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Felizes por poderem, enfim, engolfar-se na contemplação de Deus, começaram urna vida
mais angélica que humana.
Diversas horas do dia passavam-nas na pequena igreja, meditando e recitando o divino
oficio. A certa hora dirigiam-se, separadamente, ao bosque. Lá, à sombra das azinheiras ou
no interior de alguma gruta, auxiliados por aquela grandiosa e austera natureza, viviam mais
no céu do que na terra.
Para evitarem vãs e importunas imaginações, conservavam a mente figa na meditação dos
novíssimos, enquanto maceravam a carne com cruentas disciplinas.
Paulo dormia sobre a terra e João sobre uma tábua. Levantavam-se à meia noite para cantar
Matinas, permanecendo em oração até as três horas. Tomavam em seguida breve descanso.
Mas, ao ouvirem o gorgeio do rouxinol a saudar o romper da alva, imaginando que tais
criaturinhas os convidavam para louvar a Deus, levantavam-se e se punham novamente em
oração.
Quando na fortaleza de Monte Felipe ruflavam os tambores, Paulo exclamava
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“
Reflete no que fazem os soldados da terra para defender quatro muralhas... Que não deverás
fazer tu, soldado do Céu, em, favor do reino espiritual de tua alma?....
”
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De tudo se servia para elevar-se a Deus. A natureza toda lhe era verdadeira escola de
virtude.
A sexta-feira, seu alimento eram as lágrimas. Para melhor, unir-se às penas de Jesus
Crucificado, inventara novo instrumento de penitência: uma lâmina de aço, toda eriçada de
agudas pontas. Aplicava-a nas carnes desnudas antes de Matinas e somente a retirava após
as Matinas do dia seguinte.
E todas essas mortificações pareciam pouco aos fervorosos anacoretas! Multiplicavam-nas
ao aproximar-se das grandes solenidades, sempre precedidas de novenas. Celebrada a
Epifania, internavam-se na mais profunda solidão, em memória da estada de Nosso Senhor
no deserto. Aliás, bem pouco falavam entre si, para poderem falar com Deus e ouvir-lhe a
voz.
E qual o alimento dos nossos solitários?
De Pitigliano trouxeram alguns biscoitos e poucos bagos de uva passa, recebidos de esmola.
Alimentavam-se ordinariamente de raízes e ervas silvestres. Provada a constância de seus
cervos, inspirou Deus a uma senhora de Orbetello enviar-lhes algumas favas, aceitas com
reconhecimento. Comiam-nas amolecidas em água, sentados ao pé duma fonte, que vertia
acima da ermida.
Alguns caçadores e carvoeiros, ao ouvirem-lhes os piedosos cânticos e observarem-lhes o
teor de vida, deles falavam naquelas redondezas como de dois santos de extraordinária
austeridade. Desde então, não lhes faltaram benfeitores e as ofertas espontâneas
proporcionaram-lhes o necessário, embora continuassem sempre a alimentar-se de uma sopa
insossa ou de pão e água. Nos dias festivos acrescentavam um pouco de vinho, quase sempre
avinagrado.
Para dizer tudo em poucas palavras, solidão e silencio, penitência e oração, eis a vida
desses atletas de Cristo nas alturas do Argentário.
Lá, a par da própria santificação, aprendiam a sublime arte da santificação do próximo.
A alma abrasada no divino amor rasco bode encarcerar por muito tempo no âmago do peito
as chamas chie a devoram; é mister comunicá-las a outras almas, inflamando outros
corações. Os nossos cenobitas desciam freqüentemente a montanha para levar aos povos
circunvizinhos as graças do Céu.
Aos domingos e dias santos, ia Paulo a Portércole, por caminhos semeados de espinhos e
abrolhos. Terminada a santa missa, com autorização do arcipreste explicava a doutrina cristã
aos fiéis, que em multidão acorriam a ouvi-lo. Antes de concluir, descrevia, todo ternura e
fervor, uma das cenas da Paixão, ensinando a maneira prática de meditá-la.
João Batista exercitava o mesmo apostolado na parte oposta da montanha, em Pôrto Santo
Estêvão, onde havia, desde tempos remotos, uma capela e algumas choupanas de pescadores.
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