HTML> Pe. Luis Teresa de Jesus AgonizanteVIDA DE SÃO PAULO DA CRUZF: L.38, C.4.

EPÍLOGO DE UMA VIDA SANTA

Comungava diariamente e sempre em jejum, suportando ardentíssima sede.

O Santo Padre, ao saber do heróico sacrifício do servo de Deus, mandou-lhe dizer por Frattini que podia comungar quatro vezes por semana sem estar em jejum. Paulo aproveitou-se do privilégio até o último dia de vida.

Enternecido pela bondade do Vigário de Cristo, recomendou novamente aos filhos jamais omitissem a recitação diária das ladainhas de todos os Santos conforme as intenções do Papa e pelas necessidades da santa Igreja e acrescentou:

“Se me salvar, como espero pela sagrada Paixão de N. Senhor Jesus Cristo e pelas Dores de Maria, hei de rezar sempre pelo Santo Padre. Como lembrança, deixo-lhe depois da minha morte, esta imagem da Virgem das Dores. E' prova de meu reconhecimento”.

Passados instantes renova a recomendação de rezarem pelo Papa

“a fim de que a divina misericórdia o conserve em saúde por muito tempo, para o bem da santa Igreja, e o assista em todos os empreendimentos. Como os desejos do Santo Padre são unicamente agradar a Deus, que os realize com todo o zelo possível”.

Paulo continuava a consolar os filhos desolados, a exortá-los à fiel observância das santas Regras, a recomendar-lhes evitassem as menores faltas voluntárias. Que os superiores vigiassem sobre este ponto,

“porque os que perderam o espírito religioso são, no campo do Senhor, como ervas daninhas, que põem a perder a boa semente”.

Repetiu o que dissera aos superiores, quando gravemente enfermo, em Santo Anjo

“Despojo-me do pouco que tenho em uso e peço-vos a caridade de dar-me de esmola alguma roupa usada, que me servirá de mortalha”.

Visitando-o o revmo. pe. João Maria Boxadors, Geral da Ordem dos Pregadores e grande admirador do Santo, mais tarde cardeal da santa Igreja, Paulo recomendou-lhe seu pequeno rebanho, dizendo-lhe que o deixava sob a proteção da Ordem de São Domingos, cumulada de tantos favores pela SS. Virgem.

Pediu-lhe autorização para erigir, nos nossos noviciados, a confraria do santo Rosário, e faculdade ao Mestre de Noviços de inscrever na mencionada confraria todos os religiosos, que almejassem usufruir desse privilégio.

O pe. Boxadors concedeu-lhe de boa mente o favor solicitado e Paulo regozijou-se no Senhor por enriquecer a Congregação de tão precioso tesouro.

O mal aumentava. O servo de Deus, sempre tranqüilo, esperava pela morte. Imagem viva do Redentor, o corpo era-lhe uma chaga. Nenhuma posição lhe mitigava as dores. Sentia sede devoradora e a água aumentava-lhe as dores! Dizia, às vezes:

“Parece que me arrancam a alma; não há em todo o meu corpo um espaço de quatro dedos isento de dor”.

E não se lamentava! Que paz e serenidade inalteráveis!

Alçava, de vez em quando, os olhos ao céu, juntava as mãos, e exclamava:

“Bendito seja Deus!”

ou patenteava por gestos que adorava a ss. Vontade de Deus. O pe. João Maria de Santo Inácio, seu confessor, disse-lhe certa vez:

“Jesus deseja fazê-lo morrer crucificado como Ele”.

Manifestou o santo enfermo, pela expressão do rosto, que folgava imensamente em estar pregado à Cruz do seu Senhor.

Fitava amiúde Jesus Crucificado e a Virgem das Dores, haurindo força e alegria para o derradeiro sacrifício.

Passavam os dias e as noites, e ele sempre a sofrer. Era verdadeiro milagre como um homem tão extenuado de forças pudesse viver sem alimento algum.

Temiam os religiosos vê-lo entrar de um momento a outro em agonia, mas Paulo lhes assegurava que a hora do trespasse ainda não chegara. O pe. João Maria devia pregar missão em Tolfa; temendo, todavia, que o Santo morresse em sua ausência, diferia a partida de um dia para outro. Paulo, antepondo a glória de Deus e a salvação das almas à própria consolação, disse-lhe:

“Vá, vá tranqüilo, pois não morrerei tão logo”.

Animado sempre do espírito apostólico, acrescentou:

“Ao passar flor Rota, incentive aqueles bons habitantes a assistirem a missão”.

O missionário, após pedir-lhe a bênção, beijou-lhe a mão. Paulo, por sua vez, osculou a mão desse filho que tão bem o assistia nos caminhos espirituais.

D. Struzzieri, antigo filho do venerável Fundador, então bispo de Amélia, escreveu-lhe pedindo o esperasse em Roma no ia 18 de outubro. Referiu-lhe o secretário as palavras e o desejo do Prelado. O Servo de Deus respondeu sorrindo:

“Sim, responda-lhe que o esperarei”.

No entanto extinguia-se-lhe a voz e as forças se lhe diminuíam de dia a dia.

Sentindo aproximar-se o último combate, solicitou o sacramento da Extrema-Unção, escolhendo para ato tão comovente festa da Maternidade divina de Maria, segundo domingo de outubro.

No sábado, 7 do mesmo mês, confessou-se com o pe. João faria, que já voltara da missão. Domingo de manhã, recebeu m Viático Aquele que é a Ressurreição e a Vida.

“Em seguida, para melhor compenetrar-se da graça da Extrema Unção, mandou chamar a um de seus padres, narra o piedoso biógrafo do Santo, pedindo-lhe expusesse os efeitos deste grande sacramento. Ele, que com tanta competência podia ensinar a outrem, quis por humildade ser instruído?”.

O religioso que teve essa honra é o mesmo que nos oculta o nome: SÃO VICENTE: MARIA STRAMBI, então lente de Teologia em Santos João e Paulo, mais tarde Bispo de Macerata Tolentino. Um santo a doutrinar a outro santo!

Terminadas as vésperas, dirigiram-se os religiosos à cela do enfermo

Com as mãos postas, profundamente recolhido, seguia as orações rituais, enquanto dos olhos deslizavam-lhe doces lágrimas. Os religiosos, à imitação do pai moribundo, rezavam e choravam.

Terminada a cerimônia, chegou d. Marcucci, vice-gerente, perguntando pela saúde do pe. Paulo.

“Ah! Expia., respondeu chorando o religioso, é a última vez que vereis ao nosso pai, pois está tão acabado, que pouco lhe resta de vida”.

Encaminhou-se o snr. bispo para a cela do servo de Deus. A vista daquele rosto, em que se associavam as sombras da morte e os primeiros resplendores do Céu, comoveu-se profundamente, não pronunciando uma palavra sequer.

Colho o santo se esforçasse por pedir-lhe a bênção, d. Marcucci, dizendo-lhe que se não fatigasse, lançou-se de joelhos aos pés da cama, rezou três ave-marias e pronunciou em voz alta as seguintes palavras:

“Que Jesus e Maria, nossa Mãe, nos abençoem...”

Dir-se-ia não atrever-se abençoar a um santo com a fórmula ordinária dos bispos.

Pode dizer-se que Paulo estava em contínua agonia. Todavia, oito dias depois, com admiração geral, conseguiu escrever de próprio punho uma carta à virgem de Cervéteri. Dava-lhe alguns conselhos e dizia que a esperava no Céu, para onde iria daí a dois dias. Rosa Calabresi depõe:

“Estávamos já bem adiantados no mês de outubro de 1775, quando recebi uma carta do Ven. Servo de Deus..., a última que recebi. Estava escrita toda de sua mão. Os pensamentos davam a conhecer uma mente clara e uma alma virtuosa. A escrita, porém, indicava a fraqueza das forças, pois as letras não estavam traçadas como de costume e as linhas começavam no alto e iam terminar quase na metade da página. Dava-me diversas recomendações..., a última bênção... (dizendo que) dentro de dois dias teria morrido..., concluía que tornaríamos a nos ver no céu”.

No dia de são Lucas (18 de outubro), de quem era devotadíssimo, recusou a poção de pão dissolvido em água, desejando comungar em jejum.

Foi sua última Comunhão. De ora em diante só vive para o Céu. Quer deixar a terra num ósculo de amor.

Pediu não permitissem entrar na cela pessoa estranha, pois os derradeiros instantes de vida deveriam pertencer exclusivamente a N. Senhor e aos seus filhos.

Apesar da proibição, os religiosos abriram exceção ao bispo de Scala e Ravello, a um religioso Camaldulense do Convento de São Gregório e a um senhor de Ravena.

O Santo, sempre bondoso, acolheu-os, presenteando-os com pequeno Crucifixo, exortando-os, por sinais a meditarem perenemente a sagrada Paixão de Nosso Senhor.

Enternecidos até as lágrimas, exclamaram ao retirar-se:

“Ah! na verdade vê-se a santidade estampada em seu rosto! Oh! como são ditosos, estes padres, pois têm por pai a um santo! Sim, Paulo é grande santo!”.

Pouco antes do meio dia, chega d. Struzzieri. Desce do carro e corre à cela do amado pai, toma-lhe a mão e cobre-a de beijos. O moribundo reanima-se ao rever o querido filho. Sorri, descobre a cabeça em sinal de respeito ao Prelado e deseja também beijar-lhe a mão, mas o snr. bispo retira-a imediatamente.

Após afetuosas palavras, disse Paulo ao enfermeiro

“Diga ao pe. Reitor que trate bem ao snr. bispo e aos seus domésticos, fazendo-os servir pelos religiosos”.

Cumprira a palavra, esperando o snr. bispo. Agora, ciente de que lhe chegara a última hora, pediu ao enfermeiro o ajudasse a mudar de posição, para poder fitar as imagens de Jesus Crucificado e da Mãe das Dores. Nessa posição permaneceu até a morte.

Pouco depois, sentindo calafrios, disse ao enfermeiro

“Chame o pe. João Maria porque minha morte está próxima”.

Respondeu-lhe este que não via perigo iminente de morte, tanto mais que o médico, horas antes, o achara melhor.

“Chamem, chamem o pe. João Maria para auxiliar-me”,

insiste o Santo.

Estavam os religiosos no coro cantando vésperas. O irmão, não julgando iminente o desenlace, sentou-se junto ao leito do servo de Deus e perguntou-lhe:

“Meu padre, por ventura não aceita de boa vontade a morte para cumprir a SS. Vontade de Deus?”

Respondeu o moribundo com voz forte

“Sim, morro de muito boa mente para cumprir a SS. Vontade de Deus”.

“Coragem, pois, acrescentou o enfermeiro; confie em N. Senhor”.

Estendeu Paulo os braços às queridas imagens e disse com admirável ternura

“Ali estão minhas esperanças, na Paixão de Jesus e nas Dores de minha Mãe Maria....”