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Certo dia, enquanto orava, viu Paulo a ss. Virgem trazendo nas mãos o mesmo santo hábito,
com a diferença de que a palavra JESU era seguida por estas duas: XPI PASSIO. E sem mais
viu-se revestido daquele hábito. Compreendeu que a grande empresa a que Deus o chamara
devia realizar-se sob o patrocínio e poderoso auxílio da ss. Virgem.
Estas visões revelam tais caracteres de veracidade, que ninguém, por pouco versado em
assuntos espirituais, deixará de reconhecer, à primeira vista, a ação de Deus. Contudo, para
poder explicar o que havemos de referir do nosso santo, diremos algo da origem e dos
efeitos das visões. Ouçamos a são João da Cruz, mestre nessa matéria:
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“
Se, na obscuridade de uma noite profunda, brilhar resplandecente luz, divisaremos clara e
distintamente os objetos que o espesso véu das trevas nos ocultava. Apenas desapareça essa
luz, cairemos novamente na obscuridade, mas esses objetos continuarão profundamente
gravados em nossa memória
”
.
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Eis o que se passa nas visões celestiais.
Oculto sempre nas secretas escuridões da fé, o divino Sol da inteligência, que é a mesma
Verdade, faz sentir à alma, por uma luz mui viva, que ela se encontra nesse Sol ou, como diz
Paulo, no IMENSO, e é nesse instante que lhe descobre o que deseja revelar-lhe e nela
permanece impresso com tanta clareza, sendo impossível duvidar, mesmo quando a luz haja
desaparecido.
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“
Tenho mais certeza, diz Paulo falando de suas visões, daquilo que vejo em espírito pela
sublime luz da fé, do que se o vira com os olhos corporais
”
.
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E aduz a razão de que os olhos podem enganar-se por algum fantasma, ao passo que em tais
visões, conforme lhe fizera Deus compreender por conhecimento infuso, impossível é o êrro.
Aliás, santo Agostinho já o dissera que a Verdade imutável ilumina a inteligência de maneira
inefável.
Em desaparecendo esta luz, o honrem cai de novo em trevas, isto é, volta às debilidades da
natureza corrompida, chegando a sofrer repugnâncias e desalentos ocasionados pelo
dificultoso da empresa ou pelas hesitações e dúvidas, não a respeito da autenticidade das
revelações, mas da sua interpretação e maneira de executá-las e, enfim, pelo temor de
obstacular com incorrespondências a obra de Deus.
Neste estado se achava o espirito de Paulo, após as visões que acabamos de referir. O snr.
bispo, a quem prestava minuciosa conta, examinava-o com a discrição e reserva que exigem
semelhantes casos, sem se pronunciar.
Por esta razão, Paulo ainda não se decidira. Inquieto e indeciso, inclinava-se a realizar o
desejo que tivera outrora de consagrar-se a Deus em alguma Ordem religiosa.
Certo dia em que, seguindo solitária estrada, mais do que nunca era perseguido por esse
pensamento, apareceu-lhe a ss. Virgem. Estava revestida de túnica preta e trazia no peito
virginal o EMBLEMA SAGRADO, extremamente branco, sobre fundo preto. Era o emblema
em forma de coração encimado por pequena cruz, tendo no centro o lema da Paixão e em
baixo três cravos.
Maria, ostentando no rosto a tristeza do Calvário, dirigiu-lhe estas palavras:
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“
Vês, meu filho, como estou de luto? E' por causa da dolorosíssima Paixão do meu amado
filho Jesus. Deves fundar uma Congregação, cujos membros se revistam de um hábito igual a
este, em sinal de continuo luto pela Paixão e Morte de meu Filho
”
.
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E desapareceu.
Os sentimentos que o empolgaram nessa dulcíssimas aparição faziam-no exclamar, muitos
anos após, inebriado de gôzo:
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“
Oh! como era formosa!
”
...
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Dissiparam-se-lhe as dúvidas. Conheceu claramente a meta que lhe traçara a Providência.
Compreendeu também que havia de ser angelical a pureza dos que trouxessem o hábito que a
Virgem Imaculada consagrara, vestindo-o por primeira.
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