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Não podia o snr. bispo duvidar de que estas visões e revelações provinham de Deus. Além
de implorar as luzes do Pai celeste, consultara os mestres na ciência dos santos,
particularmente o pe. Colombano de Gênova, por quem nutria grande estima. Residia este no
convento de Pontedécimo, perto de Gênova.
Como vimos o pe. Colombano aprovara o espírito de Paulo, quem amava como a filho em
Jesus Cristo. Descobrindo nessas maravilhas a obra do Espírito Santo, apressou-se em dar o
seu parecer ao digno bispo, suplicando-lhe revestisse quanto antes do santo hábito da
Paixão o eleito do Senhor.
Possuímos uma carta desse religioso, escrita ao prelado no dia 25 de novembro de 1720.
Após referir que Paulo passara por todos os graus da oração e era dotado do espírito
profético, assim se expressa:
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“
Por intermédio de v. senhoria ilustríssima, dignou-se o Pai das misericórdias e o Deus de
toda consolação confortar-me. Passei por muitas penas ao conduzir as almas à perfeição; no
entanto hoje, graças à divina Bondade, vejo com alegria como é fácil a. Deus enriquecer o
pobre em um momento, hoje, em que Paulo Francisco recebeu, creio, o santo hábito.
Agradeço humildemente a v. senhoria ilustríssima
”
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Esse notável diretor de almas verificou que o mestre de Paulo era o mesmo divino Espírito
Santo.
Demasiadamente clara se manifestava a vontade de Deus para que o snr. bispo vacilasse ou
retardasse em cumpri-la. Ordenou, pois, a Paulo se preparasse para receber o santo hábito, o
mesmo que Nosso Senhor e sua Mãe ss. lhe mostraram.
Quem jamais poderia descrever a felicidade do nosso santo
Todavia, como foi fugaz! Não devia Paulo reproduzir em si a imagem de Jesus Crucificado?
O divino Salvador desejara ardentemente beber o cálice da amargura que o Pai lhe
oferecera, mas na Véspera do supremo. sacrifício, perturbou-se-lhe a alma e experimentou
todas as repugnâncias da natureza humana.
Paulo suspirava pela hora de sacrificar-se por Deus e pelas almas, em união com a Vitima
do Calvário. Ao chegar, porém, o momento do sacrifício, as tristezas, os desalentos, o
abandono e o tédio assaltaram-lhe o espírito. Esses combates interiores ele mesmo os
descreveu mais tarde, em carta a um jovem, seu penitente, para animá-lo à vocação
religiosa:
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“
Sereis feliz, meu querido amigo, dizia-lhe, se fordes fiel em combater e vencer, não vos
deixando arrastar pelos sentimentos da natureza, tendo unicamente em vista a Jesus
Crucificado, que vos chama com especial bondade a segui-lo. Será Ele para vós pai, mãe e
tudo o mais. Oh! se soubésseis os assaltos que tive que sustentar antes de abraçar a vida
religiosa; a extrema repugnância que me insinuava o demônio e a ternura para com meus
pais, cujas esperanças, conforme a prudência humana, se estribavam unicamente em mim! As
desolações interiores, as tristezas, os temores, tudo me dizia: não resistirás. Satanás fazia-me
crer joguete de ilusões e que bem poderia servir a Deus de outra maneira; que esta vida não
era para mim... além de muitas outras coisas que passo em silêncio. O que mais me
entristecia era o haver perdido o sentimento de devoção. Sentia-me totalmente árido e
tentado de todos os modos; o simples toque dos sinos causava-me horror. Todos me
pareciam contentes, exceto eu. Em suma, impossível me é descrever todos os grandes
combates que me assaltaram, sobretudo quando chegou o momento de tomar o santo hábito e
deixar o lar paterno. Tudo isto é a pura verdade; há, no entanto, muitas outras coisas que não
sei nem posso explicar. Ânimo, pois, meu querido amigo; Deus nosso Senhor dará ao
vencedor o maná oculto e um nome novo!
”
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A intrepidez que Paulo desejava inspirar àquele jovem, ele a alcançara com a pontual
fidelidade à graça. e com o olhar perenemente voltado para Jesus Crucificado. Deste modo
triunfou dos assaltos do inimigo e encontrou na vitória o segredo de completar com alegria o
sacrifício.
O santo bispo foi o primeiro benfeitor desse Pobre de Jesus Cristo. Com o auxílio de suas
esmolas, comprou Paulo o mais grosseiro pano usado pelos indigentes da cidade, fazendo-o
tingir de preto.
Desejava consagrar-se a Deus no mesmo dia em que a Ele se consagrara Maria ss. no templo
de Jerusalém.
Como, porém, naquele ano, a festa da Apresentação caísse em quinta-feira, marcou para a
vestidura o dia seguinte, sexta-feira, dia que se harmonizava perfeitamente com o espirito da
Congregação que havia de fundar. Serviu-lhe aquela festa de preparação. Comungou com
insólito fervor e visitou as igrejas de Castellazzo.
Cortou os cabelos em sinal de renúncia ao mundo, apresentando-se à tarde aos pais para
solicitar a devida licença.
De joelhos, ante os membros reunidos da família, que choravam copiosamente, pediu-lhes
perdão das faltas e, segundo sua expressão, dos maus exemplos que julgava ter dado.
Suplicou aos pais o abençoassem, dando-lhe permissão de se consagrar inteiramente ao
Senhor.
Eles, patriarcas dignos de priscas eras, resignados à ss. Vontade de Deus, abraçaram
ternamente o dileto filho e, com os olhos rasos de lágrimas, deram-lhe, com a bênção, o
suspirado consentimento. Jubiloso, como se superara a maior das dificuldades, entoou o TE
DEUM, hino da ação da graças e, a fim de implorar a misericórdia divina, recitou o
MISERERE.
Quem se não comove ao imaginar aquela enternecedora cena de despedida? Sublime luta da
natureza e da fé, vencida por esta que diviniza o que há de mais doce e forte na natureza.
Grande, sem dúvida, foi o sacrifício de ambas as partes, mas refulgente outrossim será a
coroa da vitória.
Como bem nos trazem à memória aqueles heróis da primitiva Igreja ao se despedirem dos
velhos pais, que os abençoavam ao se encaminharem para a última batalha, coroada pelo
martírio!
O mesmo Salvador, segundo piedosa tradição, na véspera do, sacrifício, ajoelhado ante a
divina Mãe, pediu-lhe a bênção e o consentimento para a imolação suprema. Quis assim
ensinar aos pais cristãos que, unindo o seu ao generoso sacrifício dos filhos., receberão
também a glória imortal do paraíso.
No dia seguinte dirigiu-se Paulo para Alexandria.
Em caminho, sentiu tanto frio, que temeu não resistir à austeridade da vida que estava por
abraçar. Era ardil do inimigo; mas o jovem atleta da Cruz cobrou ânimo e confiança em
Deus, prosseguindo a viagem.
Em Alexandria, disseram-lhe que o snr. bispo estava ausente e se voltaria no dia seguinte; ao
que Paulo replicou:
Foi o que sucedeu. este, vendo ao servo de Deus,
preparou-se sem mais para a cerimônia, realizada em sua capela particular.
Ajoelhado ante o altar, apertava o santo ao coração a Cruz do divino Mestre,
prometendo-lhe viver sempre crucificado para o mundo.
O snr. bispo benzeu o hábito preto da Paixão e, profundamente emocionado, dele revestiu o
filho de sua alma. Não lhe permitiu, no entanto, trazer externamente no peito o SINAL
sagrado, julgando prudente esperar o beneplácito da Sé Apostólica.
Este acontecimento, memorável na história de qualquer Ordem religiosa, deu-se aos 22 de
novembro de 1720, sexta-feira, na mesma hora em que Jesus, ao morrer pregado no infame
madeiro, oferecia o preço de seu sangue pela redenção da humanidade.
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