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E' imenso promontório, que se alarga e se eleva à medida que avança pelo Mediterrâneo. O
mar forma ali bela enseada, onde se encontra o famoso porto de Hércules, donde o nome
italiano Portercole, dominado por um outeiro, em cujo cimo se ergue o forte de Monte
Felipe.
Da banda do mar, reveste-se a montanha de matizado verdor, formado por arbustos, por
cerejeiras marinhas de fruto verme. lho vivo a ressaltar no fundo verde, pela ramagem dos
bosques, pelos tapetes de relva, pelos ramalhetes de mirto com bagas purpúreas, pela
aroeira, pelo alecrim, pela alfazema e outras plantas aromáticas, a recrearem a vista e a
convidar ao gozo dos seus perfumes.
Do lado oposto, o cenário se apresenta mais vago e fugitivo. Das montanhas e colinas
avista-se majestoso lago, separado do mar por estreita faixa de terra. O lago se divide em
duas partes. Numa das extremidades da linha que o recorta, está situada a praça forte de
Orbetello, rodeada de água por todos os lados. A montanha, que banha os pés naquelas
cerúleas ondas, entrecortada por terrenos agrestes onde medram arbustos e árvores, oferece
à vista o encanto de uma variedade deveras pinturesca.
Subitamente, eleva-se o cume em escarpados penhascos ou se espraia em planos suavemente
inclinados, onde, por vezes, o terreno dá lugar a verdejantes campinas e a pequenos
castanheiros. Ali, a duas milhas da costa, não longe de mananciais de águas frescas e
cristalinas, em meio às ruinas de antigo mosteiro, está a humilde ermida da Anunciação,
contígua a pequeno jardim, com um parreiral, donde pendiam alguns cachos de uva quando lá
chegou o servo de Deus.
O encanto da natureza e o profundo silêncio que a domina, alcandoravam-lhe suavemente a
alma na contemplação das divinas belezas do Criador.
Apelidou a esta montanha: MONS SANCTIFICATIONIS, monte da santificação, que
convida as almas a desprender-se da terra e elevar-se para Deus. E bem harmonizava o
nome àquela solidão, pois desde a origem do cristianismo vira florescer à sombra de suas
azinheiras, a prece, o jejum, todas as virtudes, em suma. São Gregório faz menção, em seus
DIÁLOGOS, dos eremitas do Monte Argentário. Refere que um deles, indo a Roma em visita
ao sepulcro de são Pedro, ressuscitou um morto em presença do diácono Quadragésimo.
Monte Argentário era também um dos lugares visitados pela nobre Fabíola em suas santas
peregrinações, quando percorria as ilhas e o mar etrusco, penetrando nas profundas enseadas
das praias mais ocultas, em procura dos cristãos perseguidos para aliviar-lhes a indigência,
como nos refere são Jerônimo.
Paulo estava destinado a continuar naquela montanha o sacrifício de louvor e adoração,
oferecido outrora pelos antigos anacoretas.
Chegado à ermida, lá encontrou somente algumas celazinhas, uma humilde capela e antiga
pintura da Anunciação, toda estragada. A pobreza e o abandono do santuário contribuiram
para torná-lo a seus olhos mais atraente e mais sagrado. A imagem de Maria recordava-lhe
os convites que recebera da divina Mãe para estabelecer-se ali, a fim de fazer-lhe
companhia em sua soledade.
Experimentou por alguns dias doces consolações. Não usufruía, contudo, daquela completa
paz e tranqüilidade que se encontra no perfeito cumprimento dos divinos desígnios.
Recordou-se, então, do que em Gênova lhe dissera João Batista:
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“
Pode partir, mas não terá
sossego sem seu irmão...
”
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Resolveu, pois, ir buscá-lo...
Para assegurar a posse daquela propriedade, foi ter com o snr. bispo de Soana e Pitigliano,
sob cuja dependência estava a igreja da Anunciação.
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