ADEUS PATERNO

Quando ao servo de Deus faltaram as forças para celebrar o santo Sacrifício, um sacerdote de voz clara e forte celebrava-o num quarto contíguo à sua cela, administrando-lhe diariamente a sagrada Comunhão.

Na festa do ss. Sacramento, 15 de junho, por supremo esforço de amor, celebrou pela última vez.

A começar desse dia, o Santo não experimentou mais melhoras. A morte aproximava-se a passos agigantados.

No dia dos santos João e Paulo, 26 de junho, teve prolongados desmaios.

Seu estômago com dificuldade suportava apenas algum gole de caldo. Dizia com infantil ingenuidade:

“Parece-me ter pedras no estômago”.

Os médicos ordenaram-lhe pão dissolvido em água; foi esse o seu alimento pelo espaço de quase um mês, tempo que lhe restava de vida. Tomava-o em pequena quantidade, cada vinte e quatro horas.

Os sofrimentos não lhe alteravam a serenidade do espírito nem a paz do coração. Repetia por vezes:

“Não desejo viver nem morrer, mas somente cumprir a as. Vontade de Deus”.

Aos religiosos que lhe compadeciam as dores, dizia:

“Causam-vos mágoa as minhas dores? A mim não... Elas me conservam nas chagas de Jesus”.

Persuadido de que em breve morreria, acrescentava:

“A terra chama pela terra”.

Certa vez, enquanto tomava o escasso alimento foi acometido de violentos vômitos. Heróico e sereno, repetiu aos religiosos penalizados as palavras de Judas Macabeu: SI APPROPIAVIT TEMPUS NOSTRUM, MORIAMUR FORTITER (1 Mac. 9, 10). Se chegou o tempo, morramos valorosamente.

Quando as dores lhe davam alguma trégua, ocupava-se dos deveres de seu ofício, dando sábios conselhos aos religiosos de Roma ou ditando cartas repletas de zelo e prudência aos filhos ausentes.

Jamais deixou as práticas de piedade. Recitava diariamente os quinze mistérios do Rosário, como tributo de amor à divina Mãe. Ao enfermeiro que, notando o esforço empregado na recitação do Rosário, lhe observava

“V. Paternidade não pode mais rezá-lo, pois perde a respiração”,

respondia:

“Quero recitá-lo enquanto viver. Quando não mais puder com os lábios, fá-lo-ei com o coração”.

Tinha por costume oferecer à Rainha do Céu, no dia 15 de agosto, a assim chamada

“hora do rosário”.

Fazia-o das três. às quatro da madrugada. Jamais deixou essa prática de piedade, nem mesmo nas enfermidades, pedindo a um religioso o despertasse àquela hora.

O médico, temendo o desenlace, julgou prudente administrar-se-lhe o santo Viático. Paulo, embora soubesse que a morte não era iminente, quis comungar em presença da comunidade. Era o dia 30 de agosto. O primeiro Consultor trazia o Santíssimo, precedido dos religiosos que, com tochas acesas nas mãos, entoavam cânticos litúrgicos. Ao ver entrar na cela o seu amável Jesus, o santo enfermo, imobilizado havia bastante tempo, estendeu os braços com agilidade e exclamou

“Meu doce Jesus, protesto que desejo viver e morrer na comunhão da santa Igreja. Detesto e abomino todo e qualquer erro”.

Recitou em seguida, com extraordinária expressão de fé, o símbolo dos Apóstolos.

Ao notar os religiosos, ajoelhados e chorando ao redor do eito, aproveitou a ocasião para fortificá-los no espírito de Jesus Crucificado. O testamento sagrado do pai moribundo foi escrito por dois sacerdotes, que se encontravam no Oratório contíguo à cela. Ouçamo-lo:

“Em primeiro lugar, recomendo-vos instantemente o santíssimo preceito dado por Jesus aos discípulos, na véspera de sua morte: Conhecer-vos-ão por meus discípulos, se vos amardes mutuamente (Jo. 13, 35). A caridade fraterna é, meus queridos irmãos, o que de todo o coração desejo de todos os presepes e de todos os que se acham revestidos desse hábito de penitência, memorial perene da Paixão e Morte do nosso amado Redentor, bem como dos que futuramente forem chamados pela divina misericórdia a este pequeno rebanho do Senhor. Recomendo a todos, particularmente aos superiores, amor ao espírito de ração, de solidão e de pobreza. Se este espírito se conservar entre nós, a Congregação resplandecerá como sol, por toda a eternidade, em presença de Deus e dos homens. Amai, eu vo-lo aplico, amai sempre com amor filial e sincero a santa Igreja. Pedi incessantemente por ela e por seu chefe. Sêde submissos o Santo Padre em tudo e por tudo. Trabalhai como infatigáveis apóstolos na salvação das almas; inflamai os corações na devoção à Paixão de N. Senhor e às Dores da divina Mãe”.

Após haver manifestado sincero reconhecimento aos benfeitores, notadamente ao Romano Pontífice, apoderou-se-lhe da alia profundo sentimento de humildade:

“Como sou miserável! Estou para deixar-vos e entrar na eternidade... Ai de tuim! que apenas vos deixo maus exemplos! o entanto, confesso-vo-lo que sempre tive em vista a vossa santificação e perfeição espiritual. Peço-vos, portanto, perdão, com rosto em terra. Recomendo-vos encarecidamente a minha alma, fim de que N. Senhor a receba no seio de sua misericórdia. Espero-o pelos méritos de sua Paixão e Morte”.

Voltando-se para o SS. Sacramento, prosseguiu:

“Sim, meu amado Jesus, espero, embora pecador, ir imediatamente ver-Vos no Paraíso e dar-Vos, ao deixar o corpo, aquele santo ósculo que a Vós me unirá para sempre, podendo assim cantar eternamente a vossa infinita misericórdia.”

“Recomendo-vos, meu doce Jesus, a pobre Congregação, fruto de vossa Paixão, de vossa Cruz, de vossa Morte. Abençoai, vo-lo suplico, abençoai a todos os religiosos e benfeitores do Instituto... ”

Tomou então a voz do Santo entoação de inefável ternura. Prestemos atenção, nós que temos a ventura de ser filhos de são Paulo da Cruz. Aconselha-nos são Vicente Maria Strambi conservemos a lembrança destas solenes palavras

“Suplico-vos, ó Virgem Imaculada, Rainha dos Mártires, suplico-vos pelas dores que sofrestes na Paixão de vosso amado Filho, lançai a todos a vossa bênção maternal. Coloco a todos e a todos deixo sob o manto de vossa doce proteção”.

Despediu-se por fim dos filhos queridos:

“Vou deixar-vos, mas esperarei a todos lá no Céu, onde rezarei pela santa Igreja, pelo Soberano Pontífice, pela nossa. Congregação, pelos benfeitores. Deixo-vos todos, presentes e ausentes, com a minha bênção”.

E levantando com esforço a destra, traçou o sinal da Cruz sobre os filhos, que choravam e soluçavam. Dirigiu-se em seguida ao Salvador

“Vinde, vinde, Senhor Jesus...! VENI, DOMINE JESU (Apoc. 22, 20).”

E chorando batia no peito e repetia

“DOMINE, NON SUM DIGNUS - Senhor, não sou digno...”

e com devoção de serafim recebeu em seu coração o amabilíssimo Jesus.

Todos se retiraram, pois o Santo precisava de silêncio, para se abismar em adoração e ações de graças.