CAPÍTULO XXXIX

Junho a 18 de outubro de 1775


ÚLTIMOS DIAS

Esta narração final entristece e alegra a um tempo o nosso coração.

De fato, se chegamos ao dia da despedida, chegamos outros sim ao momento da eterna recompensa.

A vida de Paulo da Cruz é agora toda amor sem combate, paz sem temor, luz sem sombra. Nada mais perturba a doce e perene serenidade de sua alma. É como a aurora daquela glória, daquela felicidade, que não conhece ocaso.

Elevara-o tão alto o amor, a ponto de consumir o vaso de terra; sucumbia o corpo aos ardores divinos. Os olhares do Santo estavam fixos na Beleza divina, sobejas vezes prelibada. Eram-lhe necessários a solidão e o silêncio. Na cadeira ou no leito, comprazia-se em estar só e de porta e janela fechadas, para melhor ouvir a voz suavíssima do Criador.

Muitos eram, no entanto, os que desejavam vê-lo. Os religiosos, contra vontade de Paulo, viam-se obrigados a introduzir em sua cela pessoas de distinção, notadamente eclesiásticas.

O amável ancião, longe de agastar-se, acolhia-os com afabilidade. O objeto de suas conversas era sempre a Paixão de N. Senhor. Incitava a todos, prelados ou cardeais, a alimentar-se da Paixão do Redentor, presenteando-os com algum pequeno crucifixo.

Os alunos da Propaganda, atraídos por seus admiráveis conselhos, visitavam-no freqüentemente. Paulo folgava em dirigir a palavra àqueles jovens, esperanças da Igreja, futuros apóstolos dos gentios.

“ Meus bons filhinhos, dizia-lhes, acostumai-vos a sofrer por amor de Jesus; excitai-vos mutuamente no desejo de derramar o sangue e dar a vida pela fé ” .

Asseverava-lhes que jamais conseguiriam a heróica fortaleza dos mártires, sem a diária meditação dos tormentos e agonias do Filho de Deus. Em seguida, com ternura paterna, perguntava-lhes se amavam de coração a Maria e, à resposta afirmativa, acrescentava:

“ Amai-a, meus filhos, amai-a sempre mais. É nossa Mãe, pois gerou-nos ao pé da Cruz. Ah! meus queridos filhos, tende sempre presente ao espirito as suas dores, compadecendo-vos de seu martírio com todas as veras da alma ” .

Estas palavras animavam aqueles levitas, admiradores sinceros das virtudes do Santo. Davam-se por felizes quando podiam subtrair-lhe alguns fios da capa. Um clérigo estrangeiro, prestes a ser ordenado, desejou falar a sós com o servo de Deus. O religioso que o conduziu à cela de Paulo depôs:

“ Ao sair da entrevista, fora de si de contente, chamou-me à parte e perguntou-me: - Quem é esse padre? - Respondi que era o padre Paulo da Cruz, nosso Fundador. - Pois saiba que ele é um santo. Disse-me coisas tais, que estou estupefato! Tem o espirito de profecia. Repito-o, é um grande santo! ” .