DIRIGE-SE AO MONTE ARGENTÁRIO

Uma barca estava de partida para Civitavecchia, e o proprietário permitiu, por caridade, que Paulo nela embarcasse.

A modéstia do santo irritou a um passageiro, que devera, pelo estado que abraçara, respeitar a virtude. Chegou a cumulá-lo de injúrias. Paulo tudo suportou em silêncio; condoía-se tão somente do escândalo dado aos marinheiros.

Chegados a Fiumino, passou o santo viajante a outra embarcação, onde foi também objeto de mil ultrajes.

Tudo aceitava como precioso tesouro, julgando-se merecedor de maiores insultos. Desembarcou em Santa Severa e dirigiu-se a pé para Civitavecchia, onde, não encontrando alojamento,. pernoitou sob o pórtico do hospital.

Ao amanhecer, continuou viagem para Corneto. Ali o hospedaram com muita caridade os padres Agostinianos.

A noite seguinte passou-a em Montalto, onde um bom sacerdote o acolheu com carinho. Ao romper da aurora, pôs-se novamente a caminho julgando poder chegar ao Monte Argentário naquele, dia. O terreno a percorrer era imenso areal, árido, abrasado pelo sol, semeado aqui e acolá de alguns arbustos, infestado de répteis venenosos. As águas estagnadas tornavam o ar úmido e malsão. Não havia estrada. Alguns trilhos, que se cruzavam freqüentes vezes, deixavam -o viajante em penosa incerteza.

Caminhou o dia todo, quase em jejum e exausto de cansaço. Para cúmulo de angústia, não experimentava aquela suavidade interior que, em outras ocasiões, lhe tornavam tão agradável o padecer. Apoderaram-se-lhe da alma o tédio e profunda melancolia. As trevas da noite vieram aumentar o horror daquelas paragens inóspitas. Descobriu por fim um casebre de pastor, onde procurou abrigo, deitando-se sobre um punhado de feno; foi-lhe, porém, aquela noite um contínuo martírio A descrição é um tanto dramática; mas lembremo-nos de que se trata do litoral pelos fina de setembro de 1721, tempos em que ainda não se conheciam os benéficos saneamentos dos nossos dias.

Depois de outras provações, chegou, finalmente, a Portércole, lugarejo situado ao sopé do Monte Argentário.

Dirigiu-se à casa do arcipreste, mons. Antônio Serra, que o tratou com muita benevolência e lhe disse que no alto da montanha havia uma ermida, outrora convento dos Agostinianos, sob o titulo da Anunciação... Apressou-se Paulo em galgar aquelas alturas, levando como farnel um pouco de pão, esmola do caridoso sacerdote.

Sigamo-lo e com ele contemplemos o esplendor daquela natureza, que bem se Harmonizava com sua alma austera e sedenta de solidão. Desde agora o Argentário oferecer-nos-á muito interesse. Descrevamos em seus pormenores essa Alvérnia do Patriarca da Paixão.