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Com a alma radiante e transformada, deixa então a solidão daquela cela e se apressa em
apresentar ao prelado as Regras do trovo Instituto.
D. Gattinara, antes de aprová-las, embora nelas reconhecesse as operações do Espírito
Santo, julgou nada dever omitir de quanto exige a prudência em assunto de tamanha
importância. Quis consultar o grande servo de Deus frei Colombano, tão competente em
discernir as verdadeiras inspirações do Alto. Ordenou, pois, a Paulo partisse para Gênova,
distante de Alexandria cerca de quarenta milhas.
Tinha que atravessar os Apeninos, então cobertos de neve. Tão escarpados e perigosos eram
os caminhos, que os mais audazes e experimentados viajantes com dificuldade conseguiam
ver Muitos lá ficavam sepultados sob a neve ou precipitados nos abismos pela
impetuosidade dos ventos.
Fortificado pela obediência, pôs-se Paulo em viagem. Atravessou gelos e neves, descalço e
de cabeça descoberta, revestido apenas da túnica, insuficiente para preservá-lo do rigoroso
frio.
A fim de cumprir quanto antes a vontade do snr. bispo, caminhou dia e noite através dos
penhascos e precipícios daquelas hórridas montanhas.
Ao frio excessivo juntava-se o temor dos lobos, que vagavam em seu derredor. Por defesa
levava apenas o Crucifixo no peito.
Se de manhã, ao nascer do sol, experimentava algum alívio, aumentava-se-lhe o temor
quando via cair do alto das montanhas enormes blocos de gelo.
De repente assaltam-no ladrões, intimando-o a entregar-lhes todo o dinheiro que por ventura
possuísse, sob pena de o assassinarem.
Paulo lhes diz que nada tem, pedindo, de joelhos, lhe conservem a vida. Comovidos pelas
virtudes do peregrino, consentem que prossiga a viagem sem causar-lhe nenhum mal.
Chega, finalmente, ao cimo da montanha, na noite para ele memorável da Epifania, a tiritar
de frio, esgotado, quase desfalecido de fome. Deus, porém, jamais abandona aos que nEle
confiam. Encontrou o servo de Deus alguns policiais, a quem pediu, de joelhos, como
costumava, alguma coisa para comer,
À vista daquele jovem faminto, transido de frio e em atitude tão humilde, moveram-se de
compaixão e lhe deram algum alimento para restaurar as forças. Paulo jamais olvidou esse
benefício, conservando sempre especial afeto pelos soldados. Nas missões,
prodigalizava-lhes todos os cuidados, costumando dizer que fora por eles socorrido nas
maiores necessidades.
No decorrer da viagem não lhe faltaram burlas e insultos. Em Gênova teve que suportar
amaríssimos sarcasmos. Nada respondia, humilhando-se e confundindo-se no intimo do
coração.
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“
Confesso - dirá mais tarde - que aquelas zombarias e irrisões me causavam grande bem à
alma
”
.
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A par de tantos sofrimentos teve a imensa satisfação de rever o antigo diretor. Frei
Colombano, por sua vez, ficou contentíssimo em abraçar o filho em Jesus Cristo, revestido
do santo hábito da Paixão.
Qual o parecer do pe. Colombano acerca das Regras escritas pelo servo de Deus? Nenhum
documento possuímos a respeito; podemos, contudo, afirmar, sem receio de engano, que o
santo e sábio religioso, que tanto batalhara para a fundação do Instituto, reconheceu-as como
inspiradas pelo Espirito Santo, pois, logo após o regresso de Paulo a Alexandria, foram
integralmente aprovadas pelo snr. bispo.
Como o santo prelado de Alexandria e o sábio diretor frei Colombano, admiremos também
os prodígios de graça, de amor e perfeição operados pelo, Altíssimo no solitário de São
Carlos. Oh! quão depressa chega ao cimo da montanha a alma generosa, completamente
abandonada nas mãos de Deus!
Qual a causa de tão rápida ascensão?
E' que Paulo se entregara sem reservas a Jesus Crucificado e, esquecendo-se de si, generosa
e heroicamente se abismara e se perdera no seio da Vontade de Deus.
Estamos apenas nos alicerces do edifício, mas, pela solidez da base, ser-nos-á fácil
conjeturar qual será seu remate ou coroamento.
Não ignoramos o que Nosso Senhor pretende de Paulo da Cruz. Antevemos que será
poderoso contra o mundo, contra o inferno e diante de Deus. Levantar-se-á contra o mundo,
vencerá inferno e arrebatará de Deus seu poder e suas graças. Será, numa palavra, apóstolo,
na viva reprodução de Nosso Senhor Jesus Cristo, único modelo e eterno ideal.
Como Nosso Senhor, à voz do eterno Pai, deixava o deserto, após o retiro de 40 dias, para
dar principio à vida apostólica, também Paulo, à voz do snr. bispo, vai inaugurar um
apostolado cuja fecundidade não terá limites.
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