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A fé, firme e profunda, jamais se lhe abalou. Era o segredo de seu poder sobre as almas e os
demônios, era a poderosa alavanca com que alçava o mundo e, em certo modo, obrigava
Deus a operar milagres. Dizia freqüentemente invejar os mártires. Anelava como eles selar a
fé com o próprio sangue.
As palavras, os atos, a mesma vida, tudo em Paulo da Cruz, repousava na fé, fé pura, fé
simples.
era uma de suas máximas.
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“Oh! como admiro as almas que andam em
pura fé e se abandonam totalmente às mãos de Deus...”
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Efeito de sua fé era o viver continuamente com o coração no Céu, considerando-se peregrino
na terra. Exclamou certa vez, em conversa com os religiosos:
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“Não posso compreender a simples possibilidade de não se pensar sempre em Deus”.
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Tomou a mão de um religioso e prosseguiu:
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“Esta pele é sua, não é verdade? Estas mãos,
estes nervos, estes braços são seus, não é verdade? Sim, não há duvidar, pois estão unidos
ao seu corpo. No entanto, há alguma coisa mais certa do que isto; é o habitar Deus em seu
coração. Isto é verdade de fé, ao passo que pertencer-lhe este braço podemos pô-lo em
dúvida, por ser falível o sentido do tato...”
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Ouçamo-lo ainda:
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“Vós sois o templo de Deus vivo; visitai amiúde este santuário interior, vede se as lâmpadas
estão acesas...”
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Entendia por lâmpadas, a fé, a esperança e a caridade. E, a sorrir:
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“Permanecei em vossa cela; ide à vossa cela”.
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- Por vezes perguntava:
E explicava:
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“Sua cela é o seu coração e a
sua alma é templo do Deus vivo; lá Ele habita pela fé”.
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Dizia, ademais:
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“Pela presença habitual de Deus, reza-se vinte e quatro horas por dia”.
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Tudo, já o dissemos, o elevava para Deus. Antes da aprovação das Regras, jamais usou
chapéu, pelo respeito que nutria à infinita Majestade de Deus.
Quando o Santo Padre obrigou a usá-lo, Paulo se descobria ao falar com pessoas piedosas,
considerando-as templos do Espirito Santo.
Vigiava escrupulosamente a pureza de doutrina das nossas escolas. Quando se estudava o
tratado da predestinação, maior era a sua solicitude.
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“Freqüentemente nos interrogava sobre
essa matéria, diz um religioso, temendo subtilezas contrárias ao dogma”.
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“Conheci, explicava, alguns clérigos que, ao estudarem esse tratado, caíam em temores e
excessivas perplexidades. Vinham ter comigo, muito aflitos, e eu lhes dizia: QUI BONA
EGERUNT, IBUNT IN VITAM AETERNAM; QUI VERO MALA, IN IGNEM
AETERNUM: HAEC EST FIDES CATHOLICA. Os que praticam o bem irão para a vida
eterna; ao invés, os que praticam o mal irão para o fogo eterno: é esta a fé católica (Símbolo
de Santo Atanásio). Com estas palavras dissipareis, como eles, todas as inquietações e
perplexidades do espírito”.
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A fim de preservar os religiosos de doutrinas suspeitas, prescreveu nas Regras a inconcussa
doutrina do angélico doutor santo Tomás de Aquino.
Salvo as tentações que o assaltaram na juventude, não mais teve uma dúvida contra a fé.
Donde o respeito e o amor que votava à santa Igreja católica e a seu Chefe, o Vigário de
Cristo. Por especial disposição da Providência, manifestaram-lhe os Soberanos Pontífices
ilimitado afeto. Suas orações em prol do Santo Padre eram fervorosas e continuas,
ordenando, ademais, que se recitassem diariamente, em todos os retiros, as ladainhas dos
Santos com a oração pelo Papa.
Ao ouvir pronunciar o nome do Pontífice, inclinava a cabeça, recolhia-se e acrescentava:
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“Falais do Papa, isto é, do Vigário de Jesus Cristo...”.
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Estava firmemente persuadido de que as orações do Santo Padre são eficacíssimas:
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“Oh!, exclamava, quão agradáveis devem ser a Deus tais orações!”.
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Ao considerar as perseguições da Igreja, lamentava-se e, com a indignação do filho que vê
ultrajada sua mãe, exclamava, chorando:
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“Como sinto as angústias da santa Igreja, nossa Mãe!... Suas tribulações transpassam-me
cruelmente o coração!... Sim... porque me glorio de ser verdadeiro filho da santa Igreja! Um
espinho, antes, um feixe de espinhos despedaça-me o coração, ao ter conhecimento dessas
funestas noticias. Prouvera a Deus terminassem aqui, mas não terminarão aqui os atuais
castigos”.
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“Sede magnânimos, meus queridos filhos, escrevia aos religiosos, e lembrai-vos de que
devemos caminhar pelas pegadas de Jesus Crucificado...”
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A austeridade de sua fé era acompanhada de certa simplicidade cândida e afetuosa, que se
manifestava, principalmente, na celebração dos divinos mistérios.
Na véspera do Natal, quando cantava o martirológio, a voz se lhe afogava em lágrimas. A
noite, antes de matinas, levava o Menino Jesus, colocado em pequeno berço,
processionalmente, pelo retiro, acompanhado dos religiosos, entoando hinos ao Deus
recém-nascido.
Comprazia-se em contemplar o Todo-Poderoso, a Bondade Infinita, a Sabedoria divina
envolto em pobres paninhos. Os gemidos, o recolhimento, a fé e a caridade de Paulo faziam
com que os religiosos olvidassem por completo o mundo e se abismassem naquele mistério
de Amor.
Escrevia:
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“Um Deus Menino! Um Deus envolto em pobres faixas! Um Deus reclinado sobre um
punhado de feno e entre dois irracionais!... Quem recusará a humilhação? Quem recusará,
submeter-se às criaturas por amor de Deus? Quem se atreverá a queixar-se? Quem não
guardará silêncio interior e exterior nas tribulações?”
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O grande pensamento, o pensamento universal, único, que penetrou, que animou e absorveu a
vida toda de Paulo da Cruz, o pensamento que conservou o perfume de sua inocência
batismal, que lhe coroou de triunfos os combates da juventude, que lhe fecundou os labores
do apostolado e o manteve nas austeridades do claustro e do deserto; o pensamento que, em
suma, lhe consagrará o ocaso da vida e a última agonia, comunicando à alma as
transfigurações da glória, será o pensamento da sagrada Paixão e Morte de Jesus. O assunto
é inesgotável. Seriam necessários volumes para desenvolvê-lo cabalmente. Resumindo,
diremos que a vida do nosso Santo oferece-nos uma das vivas imagens de Jesus Crucificado,
com suas tristezas, angústias, flagelação, coroação de espinhos, fel, vinagre, perseguições
dos homens, ódio dos demônios, agonias do Horto das Oliveiras, desolações do Calvário.
Para conseguir essa semelhança, entregou-se Paulo a todos os trabalhos e sofrimentos,
superando seu amor todas as dores.
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“Lembra-me, diz uma testemunha, que, pasmado de seu gênero de vida, lhe perguntei: - Pe.
Paulo, como pode suportar tais rigores? - Respondeu-me: -Deus sofreu tanto por mim! Não é
de mais que eu faça alguma coisa por seu amor”.
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Encontrava a Paixão na sagrada Eucaristia, memorial perene do Sacrifício do Calvário
através do tempo e do espaço. Visitava continuamente a Jesus Sacramentado e seu desejo era
permanecer para sempre diante do Tabernáculo, como os Anjos no Paraíso, ou consumir-se
de amor, como se consome a lâmpada do Santuário. Na velhice, fazia-se transportar ao altar
do Santíssimo. Durante a adoração das quarenta horas, na basílica dos Santos João e Paulo,
ia de manhã à tribuna, fechava-se a chave e não atendia a ninguém. Certa vez, desejando
falar-lhe pessoa de muita distinção, atreveu-se o porteiro a avisá-lo.
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“Não é tempo para falar com as criaturas, respondeu o santo ancião, quando o Proprietário da
casa, o Senhor dos Senhores, o Soberano do universo está em seu trono...”.
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Descobria, por atração secreta, onde se achava o ss. Sacramento.
Um ímpio, que cometera horrível sacrilégio, viera entregar-lhe a Hóstia consagrada...
Imediatamente percebeu a presença do seu Deus, e Jesus exultou nas mãos do fiel servo.
Sua maior devoção, porém, depois da Paixão de Jesus, era para com Nossa Senhora das
Dores. Propagava com o mesmo zelo a Paixão do Filho e as dores da Mãe.
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“Se vos dirigis a Jesus Crucificado, dizia, aí encontrareis Maria; onde está a divina Mãe, lá
estará o Filho”.
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Por vezes ideava comovente diálogo de amor entre a Mãe e o Filho, enternecendo
profundamente o auditório.
Comparava as dores do Filho e da Mãe a dois mares de mútua comunicação
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“A dor de Maria é como o Mediterrâneo, porque está escrito: VOSSA DOR E' GRANDE
COMO O MAR (Tren. 2, 33); daqui se passa a outro mar e esse sem limites: a Paixão de
Nosso Senhor... É ali que a alma se enriquece, colhendo as preciosíssimas pérolas das
virtudes de Jesus e Maria”.
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Para ele a mais intensa dor da ss. Virgem foi receber nos braços o corpo inanimado de Jesus
e acrescentava que Nossa Senhora, imersa nessa dor, aparecera a ALGUÉM, patenteando no
rosto os vestígios da morte: Tanto a transfigurava o sofrimento!. Esse
era o mesmo
Paulo. Conversando com um sacerdote sobre a Paixão do Salvador e as dores de Maria,
tirou da manga pequena imagem de Nossa Senhora das Dores, obra de excelente artista,
dizendo-lhe
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“Tome-a, eu lha dou; saiba, contudo, que Maria não aparece aqui em toda a intensidade de
sua dor. Eu a vi muito mais angustiada e abatida sob o peso da aflição”.
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Conserva-se essa imagem no mosteiro das Carmelitas de Vetralla.
Pouco antes da morte, estava Paulo dando as devidas ações de graças da santa missa, quando
lhe apareceu Maria, o Coração transpassado de aguda espada e os olhos inundados de
lágrimas. Falou-lhe das angústias de seu Coração, em termos tão comoventes, que se teria
enternecido um coração de pedra. Fêz-lhe compreender que atrocíssimas foram as suas
dores, pelo ardor de sua caridade e pela grandeza de seu espirito, capaz de abranger um
oceano de sofrimento. Queixou-se da falsa devoção dos que pretendem ser seus servos,
ofendendo gravemente ao seu divino Filho. Em seguida, a Mãe de misericórdia, desejando
salvar a um pobre sacerdote, revelou a Paulo o miserando estado daquela alma. Quando esse
ministro de Deus veio visitá-lo, ouviu dos lábios do Santo estas terríveis palavras:
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“Ah!
tendes aos meus olhos a fealdade do demônio!”
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A graça, porém, já operara. Confuso e
arrependido, lançou-se o pecador aos pés do servo de Deus.
Paulo honrava com culto especial ao Anjo de sua guarda e ao Arcanjo são Miguel, protetor
da nossa Congregação; a são José, casto esposo da Virgem e grande mestre da vida interior;
a são Pedro, príncipe dos Apóstolos; a são Paulo, valoroso campeão ias glórias da Cruz; a
são Lucas, modelo de mortificação e a são Francisco de Assis, em quem o amor insculpira
visivelmente as dragas de Jesus.
Nutria particular devoção a santa Maria Madalena, que, afirmava, foi a que mais amou a
Deus, depois da ss. Virgem; a santa Teresa, em cuja celestial doutrina muito se comprazia, e
a santa Catarina de Gênova, prodígio do amor divino.
Tinha outrossim profunda veneração às santas Relíquias; lesos de barro, não há dúvida, mas
impregnados de celestiais virtudes; MEMBROS VIVOS DE JESUS CRISTO, TEMPLOS
DO ESPÍRITO SANTO.
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