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Desde as vésperas, à noite, a voz do canhão do forte do Santo Anjo repercutia no Tibre, nos
vales e nas montanhas que circundam a Cidade eterna.
As casas adornadas, o alegre repicar dos sinos, a cúpula de São Pedro toda iluminada, esse
ar de festa a invadir toda Roma, anunciavam a secular solenidade do dia seguinte.
Aos primeiros albores da aurora, imensa multidão se comprimia na basílica e na praça de
São Pedro.
Contemplemos os quadros que representam o bem-aventurado.
Na fachada da igreja aparece Paulo pregando Jesus Crucificado; sob o pórtico, seu glorioso
sepulcro circundado de fiéis e enfermos a venerá-lo e a pedir-lhe saúde; no interior da
basílica, à esquerda, nos arcos próximos à CONFISSÃO, os dois milagres aprovados para a
canonização: a cura súbita do câncer e a multiplicação do trigo; no centro, ao lado da
cátedra de Pedro, num mesmo quadro, estão Paulo da Cruz e Leonardo de Porto Maurício
elevando-se para o Céu; no estandarte, que será levado em procissão, Nosso Senhor
desprende a destra da Cruz e abraça o nosso Santo que, em êxtase, sacia-se no manancial do
sagrado Coração. Este quadro é cópia do que foi doado ao Santo Padre.
A basílica está adornada de tapeçarias, festões e grinaldas, dispostas com arte, predicado do
povo romano.
Mais de quinze mil círios dardejam raios de luz; infinidade de lampadários formam, nos
arcos e nos quatro ângulos da cúpula, brilhantes revérberos em deslumbrantes ondulações.
No centro da vasta nave, um lampadário maior, desprendendo mil raios, ostenta as ARMAS
de São Pedro.
Após longa espera, lá pelas sete e meia, ressoam piedosos cânticos, anúncio da procissão
que sai do Vaticano.
Aparece a Cruz à porta da basílica. Geral é a emoção. Que espetáculo inaudito!...
Eis os ungidos do Senhor; eis todos esses Pontífices convocados de todos os recantos da
terra, por um simples sinal de Pedro: a Europa, a Ásia, a África, a América e a Oceânia,
todo o universo católico lá se encontra...
Em meio do numeroso e augusto cortejo, aparece Aquele a quem todos anseiam contemplar.
E na comoção geral, pelas cabeças inclinadas e joelhos em terra, divisa-se a pessoa augusta
do Vigário de Cristo, do Sucessor de Pedro, do Chefe universal da Igreja...
E' Pio IX!... o imortal Pio IX, o doce e querido Pontífice, que se adianta majestosamente, na
cadeira gestatória, a abençoar efusivamente os filhos prostrados a seus pés.
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“Como te apresentas formosa nessa união, ó Igreja Católica! Como és formosa! Formosa
como Jerusalém, bela em tua paz, quando, anunciando suas verdades aos fiéis!...”
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“Mas, como és também terrível, ó Igreja santa, quando caminhas, Pedro a frente, unindo-te
estreitamente à cátedra da unidade, abatendo aos soberbos e a toda a alteza que se leva
contra a ciência de Deus, acossando as hostes inimigas, confundindo-as com a autoridade da
História, entregando-as à execração dos séculos futuros!...”
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Principia a cerimônia da Canonização...
Após as três petições, ajoelha-se o Papa e entoa o VENI CREATOR, continuado por todos
os fiéis, com entoações dignas de tão augusta solenidade.
Terminado o hino, levanta-se o Pontífice e, com lábios inspirados, proclama ao mundo todo
a SANTIDADE dos heróis da caridade e da fé.
Em seguida, com voz firme e sonora, começa o cântico de ação de graças, o triunfal TE
DEUM, prosseguido por quatro mil vozes entusiastas.
Nesse instante, o canhão do forte anuncia à cidade o decreto da Canonização, respondido
com jubilosas vibrações, por todos os sinos de Roma.
Pio IX sobe ao altar e dá principio ao santo Sacrifício...
Ao ofertório, três dos cardeais juízes fazem sucessivamente as misteriosas oferendas dos
círios, do pão e do vinho, com duas rolas, símbolo da vida contemplativa e solitária, duas
pombas, figura da vida ativa, porém pura e fiel; finalmente, uma gaiola com aves, que se
lançam para o céu, alegoria do vôo das almas santas para Deus.
Entretanto, cânticos piedosos repercutem pelas arcadas do templo. Jamais o texto
evangélico: TU ES PETRUS, ET SUPER HANC PETRAM.AEDIFICABO ECCLESIAM
MEAM (Mat. 18), recebeu da harmonia interpretação mais solene e enternecedora.
Três coros dessas vozes, que somente Roma sói apresentar, figurando os três Estados da
Igreja, a Igreja docente, a Igreja discente e a Igreja triunfante, proclamam os imortais
destinos da BARCA de Pedro e lançam, como repto às ondas impotentes da impiedade
delirante, as últimas palavras do texto sagrado: ET PORTAE INFERI NON
PRAEVALEBUNT ADVERSUS EAM.
Que impressão religiosa! Que recolhimento profundo durante a missa celebrada pelo Vigário
de Cristo!
Afinal, logo que a grande Vítima tudo sancionou e consagrou com seu Sangue, o Pontífice,
abrindo os braços e o coração à multidão prostrada, lançou-lhe a bênção apostólica,
retirando-se em seguida.
Por esse triunfo secular dos Príncipes dos Apóstolos Pedro e Paulo, acabava a Igreja de unir
mais e mais as almas ao centro divino da unidade; acabava outrossim de provar sua perpétua
e virginal fecundidade, coroando com o diadema dos santos aos heróicos mártires de
Gorcum, da Polônia e da Espanha, às virgens puras de Pibrac e de Nápoles, aos grandes
apóstolos Leonardo de Porto Maurício e PAULO DA CRUZ. Em virtude do decreto da
sagrada Congregação dos Ritos de 14 de janeiro de 1869, Pio IX estendeu e tornou
obrigatória a toda a Igreja a festa, com oficio e missa, de são Paulo da Cruz, fixando-a no dia
28 de abril.
Ó Paulo, ó pai amado, frui agora da visão de Jesus a quem tanto amastes, mas lembrai-vos
de que nesta terra vivem ainda almas Intimamente unidas convosco pelos laços do mais
estreito parentesco espiritual. São vossos filhos e filhas, espalhados pelo mundo inteiro... E'
a santa Igreja, cujo augusto Chefe continua sempre a dispensar-nos o mesmo carinho...
Obtende para a Igreja apóstolos zelosos, paz para as nações nestes tempestuosos dias que
atravessamos e, se forem necessárias lutas sangrentas, fortifiquem-nos os ânimos e alentem-
nos nos desfalecimentos os vossos luminosos exemplos.
Ó Pai, pedi para vossos filhos e filhas a graça de caminharem sempre pelas sendas traçadas
por vossas virtudes, pelo vosso zelo, pelo vosso amor a Jesus Crucificado e à Virgem das
Dores, para poderem um dia, formando coroa em torno de vós, cantar eternamente as glórias
da Cruz, único manancial de santificação.
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