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Aos oito de setembro, dia da Natividade da ss. Virgem, cessou de improviso o vento e o
navio se quedou, imóvel, às fraldas de imenso penhasco.
- bradaram os marinheiros. Ao ouvir esse nome, sentiu-se o coração de
Paulo como que ferido, vindo-lhe à lembrança aquelas doces palavras:
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“
Paulo, vem ao
Monte Argentário, onde me acho só...
”
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Estas palavras ele as ouvira tempos atrás, quando
orava ante uma imagem de Maria. Compreendeu também que a calmaria, o parar súbito da
embarcação em frente ao Monte Argentário, não eram simples casualidade, mas um segundo
chamado de Nossa Senhora.
Os marinheiros desceram à praia para colher alguns figos silvestres; o servo de Deus,
porém, ao examinar com atenção a montanha, divisou do lado do meio-dia, a cavaleiro do
mar, várias grutas ou celas semelhantes a colmeias, cavadas na rocha.
Sentiu ali dulcíssima elevação do espírito em Deus, aumento do santo amor e atrativo
inexplicável para aquele ermo.
À tarde, houve algum vento. O navio continuou a rota. Paulo, no entanto, experimentava
sempre grande fervor.
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“
Com aquelas disposições - dirá mais tarde - ter-me-ia aventurado até os confins da terra,
por amor do meu Jesus
”
.
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No dia seguinte, entraram no porto de Civitavecchia, onde foram obrigados, tripulação e
passageiros, à quarentena. Estava o santo desprovido de tudo, mas os oficiais sanitários
davam-lhe diariamente, por compaixão, dois vinténs com que comprava dois pãezinhos.
Empregou o tempo em passar a limpo as Regras compostas no retiro de São Carlos e em
instruir nos rudimentos da fé o pessoal do lazareto.
Terminada a quarentena, tomou o caminho de Roma. A noite, extenuado de cansaço e de
fome, foi ter a um albergue, pedindo por amor de Deus alguma coisa para comer. Um
espanhol, tão pobre como ele, deu-lhe pequena esmola. Ao amanhecer, prosseguiu viagem.
Depois de muito caminhar, avistou a grande cúpula de São Pedro que, longe, parecia
isolada, caiu de joelhos, beijando respeitosamente aquela terra regada pelo sangue do
Príncipe dos Apóstolos e de tantos mártires.
Entrando pela porta Cavalleggeri, maravilhoso quadro se lhe depara ante o olhar: a
esplêndida colunata ao redor da praça de São Pedro; as duas fontes, lançando para o alto
imensos jatos de água; o colossal obelisco a decantar os triunfos da Cruz e o reino imortal
do Cristo; à direita, o VATICANO, palácio mais augusto do mundo; em frente, a
incomparável basílica de São Pedro... todas essas magnificências da fé lhe comoveram
profundamente a alma. Pareciam dizer-lhe: AQUI ESTÁ A COLUNA E O FUNDAMENTO
DA VERDADE.
Absorto nesses grandes pensamentos, foi prostrar-se ante o sepulcro do Príncipe dos
Apóstolos. Enquanto orava, espessas nuvens toldaram-lhe de súbito o Céu da alma:
presságio, sem dúvida, das provações que teria de suportar em Roma. Após longa e penosa
oração, ao percorrer as ruas da cidade pessoas da plebe escarneciam-no por vê-lo descalço
e tão pobremente vestido.
Algumas pessoas caridosas conduziram-no ao magnifico hospital da SS. Trindade, onde a
nobreza romana, assim eclesiástica como secular, se comprazia em prestar os mais humildes
serviços aos pobres e enfermos. Costumava-se ali lavar os pés aos peregrinos. Qual não foi
a surpresa de Paulo, ao ver diante de si um dos mais ilustres cardeais da santa Igreja, o emo.
Tolomei, da Companhia de Jesus, cuja humilde caridade a todos edificava? Vistos de perto,
eis o que são esses Cardeais, descritos pelos nossos livres pensadores como pessoas
opulentas e soberbas. Os príncipes da Igreja lavam os pés dos pobres, pensam as chagas dos
enfermos nos hospitais, respiram o hálito dos empestados e morrem vitimas da caridade,
como não há muito sucedeu ao Cardeal Altieri, em Albano! Pode-se dizer - e nós já o
presenciamos - que a bondade, a simplicidade e a humildade são o apanágio do sagrado
Colégio, assim em Roma como no mundo inteiro. Edificar-nos-emos no decorrer desta
história com exemplos admiráveis.
Na manhã seguinte, ouviu missa, comungou, fez prolongada oração e dirigiu-se ao Palácio
Apostólico, a fim de solicitar audiência do Santo Padre.
Um dos contínuos do Palácio repeliu-o, ao vê-lo tão pobremente vestido e com ares de
mendigo, verberando-o com desdém
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“
Quantos embusteiros aqui chegam diariamente! Retire-se, portanto
”
....
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De igual maneira fora
tratado o humilde são Francisco, quando, pela primeira vez, solicitou audiência de Inocêncio
III. Paulo aceitou a humilhação sem queixar-se, exultando por tratarem-no como julgava
merecer.
Não é em vão que nos diz o Evangelho:
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“
Quem se humilha será exaltado
”
,
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pois no mesmo
teatro dessas humilhações, ve-lo-emos coroado da mais fúlgida glória capaz de aureolar a
fronte de um homem.
Adorando os desígnios da divina Providência, retirou-se Paulo em silêncio. Ao perceber que
as forças o abandonavam, aproximou-se de uma fonte. Enquanto comia um pedaço de pão,
ganho no hospital da SS. Trindade, apresentou-se-lhe um mendigo pedindo esmola. O servo
de Deus repartiu com ele o mísero bocado, dizendo:
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“
Irmão meu, toma a metade deste pão
”
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Ei-lo, pois, por divina disposição, a vagar pela grande cidade, sem obter, apesar das
melhores recomendações do snr. bispo, a audiência do Santo Padre. Ei-lo só, abandonado,
desprezado...
Para consolar-se do mau êxito da viagem, foi à igreja de Santa Maria Maior, orar diante da
imagem da Virgem, na capela Borghese. Essa imagem é atribuída ao pincel de são Lucas. Ali
sentiu renascer-lhe na alma imensa confiança. Mais tarde as esperanças converter-se-iam em
feliz realidade. Emitiu então o voto de propagar a devoção a Jesus Crucificado, distintivo do
seu Instituto. Quando entregava a Congregação ao patrocínio da divina Mãe, ouviu no intimo
da alma a voz de Maria a reiterar-lhe o convite para o Monte Argentário. Oferecia proteção
ao pobre peregrino, de todos desamparado!
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