CAPÍTULO VIII

Setembro a Novembro de 1721


PAULO VAI A ROMA

Deus abençoava a olhos vistos a obra do jovem apóstolo: patenteavam-no os maravilhosos frutos de seu zelo. Contudo, para seu remate e perfeito acabamento, far-se-iam necessários dois lugares: Jerusalém e Roma. Jerusalém, a Paixão de Jesus Cristo!... Roma, a autoridade divina, sem o que toda obra é estéril, morta. Roma comunica ao que lhe pertence o germen fecundo de vida e imortalidade.

Ver Jerusalém, regar com lágrimas a terra banhada pelo Sangue divino, eis o desejo que lhe inspirava a perene contemplação dos sofrimentos do seu Deus. Quão feliz seria se pudesse visitar os Lugares Santos e exclamar: Aqui entrou Jesus em agonia; ali recebeu o ósculo da traição!... Eis o Pretório, onde foi açoitado e coroado de espinhos!... a via dolorosa regada pela sangue do Cordeiro!... o Calvário, onde se levantou a Cruz, junto à qual permaneceu em pé a Mãe das Dores!...

Paulo se persuadira de que no drama do Gólgota o coração se lhe havia de saciar de caridade, e a sede ardente de padecer apagar-se-ia nas FONTES DO SALVADOR.

Uma peregrinação à Terra Santa era, então, coisa dificílima, particularmente para um pobre de Jesus Cristo. O servo de Deus renunciou, pois, a essa aspiração, submetendo-se sem reservas à Vontade do diretor. Deliberou, todavia, ir ao Monte Varallo.

“ Já que me não é dado, escreve ao snr. bispo, ir a Jerusalém, onde sofreu por mim o amabilíssimo Jesus, quisera ao menos visitar o Monte Varallo ” .

Que é que lhe oferecia o Monte Varallo, a ponto de substituir a peregrinação a Jerusalém?

Nos confins do Vale de Sésia, próximo à fronteira suíça, eleva-se graciosa colina rodeada de montanhas, em cujo cimo surge bela igreja consagrada a Maria, onde, em pequena gruta, há um fac-símile do Santo Sepulcro. Na encosta da colina, recamada de verdura e entrecortada de atalhos, edificaram-se trinta e oito capelas, que representam, em ricos baixos-relevos, os mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição do Salvador. São Carlos Borromeu gostava de se retirar nessa solidão do Monte Varallo; lá o acometeu a última doença. Em meio daquelas augustas imagens reina o silêncio profundo dos desertos, interrompido apenas, nas horas de oração, pelos cânticos piedosos dos filhos do seráfico Patriarca, a rivalizarem com a mais bela e imponente natureza, no louvar as maravilhas do Criador.

Lugar algum, exceto Jerusalém, ofereceria atrativos mais em consonância com os sentimentos de Paulo.

Não conseguimos, a pesar nosso, descobrir documentos mais pormenorizados a respeito dessa peregrinação; mas temos coisas bastante importantes a dizer de sua viagem à Cidade Eterna. Esteve são Paulo da Cruz no Monte Varallo? Não há documentos explícitos que o provem. Parece, todavia, que lá esteve.

Impulso superior chamava-o ao centro do catolicismo, ao manancial da fé. Nesse mesmo ano de 1721 fora eleito Sumo Pontífice Inocêncio XIII. Havia muito desejava Paulo lançar-se aos pés do Vigário de Jesus Cristo, de quem uma só palavra era o novo Instituto.

Compreendeu outrossim d. Gattinara que esta viagem era necessária para a grande obra de Deus. Aprovou, pois, o projeto e o abençoou como inspiração do Céu. Deu a Paulo cartas testemunhais, em que, após declarar que o revestira do hábito da Paixão, recomendava-o à caridade de todos. Chamava-o:

“ Jovem adornado de insignes virtudes - PRAECLARIS VIRTUTIBUS CORUSCANTEM ” .

O documento traz a data de 18 de abril de 1721 e é válido para dois meses. A partida ocorreu em princípios de setembro.

Para cumprir a vontade divina, sacrificou o servo de Deus, generosamente, as mais puras afeições: pátria, pais, irmãos, tudo enfim.

Em meio às lágrimas cia família e do povo de Castellazzo, tendo por única provisão a confiança em Nosso Senhor, partiu nosso herói para Gênova. Lá o acolheu nobre e piedoso cavalheiro, dando-lhe hospitalidade e custeando-lhe a viagem. Segundo são Vicente Strambi foi o Marquês Pallavicini.

Enquanto esperava o dia da partida, João Batista, que não podia sofrer a ausência do irmão, veio procura-lo, suplicando-lhe com lágrimas o levasse consigo. Paulo, ignorando ainda os desígnios de Deus, aconselhou-o voltasse à casa paterna.

“ Pois bem, exclamou João Batista por luz profética, pode partir, mas não terá sossego sem seu irmão ” .

E regressou a Castellazzo, enquanto Paulo embarcava para Roma.