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Caridade tão extraordinária era fruto de sua profundíssima humildade, e esta tinha origem
nas infinitas humilhações do Redentor.
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“Um Deus humilhado! um Deus abatido!”,
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exclamava e, a essa consideração, jamais se
saciava das injúrias e dos opróbrios.
Essa também a origem do desprezo que votava a si próprio. Ao celebrar a santa missa,
imaginava ser um dragão revestido dos paramentos sagrados. Dizia:
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“Chegou a hora e o Filho do Homem será entregue às mãos dos pecadores (Mat. 20, 18). Ah!
meu Jesus velai por mim porque, se me abandonardes, serei pior do que Lutero e Calvino.
Tenho muito medo de mim mesmo!”.
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Escolhia sempre as incumbências mais trabalhosas e humildes. Enquanto as forças o
assistiram, jamais permitiu que lhe varressem o quarto ou arrumassem a cama.
Freqüentemente lavava os pratos, cozinhava, servia aos enfermos, comia no chão,
ajoelhava-se diante dos religiosos, batendo humildemente no peito e rogando-lhes com
lágrimas nos olhos:
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“Rezai por minha pobre alma”.
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Conversando certa feita com um de seus religiosos, disse-lhe:
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“Hoje celebramos a festa de santo Inácio. Recomendei-me a ele, porque muito o estimo”.
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“Certamente, replicou o religioso, deve ser vosso amigo, pois também é Fundador”.
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“Cale-se, disse Paulo, santo Inácio foi grande santo e eu sou pior do que uma besta”.
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Era magoá-lo dar-lhe o titulo de Fundador.
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“Ah! se soubessem que golpe me desferem no coração, certamente evitariam chamar-me de
Fundador, se mais não fora, pelo menos por compaixão. Esta expressão me faz chorar
sangue!... Traz-me à memória as minhas ingratidões, recorda-me de que com os meus
pecados arruinei a obra de Deus. E' Jesus o Fundador do Instituto da Paixão”.
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Certa vez perguntou-lhe o cardeal Orsini como fundara a Congregação. Ao que Paulo
respondeu
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“São coisas muito longas, Eminência”.
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E como este insistisse, desejando saber quem era o Fundador, Paulo replicou:
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“O Fundador, Eminência, é o divino Crucificado”.
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De outra feita, em Roma, na antecâmara de um Prelado, perguntar-lhe os contínuos quem era
o Fundador do Instituto da Paixão.
respondeu o servo de Deus.
Certo dia, diz testemunha ocular, originou-se santa disputa entre o pe. Paulo e frei Leonardo
de Porto Maurício. Os fiéis de Aquapendente desejavam ouvir um sermão de qualquer um
desses dois célebres missionários, de passagem pela cidade. Ambos se recusavam, cedendo
mutuamente a honra da palavra. Finalmente, são Leonardo se deu por vencido e falou ao
povo. Foi nessa ocasião que Paulo solicitou do grande missionário conselhos para o maior
êxito de suas missões. Após alguma relutância, disse-lhe são Leonardo:
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“Sou de parecer que o missionário ideal deve ter o interior bem ajustado”.
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Agradou tanto ao servo de Deus essa lição, que jamais a esqueceu, repetindo-a amiúde aos
seus missionários.
Comprazer-se nas humilhações é a pedra de toque da verdadeira humildade. Paulo amava
tanto o próprio desprezo, a ponto de andar em procura de vexames. E' que ele tinha os
olhares perenemente fitos em Jesus, que se comprazia em ser o opróbrio da plebe. E
devemos notar que era sensibilíssimo às humilhações, mas sabia domar os impulsos da
natureza. Essa a razão por que os desprezos lhe causavam satisfação, e as honras verdadeiro
suplicio.
Chegando-lhe ao conhecimento que alguma carta ou qualquer escrito continham louvores à
sua pessoa, destruía-os e os lançava ao fogo.
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“Se me fosse possível, dizia do intimo do coração, cancelaria o meu nome dos Breves
Pontifícios. Não quero que fique recordação minha na Congregação”.
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Conservavam-se no retiro da Apresentação alguns documentos concernentes aos primeiros
anos de sua consagração a Deus. O pe. Fulgêncio trouxera-os de Alexandria, perfeitamente
legalizados. Apenas chegou ao conhecimento do servo de Deus, partiu imediatamente para
lá, exigindo do modo mais absoluto que lhe entregassem todos aqueles escritos. A ordem era
por demais explicita, forçoso era obedecer. O pe. Fulgêncio, com o pretexto de não
perturbar o descanso dos religiosos, respondeu-lhe que os entregaria na manhã seguinte. E
durante a noite, padres e irmãos recopiaram-nos fielmente. Ao receber os originais, Paulo os
lançou imediatamente ao fogo.
Afligia-se ao ver-se venerado como santo e exclamava:
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“Oh! como estão enganados! A misericórdia divina far-me-ia grande caridade, se me
mandasse ao purgatório até o fim do mundo”.
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D. Palmieri colocou no peito de um seu irmão moribundo o DISTINTIVO usado pelo servo
de Deus e instantaneamente o enfermo recobrou a saúde. Escreve o prelado ao padre
Fulgêncio relatando-lhe o ocorrido. Este julgou dever apresentar ao venerável pai a carta do
snr. bispo. Paulo caiu em pranto desfeito.
Uma mulher, aproveitando-se do momento em que o Santo conversava com outra pessoa,
cortou-lhe um pedaço da capa.
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“Que fizeste? - interroga-a Paulo com ar severo - isto não
se deve permitir...”
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Essa indiscrição era coisa ordinária em suas viagens.
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“Cortaram-me a capa, julgando que eu fosse o abade, quando não passo do cozinheiro. Oh!
se me conhecessem, evitar-me-iam como se evitam os empestados! Deus se compraz em
confundir-me e humilhar-me. Seja feita a sua ss. Vontade”.
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Outras vezes, dizia:
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“Esta boa gente quer fazer meias para suas galinhas. Como são cegos! Os juízos dos homens
são bem diferentes dos de Deus!”.
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Fugia dos lugares onde pudesse receber louvores; cuidava que não lhe trocassem as roupas,
repreendendo severamente a quem ousasse fazê-lo.
Não deixava, nem mesmo aos homens, beijarem-lhe as mãos.
Não podemos passar em silêncio o fato seguinte. Paulo, em companhia de um seu religioso,
regressava de Orbetello ao monte Argentário. Um pescador, que apenas o conhecia de fama,
saudou-os e lhes disse
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“Como sois ditosos em ir àquele convento onde habita o pe. Paulo, o grande santo”.
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Essas palavras golpearam terrivelmente a humildade do servo de Deus, que no momento não
soube o que responder. Passados instantes, perguntou:
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“Quem é mesmo esse santo de quem está falando? O padre Paulo?”
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“Sim, confirmou o pescador, ele é grande santo”.
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Então o servo de Deus, como para arrancá-lo do erro, replicou:
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“Pois bem, posso assegurar-lhe com toda certeza que ele não se julga santo”.
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E continuou o
caminho.
O pescador afirmava-o sempre mais alto e, aborrecido pela opinião contrária do religioso,
acrescentou:
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“Quer o creia, quer não, eu lhe digo que ele é santo, verdadeiro santo, grande santo”.
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Como é difícil em meio de tantas honras e tantos prodígios não levantar-se o vento da
vaidade! A Paulo, porém, por graça singularíssima, jamais o molestou um pensamento de
vanglória! Dizia ao confessor, com encantadora simplicidade
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“Graças a Deus, o orgulho nunca se me aproximou. Julgar-me-ia condenado, se me assaltasse
um pensamento de soberba”.
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Nem sequer podia compreender a possibilidade desses pensamentos. Comparava-se a um
pobre maltrapilho, coberto de úlceras dos pés à cabeça, e perguntava:
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“Poder-se-ia vangloriar esse homem, caso o introduzissem a uma reunião de grandes
senhores? Pecador como eu, orgulhar-se? Deus me fez ler num grande livro: o livro dos
meus pecados. Rezai pela minha pobre alma, para que Deus tenha compaixão dela”.
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Nunca se acusou desse pecado.
Por mais que fizessem, jamais conseguiram os religiosos que ele se deixasse retratar. O
pintor Tomás Conca conseguiu traçar-lhe fielmente as feições, contemplando-o sentado em
uma cadeira de braços, através das fendas da porta. Logo depois, Conca mostrou-lhe a efígie
que desenhara. Paulo examinou-a com atenção e exclamou:
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“Meu Deus, que cara de réprobo...!”
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Para consolá-lo, disse-lhe Conca:
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“Pe. Paulo, retratei-o para fazer um ensaio, pois notei em v. revma. uma fronte pinturesca.
Esse retrato conserva-lo-ei para mim”.
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Poderíamos multiplicar os fatos concernentes à sua humildade, mortificação, amor ao
sofrimento e à pobreza, mas digamos algo de sua obediência e pureza.
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