o todo humilhado, a titulo de esmola. Não
cessava de elogiar a caridade dos religiosos, repetindo sempre
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“
Que Deus lhe recompense a caridade, meu querido irmão
”
.
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Pedia perdão de supostas faltas de caridade. Amante da santa pobreza, suplicava nada
gastassem com sua pessoa. Queria morrer, como vivera, despojado de tudo. Aborrecia o que
quer que fosse com aparência de delicadeza. O cardeal Colona, comovido ante a pobreza de
sua cama, enviou-lhe ótima coberta de lã. Paulo não se resolvia a usá-la. Permitia apenas,
para não desgostar a sua eminência, que o enfermeiro a estendesse sobre a cama toda vez
que o cardeal o visitava. Mas era de vê-lo durante a visita, envergonhado e receoso, como o
ladrão surpreendido em fragrante. Terminada a visita, ordenava que a retirassem do leito.
Transformava o nosso Santo a sua enfermidade em eloqüente pregação para os outros e
tesouro de mérito para si.
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