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Que a santa paz de Jesus Cristo, que excede todo o entendimento, guarde os nossos
corações.
Mui queridos irmãos e irmãs em Jesus Cristo: Eu, pobre pecador, Paulo Francisco, vosso
irmão e indigno servo dos pobres de Jesus, vejo-me obrigado, para obedecer às santas
inspirações do Céu, a deixar esta cidade e retirar-me à solidão, a fim de convidar não
somente as criaturas racionais, mas também as que são privadas de razão e entendimento, a
chorarem comigo os meus enormes pecados e cantarem os louvores de Deus, a quem tanto
ofendi.
Antes de partir para aquele santo retiro, creio ser obrigação minha deixar-vos alguns avisos
espirituais, para progredirdes sempre e coro desdobrado fervor no santo amor de Deus.
Em primeiro lugar, observai com grande exatidão a santa lei de Deus.
Tende afeto filial para com este Deus que nos criou e nos remiu; pois é ele digno de todo
amor.
Sabei, meus queridos, que quanto mais ternamente ama o filho a seu pai, mais teme ofendê-lo
e desgostá-lo. Este santo amor será barreira que vos impedirá de cairdes no pecado.
Amai a Deus, amai a este terno Pai, com amor ardente; depositai nEle a mais doce confiança.
Que todas as vossas orações, palavras, suspiros, penas e lágrimas sejam verdadeiro
holocausto oferecido a seu infinito amor. Para manterdes esse santo amor, freqüentai os
sacramentos. Não vos aproximeis do santo altar se não para abrasardes sempre mais a alma
nas labaredas do divino amor.
Ah! meus queridos irmãos, nada vos digo sobre a preparação para a sagrada Comunhão,
porque suponho afareis com toda diligência possível. Lembrai-vos de que se trata do ato
mais sublime que se possa praticar.
Ide freqüentemente à igreja para adorar o ss. Sacramenta e visitai com grande piedade o
altar da ss. Virgem.
Não passeis um dia sem dedicardes meia hora ou, ao menos, quinze minutos à oração mental
sobre a dolorosa Paixão do Salvador. Recordai continuamente as dores do nosso Amor
Crucificado, convencendo-vos de que os maiores santos, que hoje, embriagados, de amor,
triunfam lá no Céu, chegaram à perfeição por esse caminho.
Tende afetuosa devoção às dores de Maria e à sua Imaculada Conceição, ao Anjo da
Guarda, aos vossos santos Padroeiros e, mui particularmente, aos santos Apóstolos.
Recitai amiúde fervorosíssimas orações jaculatórias. Indicar-vos-ei algumas: Oh! Meu
Deus, jamais vos houvesse ofendido! Esperança do meu coração, mil vezes a morte antes que
tornar a pecar. - Oh! meu Jesus, quando vos amarei? - Oh! meu soberano Bem, feri, feri meu
coração com o vosso santo amor! - Oh! meu Deus, quem não vos ama não vos conhece. - Oh!
se todos vos amassem, Amor infinito! - Quando estará minha alma abrasada em vosso santo
amor?
Nas tribulações e nas dores, direis: Cumpra-se a vossa vontade, ó meu Deus! - Benvindas
sejam as aflições! - Queridas penas, eu vos abraço e vos aperto ao coração! - Sois as pedras
preciosas enviadas por Nosso Senhor. - Oh! querida mão do meu Deus, beijo-vos
amorosamente! - Bendito seja o açoite que, com tanto amor, me fere! - Oh! afetuoso Pai, bem
fazeis em humilhar-me!
Podeis recitá-las andando, trabalhando e até em companhia de outras pessoas, porque, se os
homens estão em derredor de vosso corpo, não estão em vossos corações. Com tais
jaculatórias beneficiareis a alma, até em meio das mais graves ocupações.
Lêde diariamente algum livro espiritual e fugi das más companhias, como se foge de satanás.
Obedecei, com a máxima exatidão, aos nossos pais: a obediência é pérola celeste. Foi por
obediência que Jesus imolou sua vida santíssima no madeiro da Cruz.
Compadecei-vos dos pobres. Sede justos para com todos. Pagai sem tardança o que deveis
e, se não o podeis fazer, suplicai humildemente aos credores vos concedam dilação.
Humilhai-vos diante de todos, por amor de Deus.
Suplico-vos, enfim, recordai-vos sempre do santo preceito do amor, último legado de Jesus
aos apóstolos: Dou-vos um mandamento novo e é que vos ameis mutuamente, como eu vos
tenho amado (Jo. 13,34).
Oh! que doce linguagem! Amai-vos, amai-vos mutuamente, meus queridos irmãos e irmãs.
Jamais amareis a Deus, se vos não amardes uns aos outros. Jamais haja discórdia entre vás.
Se por acaso pronunciardes qualquer palavra ofensiva, calai imediatamente para que a
cólera não vos penetre no coração.
Deixo-vos, pois, nas chagas sagradas de Jesus e sob a proteção da Mãe das Dores. Sim, é
onde vos deixo, bem conto a todos os parentes.
Rogo à ss. Virgem inunde vossos corações com suas pungentes lagrimas, imprimindo neles a
lembrança continua da amaríssima Paixão de Jesus e de suas próprias dores. Rogo-lhe
outrossim vos conceda a perseverança no seu santo amor e a força e resignação nos
sofrimentos.
Tende por especial Protetora a Virgem das Dores; jamais abandoneis a meditação dos
padecimentos do Redentor.
Deus, em sua infinita misericórdia, vos cumule a todos de suas santas bênçãos. Rezai por
mim.
Deo gratias et Mariae semper Virgini.
Vosso indigníssimo irmão,
Paulo Francisco, o último dos servos dos Pobres de Jesus
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Que admirável norma de vida cristã!
Observância dos mandamentos, ódio ao pecado, freqüência dos Sacramentos, devoção à
sagrada Eucaristia, à Paixão do Salvador, às dores de Nossa Senhora, aos Anjos e aos
Santos; prática eficaz das orações jaculatórias, visitas ao ss. Sacramento, leitura espiritual, o
amor dos pobres e da justiça.
E tudo coroado pela caridade, perfeição da lei!
Como remate, deixa-os nas chagas adoráveis do Redentor!
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