CLEMENTE XIV, OS JESUÍTAS E PAULO

No dia 31 de Julho de 1773, duas grandes vitimas se imolavam simultaneamente ao Deus do Calvário: Clemente XIV e a Companhia de Jesus.

Deste acontecimento memorável, que a verdade histórica já esclareceu com suas luzes, consignaremos apenas o que se refere ao nosso assunto.

Havia três anos Paulo da Cruz, idoso e gravemente enfermo, não punha os pés fora da residência do Santo Crucifixo. O incidente causou-lhe grande golpe ao coração, pois amava e venerava a Companhia de Jesus, sendo outrossim amado e venerado pela Companhia. Diz o Pe. João Maria de Santo Inácio nos Anais manuscritos da nossa Congregação:

“Na tarde de 16 agosto, cerca de uma hora após o anoitecer, deu-se a supressão da Companhia de Jesus; esta funesta nova foi ouvida com grande consternação pelo nosso Padre, o qual todavia adorou os secretos e imperscrutáveis desígnios de Deus...

Nos três anos em que se tratou do assunto da referida supressão, esteve ele cravado em seu leito: quando já tudo estava concluído, começou a se levantar...”

Essa amizade vemo-la consignada em bela inscrição greco-latina pelo pe. Lagomarsini, professor no Colégio Romano, no frontispício de vários livros, ofertados ao nosso Santo. Temos ainda uma memória escrita pelo pe. João Maria de Santo Inácio, último confidente do pe. Paulo e seu confessor. O pe. João afirma que, a respeito da supressão da Companhia, tão benemérita da Igreja, Paulo não tomou parte alguma, nem deu jamais um conselho, o que, aliás, lhe não foi pedido. Citemos suas palavras textuais:

“Afim de que as más línguas não acusassem a este Servo de Deus como se tivesse sido o conselheiro do Papa neste assunto da supressão, Nosso Senhor o deteve num leito; só agora está novamente são. Antes que adoecesse, ao irmos à audiência, jamais o Santo Padre nos pediu qualquer conselho a este respeito”.

Se fizemos menção deste drama, cujo desenlace foi dos mais funestos, foi unicamente para referir célebre profecia do nosso canto, prova do grande afeto que ele nutria pela Companhia de Jesus.

Em 1767, sendo Sumo Pontífice Clemente XIII, recebeu o Santo uma carta do pe. Luís Reali, Jesuíta, em que lhe relatava as tremendas perseguições suscitadas contra a Companhia. Em resposta, assim se expressava o servo de Deus:

“Quanto às extremas angústias a que se vê sujeita essa ilustre Companhia, tenho a dizer-lhe que me afligem profundamente. 86 o pensar em tantas calamidades faz-me gemer e chorar. Quantos inocentes e pobres religiosos furiosamente perseguidos, os demônios a triunfar, diminuída a glória de Deus, inúmeras almas condenadas, porque violentamente privadas do amparo espiritual proporcionado pelo ministério dos Jesuítas, em todas as partes do mundo. À vista de tal espetáculo, entrego-me a orações especiais. Espero que, após tantas tempestades, o DEUS QUE DÁ A MORTE E A VIDA, QUE MORTIFICAT ET VIVIFICAT, saberá ressuscitar a seu tempo essa Companhia, com maior esplendor e glória. Esta foi sempre e continua a ser a minha opinião”.

Citamos, diz o Pe. de Ravignan, esta bela carta, e nos comprazemos de citar outros depoimentos não menos explícitos deste grande servo de Deus em favor da Companhia, por ele amada e estimada até o fim dos seus dias. Isto é fato que não padece dúvida.

Os eventos confirmaram-lhe a previsão, que somente por luz profética, muito freqüente em Paulo da Cruz, poderia ter escrito.

Estão anunciadas claramente a MORTE E A RESSURREIÇÃO da Companhia de Jesus. Ta época em que escrevia o Santo estas coisas, ninguém poderia prevê-las, muito menos vaticiná-las com tanta certeza. A primeira, parte da profecia realizou-se 6 anos depois e a segunda, 47 anos, quando a Companhia, ao sopro de Deus, reergueu-se da ruína, rejuvenecida e fortificada pelas perseguições.

Quando, portanto, desabou a tempestade, continuava o nosso Santo retido no leito por grave doença.

No outono, experimentou alguma melhora, conseguindo andar apoiado num bastão.

Sua primeira visita, como era de justiça, foi ao Santo Padre, que acabava de regressar de Castel-Gandolfo. Alegrou-se sobremaneira o Papa ao rever o velho amigo, após longa ausência, motivada pelo estado de saúde de Paulo.

Mais afetuosa do que nunca foi a recepção. O santo Padre terminara a missa em sua capela doméstica e, ao retirar-se aos aposentos particulares, levou consigo a Paulo, fazendo-o sentar-se a seu lado e obrigando-o a tomar parte em sua colação.

Paulo, com profundo sentimento de respeito e gratidão, disse a Clemente XIV:

“Santo Padre, se ainda não morri, devo-o a V. Santidade. Tive grande confiança na ordem que V. Santidade me deu e N. Senhor ouviu”.

O Papa agradeceu a divina Bondade, contente por saber da boca do Servo de Deus a maneira maravilhosa como recuperara a saúde. Fazendo sinal ao companheiro do Santo para que passasse a outra sala, continuaram em longa e secreta conferência. Não fosse dia de audiência, a palestra ter-se-ia prolongado por mais tempo. A 30 de outubro de 1773, dizia o Santo escrevendo ao Papa, que esperava dartro de poucos dias ir à audiência. Este seu desejo, porém, só se realizou aos 31 de dezembro.