|
Comungava diariamente e sempre em jejum, suportando ardentíssima sede.
O Santo Padre, ao saber do heróico sacrifício do servo de Deus, mandou-lhe dizer por
Frattini que podia comungar quatro vezes por semana sem estar em jejum. Paulo
aproveitou-se do privilégio até o último dia de vida.
Enternecido pela bondade do Vigário de Cristo, recomendou novamente aos filhos jamais
omitissem a recitação diária das ladainhas de todos os Santos conforme as intenções do Papa
e pelas necessidades da santa Igreja e acrescentou:
|
“Se me salvar, como espero pela sagrada Paixão de N. Senhor Jesus Cristo e pelas Dores de
Maria, hei de rezar sempre pelo Santo Padre. Como lembrança, deixo-lhe depois da minha
morte, esta imagem da Virgem das Dores. E' prova de meu reconhecimento”.
|
|
Passados instantes renova a recomendação de rezarem pelo Papa
|
“a fim de que a divina
misericórdia o conserve em saúde por muito tempo, para o bem da santa Igreja, e o assista
em todos os empreendimentos. Como os desejos do Santo Padre são unicamente agradar a
Deus, que os realize com todo o zelo possível”.
|
|
Paulo continuava a consolar os filhos desolados, a exortá-los à fiel observância das santas
Regras, a recomendar-lhes evitassem as menores faltas voluntárias. Que os superiores
vigiassem sobre este ponto,
|
“porque os que perderam o espírito religioso são, no campo do
Senhor, como ervas daninhas, que põem a perder a boa semente”.
|
|
Repetiu o que dissera aos superiores, quando gravemente enfermo, em Santo Anjo
|
“Despojo-me do pouco que tenho em uso e peço-vos a caridade de dar-me de esmola alguma
roupa usada, que me servirá de mortalha”.
|
|
Visitando-o o revmo. pe. João Maria Boxadors, Geral da Ordem dos Pregadores e grande
admirador do Santo, mais tarde cardeal da santa Igreja, Paulo recomendou-lhe seu pequeno
rebanho, dizendo-lhe que o deixava sob a proteção da Ordem de São Domingos, cumulada
de tantos favores pela SS. Virgem.
Pediu-lhe autorização para erigir, nos nossos noviciados, a confraria do santo Rosário, e
faculdade ao Mestre de Noviços de inscrever na mencionada confraria todos os religiosos,
que almejassem usufruir desse privilégio.
O pe. Boxadors concedeu-lhe de boa mente o favor solicitado e Paulo regozijou-se no
Senhor por enriquecer a Congregação de tão precioso tesouro.
O mal aumentava. O servo de Deus, sempre tranqüilo, esperava pela morte. Imagem viva do
Redentor, o corpo era-lhe uma chaga. Nenhuma posição lhe mitigava as dores. Sentia sede
devoradora e a água aumentava-lhe as dores! Dizia, às vezes:
|
“Parece que me arrancam a alma; não há em todo o meu corpo um espaço de quatro dedos
isento de dor”.
|
|
E não se lamentava! Que paz e serenidade inalteráveis!
Alçava, de vez em quando, os olhos ao céu, juntava as mãos, e exclamava:
ou patenteava por gestos que adorava a ss. Vontade de Deus. O pe. João Maria de
Santo Inácio, seu confessor, disse-lhe certa vez:
|
“Jesus deseja fazê-lo morrer crucificado
como Ele”.
|
|
Manifestou o santo enfermo, pela expressão do rosto, que folgava imensamente
em estar pregado à Cruz do seu Senhor.
Fitava amiúde Jesus Crucificado e a Virgem das Dores, haurindo força e alegria para o
derradeiro sacrifício.
Passavam os dias e as noites, e ele sempre a sofrer. Era verdadeiro milagre como um homem
tão extenuado de forças pudesse viver sem alimento algum.
Temiam os religiosos vê-lo entrar de um momento a outro em agonia, mas Paulo lhes
assegurava que a hora do trespasse ainda não chegara. O pe. João Maria devia pregar missão
em Tolfa; temendo, todavia, que o Santo morresse em sua ausência, diferia a partida de um
dia para outro. Paulo, antepondo a glória de Deus e a salvação das almas à própria
consolação, disse-lhe:
|
“Vá, vá tranqüilo, pois não morrerei tão logo”.
|
|
Animado sempre do espírito apostólico, acrescentou:
|
“Ao passar flor Rota, incentive aqueles bons habitantes a assistirem a missão”.
|
|
O missionário, após pedir-lhe a bênção, beijou-lhe a mão. Paulo, por sua vez, osculou a mão
desse filho que tão bem o assistia nos caminhos espirituais.
D. Struzzieri, antigo filho do venerável Fundador, então bispo de Amélia, escreveu-lhe
pedindo o esperasse em Roma no ia 18 de outubro. Referiu-lhe o secretário as palavras e o
desejo do Prelado. O Servo de Deus respondeu sorrindo:
|
“Sim, responda-lhe que o esperarei”.
|
|
No entanto extinguia-se-lhe a voz e as forças se lhe diminuíam de dia a dia.
Sentindo aproximar-se o último combate, solicitou o sacramento da Extrema-Unção,
escolhendo para ato tão comovente festa da Maternidade divina de Maria, segundo domingo
de outubro.
No sábado, 7 do mesmo mês, confessou-se com o pe. João faria, que já voltara da missão.
Domingo de manhã, recebeu m Viático Aquele que é a Ressurreição e a Vida.
|
“Em seguida, para melhor compenetrar-se da graça da Extrema Unção, mandou chamar a um
de seus padres, narra o piedoso biógrafo do Santo, pedindo-lhe expusesse os efeitos deste
grande sacramento. Ele, que com tanta competência podia ensinar a outrem, quis por
humildade ser instruído?”.
|
|
O religioso que teve essa honra é o mesmo que nos oculta o nome: SÃO VICENTE: MARIA
STRAMBI, então lente de Teologia em Santos João e Paulo, mais tarde Bispo de Macerata
Tolentino. Um santo a doutrinar a outro santo!
Terminadas as vésperas, dirigiram-se os religiosos à cela do enfermo
Com as mãos postas, profundamente recolhido, seguia as orações rituais, enquanto dos olhos
deslizavam-lhe doces lágrimas. Os religiosos, à imitação do pai moribundo, rezavam e
choravam.
Terminada a cerimônia, chegou d. Marcucci, vice-gerente, perguntando pela saúde do pe.
Paulo.
|
“Ah! Expia., respondeu chorando o religioso, é a última vez que vereis ao nosso pai, pois
está tão acabado, que pouco lhe resta de vida”.
|
|
Encaminhou-se o snr. bispo para a cela do servo de Deus. A vista daquele rosto, em que se
associavam as sombras da morte e os primeiros resplendores do Céu, comoveu-se
profundamente, não pronunciando uma palavra sequer.
Colho o santo se esforçasse por pedir-lhe a bênção, d. Marcucci, dizendo-lhe que se não
fatigasse, lançou-se de joelhos aos pés da cama, rezou três ave-marias e pronunciou em voz
alta as seguintes palavras:
|
“Que Jesus e Maria, nossa Mãe, nos abençoem...”
|
|
Dir-se-ia não atrever-se abençoar a um santo com a fórmula ordinária dos bispos.
Pode dizer-se que Paulo estava em contínua agonia. Todavia, oito dias depois, com
admiração geral, conseguiu escrever de próprio punho uma carta à virgem de Cervéteri.
Dava-lhe alguns conselhos e dizia que a esperava no Céu, para onde iria daí a dois dias.
Rosa Calabresi depõe:
|
“Estávamos já bem adiantados no mês de outubro de 1775, quando
recebi uma carta do Ven. Servo de Deus..., a última que recebi. Estava escrita toda de sua
mão. Os pensamentos davam a conhecer uma mente clara e uma alma virtuosa. A escrita,
porém, indicava a fraqueza das forças, pois as letras não estavam traçadas como de costume
e as linhas começavam no alto e iam terminar quase na metade da página. Dava-me diversas
recomendações..., a última bênção... (dizendo que) dentro de dois dias teria morrido...,
concluía que tornaríamos a nos ver no céu”.
|
|
No dia de são Lucas (18 de outubro), de quem era devotadíssimo, recusou a poção de pão
dissolvido em água, desejando comungar em jejum.
Foi sua última Comunhão. De ora em diante só vive para o Céu. Quer deixar a terra num
ósculo de amor.
Pediu não permitissem entrar na cela pessoa estranha, pois os derradeiros instantes de vida
deveriam pertencer exclusivamente a N. Senhor e aos seus filhos.
Apesar da proibição, os religiosos abriram exceção ao bispo de Scala e Ravello, a um
religioso Camaldulense do Convento de São Gregório e a um senhor de Ravena.
O Santo, sempre bondoso, acolheu-os, presenteando-os com pequeno Crucifixo,
exortando-os, por sinais a meditarem perenemente a sagrada Paixão de Nosso Senhor.
Enternecidos até as lágrimas, exclamaram ao retirar-se:
|
“Ah! na verdade vê-se a santidade estampada em seu rosto! Oh! como são ditosos, estes
padres, pois têm por pai a um santo! Sim, Paulo é grande santo!”.
|
|
Pouco antes do meio dia, chega d. Struzzieri. Desce do carro e corre à cela do amado pai,
toma-lhe a mão e cobre-a de beijos. O moribundo reanima-se ao rever o querido filho. Sorri,
descobre a cabeça em sinal de respeito ao Prelado e deseja também beijar-lhe a mão, mas o
snr. bispo retira-a imediatamente.
Após afetuosas palavras, disse Paulo ao enfermeiro
|
“Diga ao pe. Reitor que trate bem ao snr. bispo e aos seus domésticos, fazendo-os servir
pelos religiosos”.
|
|
Cumprira a palavra, esperando o snr. bispo. Agora, ciente de que lhe chegara a última hora,
pediu ao enfermeiro o ajudasse a mudar de posição, para poder fitar as imagens de Jesus
Crucificado e da Mãe das Dores. Nessa posição permaneceu até a morte.
Pouco depois, sentindo calafrios, disse ao enfermeiro
|
“Chame o pe. João Maria porque minha morte está próxima”.
|
|
Respondeu-lhe este que não via perigo iminente de morte, tanto mais que o médico, horas
antes, o achara melhor.
|
“Chamem, chamem o pe. João Maria para auxiliar-me”,
|
|
insiste o Santo.
Estavam os religiosos no coro cantando vésperas. O irmão, não julgando iminente o
desenlace, sentou-se junto ao leito do servo de Deus e perguntou-lhe:
|
“Meu padre, por ventura não aceita de boa vontade a morte para cumprir a SS. Vontade de
Deus?”
|
|
Respondeu o moribundo com voz forte
|
“Sim, morro de muito boa mente para cumprir a SS. Vontade de Deus”.
|
|
|
“Coragem, pois, acrescentou o enfermeiro; confie em N. Senhor”.
|
|
Estendeu Paulo os braços às queridas imagens e disse com admirável ternura
|
“Ali estão minhas esperanças, na Paixão de Jesus e nas Dores de minha Mãe Maria....”
|
|
|
|