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Quando a alma generosa e confiante, apesar das lutas de toda espécie, se entrega sem
reservas ao sacrifício, retira-se o tentador, aproximam-se os Anjos e Deus derrama sobre ela
graças e consolações a flux.
Desde o dia da vestidura experimentou Paulo completa mudança interior. Dir-se-ia revestido
do HOMEM NOVO.
Desvaneceram-se-lhe os temores e as trevas, sucedendo-lhes a paz, a alegria e as luzes do
Céu. Doravante não terá outro desejo senão agradar a Deus, palmilhando os exemplos de
Jesus Crucificado.
Ordenou-lhe o snr. bispo escrevesse as Regras do Instituto da Paixão, conforme se lhe
fixaram na mente após as visões já descritas.
O santo se preparou com retiro de quarenta dias. Mas, para executar ordem de tão elevada
transcendência, da qual dependerá o futuro do novo Instituto, que mansão irá Paulo escolher?
Que lugar ou, melhor, que santuário lhe oferecerá bastante silêncio, recolhimento e paz para
comunicar-se com o divino Espírito Santo?
Havia um cantinho solitário, sob uma escada, atrás da sacristia da igreja de São Carlos.
Com a autorização do snr. bispo, para lá se retirou, esperando, como em outro Cenáculo, a
divina inspiração.
O quarto era triangular, baixo, estreito, úmido, repugnante à natureza. Jamais ali peneirava o
sol; apenas tênue claridade de luz coava por pequena, janela..
Sobre o péssimo do lugar, mortificava-o o rude traje, verdadeiro cilicio. Tinha sempre a
cabeça descoberta e os pés descalços. Poucos sarmentos e algumas palhas sobre a terra nua,
constituíam-lhe a cama, onde, revestido do santo hábito tomava seu breve repouso. À meia
noite se levantava, transido de frio, indo à igreja, onde recitava Matinas e Laudes e fazia
duas horas de meditação.
De manhã, ajudava as missas e recebia a sagrada Comunhão. Disciplinava-se várias vezes
ao dia até derramar sangue. Passava outras longas horas em oração. Todo o seu alimento
consistia num bocado de pão, recebido de esmola. A bebida era simples água. Com tais
austeridades, à imitação de são Bento na gruta de Subiaco e de santo Inácio na cova de
Manresa, segregado do mundo, preparava-se para receber das mãos de Deus o código
sagrado, que deveria reger a futura Congregação de apóstolos.
Detenhamo-nos por alguns instantes.
Aquele tenebroso recinto devia ser teatro de um desses dramas interiores em que o Céu e o
inferno, Deus e satanás disputam uma alma.
Quem irá introduzir-nos naquela cela, a fim de presenciarmos lutas tão heróicas? O mesmo
jovem atleta.
Possuímos precioso documento, um diário, escrito de sua mão, por ordem do snr. bispo, que
desejava ser informado a respeito das diversas fases por que Deus conduzia o servo fiel.
Percorramo-lo de relance, dando a palavra, quanto possível, ao nosso santo.
Durante as longas horas de oração, permanecia Paulo sempre de joelhos. O corpo, tiritante
de frio e extenuado pelo jejum e pelas vigílias, reclamava alivio. No entanto o servo de
Deus resistia com indômita energia aos reclamos da natureza.
Confortava-o na luta o seu Senhor Sacramentado. A Comunhão, farol de amor, manancial de
luz, proporcionava-lhe indizível contentamento, sendo levado a exclamar:
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“
O frio, a neve, o
gelo causavam-me inefável prazer. Desejava-os ardentemente, dizendo ao meu Jesus: Vossos
tormentos, ó Deus do meu coração, são dádivas do vosso amor... Assim, inebriava-me do
meu Jesus, em altíssima suavidade e doce paz, sem movimento algum das potências da alma,
que se quedava recolhida
”
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Por vezes a sagrada Eucaristia, abrasando-lhe o peito em chamas de amor, lhe alentava e
fortificava o corpo. Ouçamo-lo:
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“
Ó misericórdia infinita do nosso soberano Bem! Esta maravilha, conforme Deus me faz
entender, provém do grande vigor que o Pão dos Anjos comunica à alma, que repercute
também no corpo
”
.
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Uma que outra vez, distrações importunas interrompiam-lhe a oração. Sua alma, porém, não
permanecia menos absorta em Deus, continuando a alimentar-se, conforme se exprimia, do
santíssimo manjar do divino amor. Eis como Paulo o explica, com encantadora simplicidade:
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“
Afigurai-vos uma criança que tem os lábios colados ao seio materno: suga o leite e agita as
mãozinhas e os pés; revolve-se continuamente, faz movimentos com a cabeça e coisas
semelhantes, mas não cessa de sorver o alimento, porque não retira a boca do peito materno.
Melhor seria, não há dúvida, se ficasse quieta; porém continua a alimentar-se. O mesmo
sucede com a alma.
A vontade é a boca, que não cessa de tomar o leite do divino amor, muito embora se agitem a
memória e a inteligência. Sem dúvida, melhor seria que essas potências permanecessem
tranqüilas e unidas. Não sei explicar-me melhor, porque o Senhor não mo dá a conhecer de
outra maneira
”
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Com esta linguagem, que se assemelha à de são Francisco de Sales, nota-se bem a graça
infusa de oração extraordinária, uma das mais elevadas e que precede ao que os doutores
chamam
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“
EMBRIAGUEZ DO SANTO AMOR
”
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Paulo dá a entender que passara por este último e por outros graus da mais alta
contemplação, pois fala de potências TRANQÜILAS E UNIDAS.
O Senhor, de vez em quando, deixava-o em aridez e desolações interiores. Envolviam-lhe a
alma - é ele quem no-lo diz as mais profundas trevas. O espírito maligno, com repetidos
ataques, tudo fazia por desviá-lo de sua santa resolução. Excitava-o à impaciência e à
cólera, sugerindo-lhe horríveis blasfêmias contra a misericórdia divina.
Isto não era mais que uma aragem a lhe perpassar pelo espírito, mas era o suficiente para
dilacerar-lhe o coração.
Invocava o nome de Maria, sua doce Mãe, e rogava ao Senhor o livrasse daquelas sugestões
internais.
Quanto a outras provações, como aridez e melancolia, não desejava ver-se livre delas nem
rogava a Deus as afastasse; temia até o menor alivio.
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“
Quando me acomete, escrevia ao snr bispo, esta espécie de penas e aflições (não sei como
chamá-las), afigura-se-me estar submerso num abismo de misérias e ser o homem mais
infeliz do mundo. Minha alma, no entanto, abraça-as, porque sabe ser esta a Vontade de
Deus, e recebe-as como pedras preciosas, ofertadas por Jesus. E exclamo com santa Teresa:
Ou sofrer ou morrer
”
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Foi visitá-lo seu irmão João Batista, desejoso de abraçar a mesma vocação. Tinha dele o
santo tão grande estima, que se julgava indigno de sua companhia. Comunicava-lhe os
segredos do coração, mas, em se tratando dos sofrimentos, quase nada lhe dizia, temendo as
consolações da confidência.
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“
Temamos, costumava dizer, temamos ser privados do sofrimento, mais do que teme o
avarento perder os seus tesouros
”
.
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Conhecia o valor do sofrimento no exercício da contemplação. Dizia a seu diretor:
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“
Eis o que Deus me faz compreender: a alma que Nosso Senhor quer elevar à altíssima união
consigo pela oração, deve pasmar, na mesma oração, pelo caminho dos sofrimentos; dos
sofrimentos, digo, sem consolação sensível. A alma, em certo modo, não sabe onde está;
nada obstante, por altíssimo conhecimento infuso, compreende que está nos braços do celeste
Esposo, alimentando-se com o leite de seu infinito amor.
”
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“
Entendi, ademais, no íntimo da alma, quando atormentado por aflição particular, que Deus
DARÁ AO VENCEDOR O MANÁ OCULTO de que nos fala a sagrada Escritura.
”
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“
O maná oculto é o mais doce alimento do santo amor. A Alma, na santa oração, goza de
repouso profundo com o amável Esposo
”
.
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Deus, por meio desta oração passiva, comprazia-se em tomar posse da alma de seu fiel
servo. O santo continua:
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“
Quisera que todo o mundo compreendesse a grande mercê que faz Deus à alma enviando-lhe
aflições, sobretudo sem lenitivo, porque então ela se purifica como o ouro no crisol, torna-se
formosa e voa para junto do soberano Bem, para nEle se transformar, sem perceber como
isto sucede
”
.
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Fala em seguida dos assaltos do demônio para perturbar a alma, na contemplação das
perfeições divinas, e a compara ao rochedo em meio do mar embravecido. Açoitado pelas
ondas, permanece imóvel, e o esbater das vagas espumantes o tornam mais alvo,
libertando-o das escórias que o denegriam.
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“
O demônio, invejoso desse sublime estado da alma na oração, ao ver que não pode
arrancá-la das poderosas mãos de Deus, envida todos os esforços para ao menos perturbá-la,
quer com tentações, quer com imaginações e pensamentos distrativos. Este acúmulo de
pensamentos pode obscurecer por instantes a contemplação com que o Amado a favorece,
mas a luta a purifica, como os vagalhões purificam os rochedos
”
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Quanto mais Nosso Senhor enriquecia a Paulo de dons sobrenaturais, tanto mais ele se
humilhava.
Certo dia teve o desejo de ser o último dos homens, o lodo da terra. Suplicou com lágrimas
ao Senhor, pela intercessão de sua divina Mãe, lhe concedesse a perfeição da humildade e
lhe manifestasse o que nesta virtude há de mais agradável a seus olhos. No mesmo instante
percebeu no coração a voz de Deus:
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“
Quando te lançares em espírito aos pés de todas as criaturas e até dos demônios, então mais
me agradarás
”
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Desde então penetrou profundamente nos segredos da humildade. Eis a lição que nos dá:
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“
Compreendi que quando alguém desce até as profundezas do inferno, até os pés dos
demônios, eleva-o Deus até o paraíso. Como o demônio pretendeu sublimar-se ao mais alto
dos Céus e, por seu orgulho, foi precipitado no mais profundo abismo, assim a alma que se
humilha ate esse abismo faz tremer a satanás e o confunde e Deus a exalta ate o paraíso,
”
.
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A começar desse dia, adquiriu Paulo esse baixo conceito de si, tão admirável nos santos que,
Deus deseja alçar à mais sublime grandeza, e jamais cessou de considerar-se abismo
insondável de iniqüidades e misérias. Essa profunda humildade era como luz superna a
dissipar-lhe da alma as trevas do amor próprio e do orgulho e a dispô-lo à união mais
perfeita com o sumo Bem. O laço dessa união, que lhe ocultava a vida em Deus com Jesus
Cristo, era, sobretudo, a humilhação do Verbo divino.
Jesus Crucificado, alvo único dos pensamentos e afetos de Paulo, inspirava-lhe o ardente
desejo de padecer, para comparticipar dos frutos da sagrada Paixão:
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“
Quando falo ao meu Jesus a respeito dos seus tormentosa digo-lhe Ah! meu soberano Bem,
enquanto éreis açoitado, quais os sentimentos do vosso ss. Coração?! Ó querido Esposo de
minha alma, quanto vos afligíeis à vista dos meus enormes pecados e ingratidões! Ó amor do
meu coração, pudesse eu morrer por Vós!... E imediatamente percebo que meu espirito nada
sabe dizer e está fixo em Deus com os sofrimentos de Jesus, comunicados à minha alma.
Outras vezes parece desfazer-se-me o coração. Ao relembrar ao meu Jesus seus sofrimentos
acontece às vezes que, depois de um apenas, sou forçado a calar-me, porque minha alma não
pode mais falar e parece desfalecer; fica assim abismada em altíssima suavidade misturada
com lágrimas, com os sofrimentos do Esposo impressos em si mesma, imersa no Coração e
na dor do dulcíssimo Esposo Jesus
”
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Certa manhã, após o Banquete divino, o solitário da igreja de São Carlos, unido a seu Deus,
prelibava as delicias do amor celestial, quando foi arrebatado em êxtase. Compreendeu a
inefável felicidade que, na clara visão de Deus, procede do amor beatífico...
Essa revelação da Pátria é verdadeiro tormento para a alma desterrada...
Com efeito, enamorada da formosura irresistível que acabava de contemplar, já não podia
viver na terra. Era-lhe a vida perene martírio, o corpo pesadíssima cadeia, que desejava
romper para unir-se a Deus lá na mansão eterna.
Não, a alma não podia sofrer esse desterro, se a Providência lhe não amenizasse os ardores
do amor ou, ao menos, não lhe entregasse o universo onde espraiar as expansões do coração.
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