ERMIDA DE N. SENHORA DA CADEIA

Chegados a Gaeta, ganharam imediatamente todos os cora.. Bastava vê-los para admirá-los. A realidade superava a fama que os precedia. Aqueles rostos ainda na flor da idade a luzirem modéstia angélica, profunda humildade e amável austeridade; aquela túnica de grosseira lã, o cinto de couro, donde o breviário colocado numa bolsa, o Crucifixo ao peito, descalços... tudo eram práticas de mortificação e desprezo do mundo. Em suas palavras, meigas e fortes a um tempo, havia algo de maravilhoso, que encantava e penetrava os corações, inspirando-lhes o amor à virtude.

Exultava de contentamento o snr. bispo como se encontrara um tesouro. Hospedou-os no palácio. Os dois religiosos ali permaneceram por algum tempo, como se fora no deserto. Após frugal refeição e breve repouso no pavimento desnudo, servindo-lhes o breviário de travesseiro, dirigiam-se à igreja, onde, ajoelhados ante o ss. Sacramento, permaneciam muitas horas na contemplação do infinito amor de Jesus Hóstia.

Tão profunda piedade pasmava de admiração os fiéis.

Mas era a solidão o lugar predileto dos nossos santos, pois desejavam viver ocultos aos olhos do mundo. Obtiveram, finalmente, licença do snr. bispo para retirar-se à ermida de NOSSA SENHORA DA CADEIA, situada em amena colina revestida de oliveiras, junto ao mar, a cerca de dois quilômetros da cidade, ao poente do Promontório de Gaeta. Possuía muitas celas. Assemelhava-se a um mosteiro, com pequena, mas elegante capela, consagrada à Mãe de Deus. Fora outrora habitada por são Nilo e pelos monges basilianos, seus discípulos. Atualmente lá estavam um clérigo e um ermitão, únicos guardiães do santuário.

Ia o prelado visitar seguidamente a Paulo e João Batista, gozando de sua conversação. Para libertá-los das preocupações materiais da vida, encarregou disso ao clérigo Tomás Ricinelli. Os Pobres de Jesus agradeceram de coração tanta bondade, mas não lhe aceitaram os préstimos, exceto quando eram atos de caridade em favor do próximo. Amantes da pobreza, desejavam continuar a viver como pobres.

Praticavam as mesmas austeridades que no monte Argentário. Uma testemunha que os observara de perto, depôs nos processos:

“ Via-os tomarem breve descanso sobre a terra nua, com uma pedra sob a cabeça. O jejum era cotidiano e bastante rigoroso: um pouco de pão e água, com sopa de legumes, e ervas, temperadas sempre com a mortificação, porque, se possuíam azeite, faltava-lhes o sal, se tinham sal, faltava o azeite. Muitas vezes, para maior penitência, misturavam cinza nos alimentos. À noite, não tomavam mais que três onças de pão. Quando abundavam as esmolas, reservavam para si o estritamente necessário, distribuindo o resto aos pobres. Sucedia por vezes nada receberem, passando o dia sem comer. ”

“ Se algum benfeitor lhes oferecia alimentos saborosos, como carne, peixes e coisas que tais, recusavam-nos com delicadeza, dizendo: Isto não é para nós; quando não podiam recusar, davam-nos aos pobres ” .

Certo dia o snr. bispo, para dar trégua a tão rígido jejum, enviou-lhes delicioso pastel. Ao colocarem o guisado na mesa, Paulo exclamou:

“ Reflitamos por alguns instantes e havemos de concluir que não somos dignos deste alimento, porque é muito saboroso e está admiravelmente preparado... ”

Ditas estas palavras, tomou-o respeitosamente nas mãos e o entregou ao pe. Ricinelli, suplicando-lhe o desse de esmola ao primeiro pobre que passasse.

Evidenciou-se nessa ocasião como Deus revelava a Paulo coisas secretas. O sacerdote deu o pastel a um pobre chamado Ângelo que, ao receber manjar tão delicado, julgou se gracejasse com ele e não quis aceitá-lo, enquanto lhe não disseram ser presente de Paulo. Só então se foi alegre, pensando no esplêndido banquete... Porém, olhos invejosos e ávidos seguiam o pobre e o pastel...

“ O pastel inteirinho!... Nem um pedacinho para mim?!... ”

Terrível tentação!... O ermitão Braz meteu-se por atalho, correu e foi esperar o pobre na estrada, obrigando-o a dar-lhe boa parte da iguaria. Comeu-a em segredo, limpou os lábios e voltou sem temor à ermida, certo de que ninguém o observara.

Paulo, no entanto, com o rosto severo, foi-lhe ao encontro e o repreendeu asperamente, por deixar-se vencer por tão vil tentação. Envergonhado, confessou Braz a sua falta. O pasmo foi geral, pois sabiam todos não pudera o santo conhecer o sucedido por luz superior.

“ Na ermida de N. S. da Cadeia ” ,

são palavras da testemunha acima citada,

“ a ocupação dos nossos solitários eram a oração e a leitura espiritual. Faziam-nas num acanhado coro situado acima da porta da Igreja. Pode dizer-se que a oração era continua ” .

Descobrira Paulo pequena gruta em meio dos rochedos à beira-mar. Adornou-a de bela imagem da Virgem, tornando-se-lhe aquele secreto asilo verdadeiro santuário. Lá passava, nas mais doces contemplações divinas, todo o tempo não ocupado em atos de observância, entregando-se a macerações e disciplinas tão cruéis, que a rocha se manchava de sangue.

Por vezes o demônio suscitava-lhe tempestades tão furiosas como as do mar que o santo tinha à vista. Paulo, longe de amedrontar-se, afeiçoava-se sempre mais àquela solidão, abismando a alma no oceano das divinas misericórdias. E Deus, que ordena aos ventos e às ondas, fazia retornar-lhe a paz ao coração.

As austeridades reduziram à extrema fraqueza os dois solitários. Mas na debilidade corporal hauria a alma novas energias; quanto mais penava a natureza mais os inundava de delicias o divino amor.

Acolhiam os visitantes com suma e sincera delicadeza. Só tratavam de assuntos espirituais, levando todos à virtude.

“ Se não nos tornarmos santos com as práticas deste homem de Deus, jamais nos santificaremos ” .