PRELÚDIO DA GLÓRIA

Narremos os portentos assinalados nas palestras espirituais do Santo com a virgem de Cervéteri.

Nesses colóquios, o rosto de Paulo inflamava-se como se fora serafim de amor. Certa vez, arrebatado em êxtase, elevou-se dois palmos acima da cadeira em que estava assentado, saciando-se no manancial da divina luz. O rosto resplandecia-lhe como o sol. Os braços, tinha-os ora estendidos, ora cruzados no peito, os joelhos permaneciam unidos. Manteve-se nessa posição, entre o céu e a terra, pelo espaço de uma hora.

Noutra ocasião, discorrendo sobre a ss. Trindade, mistério de que outrora recebera conhecimentos especiais, jorravam-lhe do rosto, como sucedera a são João da Cruz e a santa Teresa, raios celestes, mais resplandecentes do que nunca, a reverberar-lhe na cabeça em forma de auréola. Ligeiro estremecimento agitava-lhe docemente os membros, prenúncio de próximo arrebatamento. Para impedi-lo, agarrou-se aos braços da cadeira, apoiando-se fortemente no espaldar da mesma. Nada adiantou, no entanto. Juntamente com a cadeira, elevou-se ao ar à altura de um homem. Toda a sacristia se iluminara dos resplendores emanados de seu corpo. Uma hora perdurou o êxtase. Em seguida, agitado por leve tremor, sem separar-se da cadeira, desceu à posição anterior.

Rosa, assaltada por escrúpulos, interrogou a Paulo a respeito da própria alma. O Santo convidou-a a implorarem as luzes do Céu. Puseram-se em oração. Ela de joelhos, o santo enfermo sentado em sua cadeira.

De repente, apareceu formosíssimo menino circundado de resplandecente luz. O santo ancião, remoçado, prostrou-se por terra, adorou ao Deus-Menino, pedindo-lhe a bênção e exclamando por entre suspiros e lágrimas:

“Ó bondade, ó benignidade, ó amor infinito do Eterno Filho de Deus, que se dignou visitar a este miserável vermezinho da terra!”

E prosseguiu:

“Peço-vos perdão, Jesus, das inúmeras. faltas, ingratidões e irreverências, cometidas em tantos anos de pregação, de administração e recepção dos sacramentos...”

Jesus-Menino respondeu:

“FOI TUDO BEM, FOI TUDO BEM E CONFORME A MINHA VONTADE...”

E como prova de que tudo fora bem, lançou-se-lhe aos braços, acariciando-o com suas mãozinhas. Paulo aconchegava-O forte mente ao coração, abrasado de amor, banhando-O de lágrimas e rogando a salvação de sua alma..

Então, o divino Menino, apertando-o mais fortemente, disse:

“A SALVAÇÃO DE TUA ALMA É TÃO CERTA COMO É CERTO QUE ME TENS EM TEUS BRAÇOS...”

Desapareceu o Deus Menino, deixando a alma do Santo inebriada de celestiais doçuras.

Voltando à habitual debilidade, não conseguia levantar-se, mas dois Anjos de encantadora formosura alçaram-no e o colocaram na cadeira.

Usas a Virgem bendita não quer ficar atrás nos benefícios concedidos ao seu servo. Foi ela quem o iniciou em sua sublime vocação; a ela, pois, cabe dar a última demão na vida mística de Paulo. Ei-la, portanto, rivalizando com Jesus nas consolações que ambos concedem ao devotíssimo servo, chegado já às portas da eternidade.

Conferenciava Paulo com Rosa Calabresi. Inesperadamente, de um grande quadro que representava Nossa Senhora com o Menino Jesus parte uma voz articulada, sensível:

“Paulo, Paulo!”

No mesmo instante, brilhante como o sol, aparece Maria ss. em forma natural e humana, trazendo nos braços o divino Filho. Surpreendidos pela visão celestial e inundados de prazer inefável, os dois contemplativos se prostram de joelhos diante da grande Senhora. Dirigindo-se ao santo, diz-lhe a Rainha do céu

“Meu filho, pede-me graças”.

Paulo, de cabeça inclinada, responde:

“A salvação de minha alma!”

“Podes ficar tranqüilo que a graça te é concedida”,

replica Maria.

Mas Paulo pensava também na obra predileta do seu coração, seu amado Instituto.

“Fica tranqüilo, diz-lhe a Virgem, que a Congregação vai indo muito bem e teu agir é muito do agrado de Deus”.

Fala depois o Menino Jesus e lhe diz coisas inefáveis, que a feliz espectadora não se sente capaz de exprimir; consolou admiravelmente seu servo e, entre outras coisas, lhe disse

“que erva mártir por suas penas e sofrimentos”.

Agora o desejo de Paulo é ser acariciado pelos celestes visitantes, os quais benignamente condescendem e pousam ambos a mão sobre a cabeça dos dois devotos servos.

Já outra coisa mais não restava senão desvencilhar-se dos liames do corpo e entrar naquela eterna bem-aventurança que começara a prelibar. Paulo vive desse desejo; a celeste Rainha lhe anuncia que dentro em breve ele se realizará no próximo outubro, numa quarta-feira.

Antes de findar a visão, desejava Paulo receber a bênção de Jesus e de sua ss. Mãe. Sentindo-se indigno de a pedir, diz à santa filha espiritual que a peça; mas esta, não menos humilde e confundida que o santo diretor, respondia que a ele cabia pedi-la. Jesus e sua ss. Mãe alegravam-se com essa emulação de humildade, que acabou com o triunfo do santo, o qual impôs à dócil filha o dissesse em virtude da santa obediência. O pedido foi imediatanente atendido: Mãe e Filho levantaram a mão e abençoaram os devotos servos, que ficaram absortos em êxtase.

A piedosa virgem, voltando a si, viu somente seu venerado pai, levantado alguns palmos do chão, com os joelhos dobrados e com semblante resplandecente de luz. Quanto tempo durou a visão o êxtase não o sabemos; a devota discípula diz que

“durou muito empo e não acordou nem voltou ao estado natural senão pela arde”.

Ditosa transfiguração a que o conduziram o sofrimento e o mor, prelúdio da suprema transfiguração que se há de operar depois da morte