PRIMEIRAS VOZES DO CÉU

O entusiasmo cresceu com os portentosos milagres operados naquele dia do corpo sagrado, inocente vítima imolada no Calvário, templo agradável a Deus, irradiava maravilhosa virtude. Revestiu-se o rosto de celestial formosura, como se Paulo estivesse em êxtase.

Desprendiam-se-lhe das faces uns como raios de luz, elevando as almas para Deus. Não se cansavam de contemplá-lo, exclamando:

“Como é belo! Como é belo! Que pena sepultá-lo tão depressa!”.

Um piedoso sacerdote, ao beijar-lhe a mão, percebendo suave e misterioso perfume, perguntou ao irmão enfermeiro se o haviam embalsamado ou ungido com aromas.

Depois de muitas horas o corpo ainda se conservava flexível. Do rosto deslizava-lhe suor, que os presentes enxugavam com lenços de linho, para conservar quais preciosas relíquias.

Uma senhorita, por nome Gertrudes Marini, que um tumor maligno no rosto mantinha de cama havia três meses, foi levada pelos pais à basílica dos Santos João e Paulo. Empregando grande esforço, conseguiu chegar junto ao corpo do servo de Deus. Apenas tocou-o, ficou radicalmente curada, embora já estivesse desenganada pelos médicos.

“Milagre, milagre?”,

exclamaram as testemunhas do prodígio. O brado repetido por todos aumentou sobremaneira o entusiasmo geral. Irmão Bartolomeu, o feliz enfermeiro do Santo, após referir o fato, conclui ao certo é que apenas tocou no Servo de Deus, no mesmo instante ficou boa e voltou para casa sã e livre, com admiração e pasmo de todos os que a tinham, visto enferma. Eu o sei porque fui com o Pe. Postulador à casa da referida jovem, a qual, na presença de diversas testemunhas, atestou com juramento a narração por mim feita acima e deu fé publicamente disto.

Muitos outros milagres atestavam o poderoso crédito de que já gozava Paulo da Cruz, de maneira que este dia foi antes de triunfo que de pesar.

Anoitecera e o povo não deixava a basílica. Foi necessária a autoridade do sub-administrador para que se pudesse fechá-la.

O pintor Domingos Porta fêz então, em gesso, a máscara do Santo.

Transportaram depois o sagrado corpo à capela do SEPULCRO, assim chamada porque nela se colocava Jesus Eucarístico na noite de quinta para sexta-feira santa.

A boca do Santo se conservava aberta. Irmão Bartolomeu, vendo inúteis seus esforços para fechá-la, valeu-se do seguinte recurso:

“Pe. Paulo, vós sempre me obedecestes em vida, obedecei-me também agora. Fechai a boca”.

E sem mais a boca se fechou!.

Em presença do sub-administrador, da comunidade e de algumas pessoas, redigiu o tabelião a ata do levantamento do corpo. Substituíram-lhe a túnica, que a piedade dos fiéis reduzira a farrapos. Cortaram-lhe os poucos cabelos que ainda lhe restavam, distribuindo-os como relíquias.

Foi então que observaram com todo vagar o Nome ss. de Jesus gravado no peito com ferro em brasa, e o prodígio de amor que lhe levantara diversas costelas.

Nada, porém, chamava mais a atenção do que o rosto do Santo, sempre mais brilhante e resplandecente. Ir. Bartolomeu depõe:

“Seu semblante despedia como que raios de luz”.

Todos, inclusive o sub-administrador, exclamavam:

“Como é belo! Como é belo!”.

Após as últimas despedidas, colocaram-no num caixão de madeira, um tijolo sob a cabeça, o Crucifixo no peito e ao lado um tubo de metal revestido de chumbo, contendo uma inscrição latina, sinopse de sua vida.

Selaram a caixa com seis chancelas, quatro do sub-administrador e duas da Congregação. Fecharam as portas da capela, guardando d. Marcucci as chaves.

No dia seguinte, maior concurso de povo esperava na praça. Desejavam venerar os restos mortais do grande missionário. Ao saberem que o ataúde já fora selado, geral foi a consternação.

Todos se queixavam de haverem ocultado tão depressa os venerandos despojos, privando a muitos do prazer de contemplá-los.

Até o Santo Padre se lamentou. Era intenção de Sua Santidade mandar extrair o coração; os superiores, ignorando os desejos do Papa, não julgaram prudente tomar essa iniciativa, sem ordem expressa de sua Santidade.

Foi tal a santa indiscrição dos fiéis, que chegaram a cortar fragmentos da porta para conservá-los como relíquias.

No dia vinte e um, ao anoitecer, fêz-se o reconhecimento do caixão, que foi depositado em outro de chumbo. Este foi igualmente lacrado com chancelas do sub-administrador e da Congregação. Ambas as caixas foram colocadas em outra de madeira e sepultadas em humilde túmulo, no fundo da nave esquerda, perto da porta da capela, enriquecido pouco depois de modesto monumento.