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Foi tal o zelo que desde esse dia o inflamou, que, de mui boa vontade, por uma só alma
houvera sacrificado a vida.
Que imensa dor não sentia ao considerar o grande número de almas que se perdem por não
estarem orvalhadas com o sangue divino do Cordeiro!
Apresentava-se-lhe então ao espirito o grande meio de salvação que oferece o apostolado na
comunidade. Reunir companheiros, seguirem a mesma regra, trabalharem unidos para
conduzir ao bom caminho as almas transviadas, eis a sua ambição. Parecia-lhe antever uma
legião de homens apostólicos, de quem não se julgava digno tê-los por filhos e a quem de
boa mente se entregaria como o último dos servos; via-os deixarem a solidão e, imagens
vivas de Jesus Crucificado, core a luz da divina palavra aumentada em eficácia pelo bom
exemplo, dissiparem as trevas do erro e despedaçarem os grilhões do vicio.
Contava os pecadores convertidos; enumerava as almas puras, que alçavam o vôo para o
Calvário, a fim de resguardar a inocência à sombra da Cruz.
Magníficos sonhos de apóstolo, que aspirava quanto antes realizados!
Por esse motivo pedia a Deus, com muito fervor e abundantes lágrimas, caso fosse essa sua
vontade, lhe inspirasse as Regras dos
Aos 8 de novembro, sexto dia de sua admirável quarentena, enquanto orava, após a
Comunhão implorava o auxílio da bem-aventurada Virgens e dos santos, brilhante luz celeste
resplandece a seu olhos.
Vê o Céu aberto e, prostrados ante o trono da infinita Majestade, Maria ss., os anjos, os
santos, particularmente os fundadores de Ordens religiosas, a solicitarem do Senhor o
estabelecimento do Instituto da ss. Cruz e Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Deus ouvira
suas preces. O Céu se interessava pelo bom êxito da obra que ele tinha em vista. E Paulo
agradecia a Deus que, para a glória da Cruz, se dignava servir-se de tão vil instrumento, de
tão grande pecador.
Cheio de confiança em Nosso Senhor e inspirado pelo Divino Espirito Santo, pôs-se a
redigir as Regras do novo Instituto.
Conquanto jamais houvesse lido Regras de qualquer Congregação, escrevia com tanta
rapidez e facilidade, como se alguém lhas ditasse. Em seis dias, sem deixar nenhuma de suas
práticas, de piedade, estavam terminadas.
Não é, portanto, para estranhar, como dissemos na introdução desta biografia, que nelas
brilhasse o selo de justo discernimento e grande sabedoria.
Após referir estas visões, em que lhe fora inspirada a forma das Constituições, assim fala da
Paixão de Nosso Senhor, base e coroa do novel Instituto:
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“
Ali! meus queridos irmãos, a simples lembrança da sexta-feira é suficiente para causar a
morte a quem possui o verdadeiro amor... Não foi, por ventura, numa sexta-feira que o meu
Deus incarnado sofreu por meu amor, a ponto de imolar a vida sobre o infame patíbulo da
Cruz?!...
”
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“
Ademais, refleti bem, irmãos meus, o motivo principal por que andamos vestidos
de preto: conforme inspiração particular que recebi de Deus, é trajarmos luto em memória da
Paixão e Morte de Jesus.
”
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“
Não nos esqueçamos, portanto, de tê-lo sempre presente. Que
todos os Pobres de Jesus se esforcem por ensinar a quantos lhes for possível a piedosa
meditação dos sofrimentos do nosso dulcíssimo Jesus Crucificado.
”
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“
Eu, Paulo Francisco, pobre e miserável pecador, o mais indigno dos Pobres de Jesus,
escrevi estas santas Regras na igreja paroquial de São Carlos, em Castellazzo, lugar que me
foi designado pelo exmo. e revmo. snr. d. Gatunara, bispo de Alexandria, no dia em que
tomei o santo hábito.
”
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“
Comecei a escrevê-las no dia 2 de dezembro de 1720 e terminei-as aos 7 do mesmo mês.
Antes de começar a escrever, recitava Matinas e fazia oração mental. Em seguida,
revigorado, levantava-me e me punha a escrever.
”
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“
O inimigo infernal não deixou de assaltar-me, sugerindo-me repugnâncias e suscitando-me
dificuldades; mas, com o auxilio da divina graça, pus mãos à obra.
”
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“
Sabei que, ao escrever, fazia-o com tanta pressa como se alguém mo estivesse a ditar do
alto duma cátedra. Manifesto estas coisas para que se saiba que tudo o que aqui se acha é
particular inspiração de Deus. Quanto a mim nada mais sou do que iniquidade e ignorância.
No entanto, sujeito tudo ao juízo dos meus superiores.
”
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“
Louvado e glorificado seja o ss. Sacramento em todos os altares do mundo!
”
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“
Paulo Francisco, indigno servo dos Pobres de Jesus
”
.
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Estavam escritas as Regras. Todavia, o santo continuava em seu retiro, em alternativa de
penas e alegorias.
No dia 26 de dezembro (1720), enquanto orava diante do ss. Sacramento, ao pensar nos
infelizes que não crê m na presença real, vieram-lhe à mente os países arrancados ao seio da
Igreja Católica pela pretendida Reforma, particularmente a Inglaterra. Aos 29 do mesmo
mês, ao meditar a sagrada Paixão, apresentou-se-lhe à vista a imagem daquele pais,
cognominado outrora a
Sentia-se atraído, de maneira especial, a rezar por
aquele reino, que desejava regar com o próprio sangue. Pediu instantemente a Nosso Senhor
dissipasse as trevas que o envolviam e fizesse nele reflorescer a antiga fé. E continuou a
rezar pela Inglaterra durante toda a vida.
Veremos n o decurso desta história como estes primeiros pressentimentos tomarão caracteres
mais precisos, manifestar-se-ão com luzes miais vivas.
No último dia do recolhimento, primeiro de janeiro de 1721, prelibou a felicidade que Deus
lhe preparava em recompensa de seu amor a Jesus Crucificado. Enquanto tinha no coração o
Deus da Eucaristia e abundantes lhe corriam as lágrimas, sentiu-se intimamente unido à
Humanidade santíssima do Verbo e, segundo sua expressão, teve altíssimo e sensível
conhecimento da Divindade, como se a alma se dissolvesse em Deus. Fruiu
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“
maravilhas de
doçura e sublimidade superiores a toda linguagem humana
”
.
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