Karol Wojtyla

A DOUTRINA DA FÉ SEGUNDO SÃO JOÃO DA CRUZ

Tese de Doutorado em Teologia orientada por R. Garrigou Lagrange O.P. no Angelicum de Roma

INTRODUÇÃO


1. QUADRO HISTÓRICO E BIBLIOGRÁFICO.

Só de maneira muito geral esboçaremos o quadro histórico e biográfico de São João da Cruz. Existem muitas obras, velhas e novas, que o descrevem com detalhes, como pode-se ver na bibliografia. Um ponto interessa sublinhar aqui, porque concerne diretamente a nosso tema: a influência do contexto histórico-vital na teologia da fé que pretendemos investigar nos escritos do Doutor Místico. Ninguém, com efeito, ignora que esses escritos constituem um muro de contenção e de reação contra algumas correntes errôneas de seu tempo, contra falsas doutrinas e contra perigosas tendências místicas, cujos efeitos perniciosos se projetavam na prática da vida cristã. As marcas dessa firme e essencial reação são percebidas ainda nas páginas de São João da Cruz.

Opôs-se a essas correntes danosas a autoridade eclesiástica; a reação jurídica foi, as vezes, drástica, e bastaria evocar o nome de Melchor Cano para comprová-lo. Opôs-se também a viva verdade, e nesta frente se inserem e destacam os pioneiros da reforma carmelita. E assim vemos como, à maneira de saudável contragolpe, aparece uma fonte de puríssima vida mística e de luminosa doutrina, que não só é dardo contra os iludidos, como também luz que iluminará para sempre a verdadeira Igreja de Cristo.

È óbvio que não podemos nos deter a fazer um estudo detalhado desse quadro histórico, nem ver nele a causa adequada da obra de São João da Cruz; o que ele pretendeu de imediato foi ensinar e só incidentalmente combater os erros. Isso ele nos diz abertamente no prólogo de Subida.

Sem dúvida, o encrave de sua vida e de sua obra no contexto histórico nos ajuda a compreender melhor seu ensinamento, especialmente na questão que elegemos como tema do presente estudo. O Doutor Místico, de fato, reagindo contra as correntes de um misticismo vago e sentimental, ensinou intrepidamente que a fé é o meio próprio para a união da alma com Deus; a fé com todas as suas conseqüências, a fé nua, a fé em austeridade e obediência intelectual. A este propósito diz o Pe. Crisógono de Jesus Sacramentado:

"O meio para reagir contra essas inclinações e doutrinas era glorificar a fé, que se opõe à visão; fazer dela o meio único para alcançar o mais alto grau de união mística; colocá-la sobre toda visão e revelação; excluir da mística a visão facial"[1].

O contexto histórico descobre este aspecto da doutrina sanjoanista como réplica das tendências confusas, que tinham raízes, talvez, nas teorias averroistas e na mística árabe, e que se haviam estimulado mediante a ambígua interpretação de autores espirituais de Flandes e de Rhin, cujas obras foram traduzidas e penetraram fundamente na península Ibérica. A melhor réplica consistia em manifestar a íntima e autêntica veia vital da fé, cuja força saudável e unitiva se encontra glorificada na Sagrada Escritura e se encarna na Igreja, animada pelo Espírito. O humilde solitário de Duruelo foi um instrumento singular de Deus para desmascarar os erros e para iluminar os caminhos espirituais com a luz intensa de um magistério excepcional.

Mas o quadro histórico nos permite descobrir ainda outro aspecto mais amplo e muito mais significativo para o bem da vida da Igreja: estamos na segunda metade do século XVI, nos anos que seguem à grande crise da Reforma, quando serpeavam os erros dos 'renovadores'; estamos, por outro lado, em plena reforma tridentina. Situando a obra de São João da Cruz nessa perspectiva eclesiástica, nesse momento histórico da Igreja, adquire seu profundo valor e seu exato encrave.

Eis aqui como o Pe. Bruno de Jesus Maria julga este aspecto:

"Fr. João luta com o amor, não com o fogo. A raiz do erro de Martin Lutero, nota-se um apetite desordenado pelos gostos sensíveis da graça, uma perversão da mística de Taulero que leva à desesperança de não ser nunca amigo de Deus, a buscar a salvação em uma fé-confiança que salva sem as obras, que vivifica a caridade.

João da Cruz opõe a este cristianismo corrompido a integridade da vida sobrenatural e sua obra suprema de transformação e de união de amor com Deus. Suplica com o exemplo e com a palavra não deter-se nunca no sentido que engana, mas entregar-se à fé pura, a fé viva, formada pela caridade e que opera por ela; a fé, único meio proporcionado à união viva com Deus. O iluminismo herético dos "iluminados", condenado pela primeira vez em 1568, não pode tropeçar com maior adversário que o Doutor dos Mártires, aquele verdadeiro Pobre que se imola obedecendo até a mote de cruz"[2].

Apreciações semelhantes podem ser encontradas em outras obras: verbigracia, na do Pe. Luis da Trindade, que destaca a importância da doutrina de São João da Cruz na história da Igreja, atribuindo a seu ensinamento sobre a fé-meio de união um peculiar valor não só doutrinal, mas também histórico[3]. Pelo valor doutrinal foi considerado digno do título de doutor da Igreja.