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Logo que se transferiu para Santo Estêvão, levou ao conhecimento do pároco a ordem do snr.
bispo de explicar o catecismo às crianças e que era seu desejo começá-lo no próximo
domingo.
Sendo tempo de carnaval, julgou melhor o sacerdote que tais instruções tivessem inicio na
quaresma.
Condescendeu docilmente o humilde servo de Deus, mas, ao voltar a Santo Estêvão, ouviu,
na oração, a voz do Senhor a repreendê-lo asperamente. Compreendeu, então, que todo
tempo é propicio para a prática do bem, quando esta é ordenada por Deus.
No domingo, tomou do Crucifixo e percorreu as ruas de Castellazzo, tocando a campainha e
bradando: Ao catecismo, na igreja de São Carlos.
O templo ficou repleto, não somente de crianças, mas também de adultos. Paulo dedicava-se
a esse santo exercício com todo o ardor de seu zelo. Aquelas breves instruções produziram
frutos inesperados, alegrando sobremaneira o coração do snr. bispo.
Aproveitando-se do grande prestigio do catequista, mesmo em sua terra natal, não duvidou o
sábio prelado afastar-se das, regras ordinárias da Igreja, em se tratando do bem das almas.
Ordenou ao religioso, que nem sequer galgara o primeiro degrau da hierarquia sacerdotal,
subisse ao púlpito para expor ao povo as verdades da fé e pregar sobre a Paixão de Nosso
Senhor Jesus Cristo.
Abençoou Deus o agir do prelado, patenteando ter sido por inspiração do Espirito Santo que
ele concedera tal dispensa a quem o Céu cumulara de tantos dons extraordinários.
Terminadas as instruções, inúmeras pessoas acompanhavam Paulo à ermida, não se saciando
de vê-lo e ouvi-lo.
O snr. bispo quis que o servo de Deus pregasse um tríduo solene durante o carnaval. O santo
obedeceu.
Ao cair da tarde, com a Cruz aos ombros, percorria as ruas da cidade, seguido de numeroso
cortejo, entoando cânticos sagrados.
Era o convite para ouvirem a, palavra divina.
Quando subia ao púlpito, a igreja estava repleta.
Ao contemplar o pregador, de habito preto e rosto macilento, mas inflamado de caridade; ao
ouvir-lhe as palavra, por vezes terríveis e por vezes afetuosas, a multidão, comovida,
implorava em altas vozes a misericórdia divina.
O demônio procurou certo dia perturbar o auditório, agitando furiosamente uma mulher
possessa. O servo de Deus descobriu o ardil do espirito infernal, impôs-lhe silêncio e o
demônio calou-se. Todos, atemorizados, começaram a clamar: PERDÃO...
MISERICÓRDIA....E a palavra de Paulo redobrou de eficácia. Os dias de desordens e
pecados transformaram-se em dias de penitência e oração. Não houve danças nem festas nem
quaisquer desses divertimentos perigosos para a virtude. E o que é mais, ninguém manifestou
descontentamento. Apenas um jovem desejou solenizar o casamento com baile público.
Soube-o Paulo e, para impedi-lo, encaminhou-se, com a Cruz alçada, ao lugar da dança.
Ainda lá não chegara e já os convivas, envergonhados e confusos, se dispersavam.
O que, porém, melhor provou a eficácia de suas prédicas foi a reforma dos costumes e as
numerosas confissões.
Basta dizer que os confessores, não podendo suportar tão ingente fadiga, lamentavam-se do
zelo do jovem pregador. Um deles chegou a dizer-lhe:
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“
Que é isto? Não nos deixam tempo
nem para alimentar-nos!
”
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Ao que Paulo replicou docemente:
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“
Que hei de dizer? Estas almas
pertencem a Deus e é Ele que as converte. Nada tenho que ver com isto
”
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Não traziam as mulheres outro adorno senão a modéstia; entravam na igreja decentemente
vestidas e de cabeça coberta.
Para fortalecer no bem aquele povo e garantir-lhe a perseverança, mandou o snr. bispo que o
jovem apóstolo continuasse as pregações durante a quaresma. Aos domingos, deixava Paulo
aos companheiros o encargo de ensinar o catecismo às crianças; em seguida subia ao
púlpito, discorria sobre alguma verdade da fé e terminava com exortação prática,
fundamentada quase sempre na Paixão de Nosso Senhor, esforçando-se por incutir em todos
o ódio ao pecado e o amor à virtude. Várias vezes por semana, de manhã às mulheres e à
noite aos homens, falava, na igreja da ermida, sobre a sacratíssima Paixão de N. S. Jesus
Cristo, ensinando-lhes o método prático de meditá-la. Ao terminar, entoava um cântico
composto por ele mesmo, conforme os diversos passos da Paixão.
Essa quaresma foi, se assim nos podemos exprimir, o remate na renovação espiritual da
cidade.
Tornaram a Deus os corações e reconciliaram-se os mais rancorosos inimigos. Dois nobres
de Castellazzo, ambos de sobrenome Maranzana, nutriam entre si ódio implacável,
escandalizando a população. Párocos, pregadores, religiosos, todos haviam trabalhado em
vão para reconciliá-los. Tal vitória Deus a reservara a Paulo. Ambos foram uma tarde a
Santo Estêvão ouvir o pregador. Paulo Sardi reconheceu a um deles e avisou ao servo de
Deus. Paulo tomou por assunto do sermão a prece de Nosso senhor no alto da Cruz:
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“
Pater
dimitte illis
”
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Meu Pai, perdoa-os. A caridade do Salvador deu-lhe tal força às palavras,
que penetraram naqueles corações empedernidos e deles desterraram todo o rancor.
Terminada a prática, foram à cela do santo, onde, admirados pelo encontro inesperado,
abraçaram-se e se reconciliaram, com imenso júbilo de seus corações.
Paulo exortou-os a se confessarem naquela mesma tarde e, em reparação do escândalo, quis
que comungassem juntos no dia seguinte, na igreja paroquial de São Martinho.
Edificante espetáculo para a cidade! Belo triunfo para o Evangelho!. Aqueles homens, até
então inimigos irreconciliáveis, foram vistos, um ao lado do outro, no Banquete sagrado da
paz e da caridade!
Surgiu, certa feita, açulada disputa entre diversos homens. Temiam-se graves desgraças,
porque a altercação quase chegara a vias de fato. Acorreu Paulo e, pondo-se de joelhos no
meio deles, apresentou-lhes o Crucifixo e pediu se acalmassem por amor de Jesus Cristo.
Cessou imediatamente a contenda e o grupo se dissolveu.
Quantas reconciliações com Deus e com o próximo não obteve o jovem durante aquela
quaresma!
Chegada a semana santa, o compassivo coração de Paulo enterneceu-se mais e mais no amor
a Jesus Crucificado. Comoção extraordinária embargava-lhe a voz; gemidos e soluços
interrompiam-lhe o sermão. Na sexta-feira, pôs aos ombros pesada Cruz e na cabeça uma
coroa de espinhos, os quais a penetravam tanto, que o sangue lhe escorria pelo rosto. Assim
foi visitar o santo sepulcro em todas as igrejas de Castellazzo, renovando aos olhos de todos
a jornada cruenta de Cristo pelas ruas de Jerusalém.
Chegou ao conhecimento das localidades vizinhas o grande bem operado por Paulo em
Castellazzo. Os marqueses Del Pozzo, que já o conheciam e lhe admiravam a virtude,
desejaram que fosse pregar em suas terras de Retorto e Portanova.
Dirigiram-se ao snr. bispo, que de boa vontade anuiu aos anseios daqueles piedosos
senhores, enviando o nosso missionário àquelas paragens, logo depois da Páscoa.
Também lá o povo acorreu em grande multidão para ouvi-lo. Muitos, para assistir os
sermões, tinham que atravessar o Olba. Certo dia, estando o rio a transbordar pelas águas do
degelo, meteu-se em pequena embarcação número excessivo de pessoas.
Apenas se haviam afastado da margem, foram de improviso arrastados pela correnteza.
Estava a barca a soçobrar, quando, em meio da angústia e dos gritos dos passageiros e dos
espectadores, apareceu o servo de Deus. Abençoou com o Crucifixo aqueles infelizes e a
embarcação chegou inesperadamente à outra margem. O acontecimento aumentou a
veneração que lhe tributavam como a santo poderoso, assim em obras como em palavras. E
foram também abundantes os frutos colhidos naquelas missões.
Terminava-as com procissões de penitência, a que tomavam parte pessoas da mais alta
distinção.
A marquesa Del Pozzo acompanhava-as sempre descalça, e o missionário carregava aos
ombros pesada Cruz, que a boa senhora teve a consolação de obter e que ainda hoje se
conserva como preciosa relíquia no castelo dos marqueses Del Pozzo.
Após esta excursão apostólica, voltou Paulo à solidão, para retemperar a alma na prece e na
penitência.
O Tabernáculo e o Calvário eram os mananciais de água viva onde seu coração hauria novo
rigor. Por essa continua união com Deus, pôde suportar constantemente as fadigas do
apostolado e as austeridades do claustro.
Não hesitava, porém, em sacrificar a vida contemplativa, tão doce ao seu coração, quando a
caridade o exigia. Em sabendo que alguém enfermara, apressava-se em ir consolá-lo;
prestava-lhe os mais humildes cuidados e, freqüentemente, ao benzê-lo com o Crucifixo,
obtinha-lhe de Deus a saúde.
Um senhor, por nome José Longo, achava-se em tal estado de debilidade, que não podia
ingerir alimento algum. Foi Paulo visitá-lo e lhe preparou certa bebida, apresentando-a como
excelente remédio. Apenas o enfermo a ingeriu, recuperou as forças e a saúde. Todos
consideraram tal cura como graça obtida pelas orações e méritos do servo de Deus.
Narremos outro ato de virtude, ainda que repugnante à delicadeza no nosso século. Havia em
Castellazzo um homem chamado André Vergetto, que sempre levava à ermida de Santo
Estevão a lenha necessária para o fogo. Sucedeu que o pobre homem se feriu em uma perna e
a chaga se transformou em ulcera gangrenosa. A gratidão levou Paulo à cabeceira do
enfermo. Depois de consolá-lo, quis ver a chaga, que exalava cheiro insuportável. O servo
de Deus não pôde dominar repentino movimento de repugnância, mas, contemplando
naquelas chagas as de Jesus Crucificado, mandou ao enfermo que voltasse o rosto para o
outro lado e... passou a língua na ferida!
Vergetto, que o percebera, comoveu-se deveras. Paulo suplicou-lhe que a ninguém o
dissesse. No dia seguinte o médico, admirado, encontrou aferida cicatrizada. Vergetto,
completamente restabelecido, pôde levantar-se e andar como se nunca estivera doente. Não
soube, todavia, guardar silêncio; publicou por toda parte a cura maravilhosa e foi a Retorto
relatá-la aos marqueses Del Pozzo.
Era a ermida de Santo Estêvão refúgio de quantos necessitassem conselhos e consolação. Lá
ia ter toda classe de pessoas, inclusive eclesiásticos e religiosos. A todos acolhia Paulo com
bondade e delicadeza, como soem fazer os santos. Por vezes convidava-os, com toda
simplicidade, a tomarem alguma coisa. Oferecia-lhes, sem lhes levar em conta a posição
social, suas míseras provisões.
Certa manhã, ao receber a visita da marquesa Del Pozzo, colocou sobre a mesa uma cebola e
algumas folhas de salada, com o pão recebido de esmola. A gentil senhora aceitou a oferta,
julgando-se feliz em sentar-se à mesa da santa pobreza.
Outra feita, enquanto Paulo discorria sobre assuntos espirituais com certo jovem de distinta
família (mais tarde ótimo sacerdote), presenteou-o uma benfeitora com um pãozinho
temperado com azeite e sal. O servo de Deus o recebeu com reconhecimento e o serviu ao
hóspede. Após havê-lo comido, perguntou o jovem se havia alguma coisa para beber. Paulo
sorriu e, apontando para o poço:
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“
Oh! temos aqui uma adega de infindáveis provisões...
”
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Estes fatos podem parecer de somenos importância. E' certo, no entanto, que nos fazem
experimentar grande satisfação pelo encanto da amabilidade, que se não afasta dos santos,
até nos momentos mais graves e penosos da vida.
Por esta época experimentou Paulo a mágoa de ver diminuída a incipiente comunidade.
Paulo Sardi caiu enfermo. Não pôde resistir a vida tão austera e teve que deixar aquele a
quem considerava como pai e por quem sempre nutriu a mais terna veneração. Elevado mais
tarde ao sacerdócio, nomeado cônego da igreja colegial de Alexandria, foi sempre sacerdote
exemplar. Após a morte de Paulo, testemunhou nos processos o que observara na ermida de
Santo Estêvão. Da correspondência do nosso santo com Sardi restam 10 cartas.
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