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Só de maneira muito geral esboçaremos o quadro histórico e
biográfico de São João da Cruz. Existem muitas obras, velhas e
novas, que o descrevem com detalhes, como pode-se ver na
bibliografia. Um ponto interessa sublinhar aqui, porque concerne
diretamente a nosso tema: a influência do contexto histórico-vital
na teologia da fé que pretendemos investigar nos escritos do Doutor
Místico. Ninguém, com efeito, ignora que esses escritos
constituem um muro de contenção e de reação contra algumas correntes
errôneas de seu tempo, contra falsas doutrinas e contra perigosas
tendências místicas, cujos efeitos perniciosos se projetavam na
prática da vida cristã. As marcas dessa firme e essencial reação
são percebidas ainda nas páginas de São João da Cruz.
Opôs-se a essas correntes danosas a autoridade eclesiástica; a
reação jurídica foi, as vezes, drástica, e bastaria evocar o nome
de Melchor Cano para comprová-lo. Opôs-se também a viva
verdade, e nesta frente se inserem e destacam os pioneiros da reforma
carmelita. E assim vemos como, à maneira de saudável contragolpe,
aparece uma fonte de puríssima vida mística e de luminosa doutrina,
que não só é dardo contra os iludidos, como também luz que
iluminará para sempre a verdadeira Igreja de Cristo.
È óbvio que não podemos nos deter a fazer um estudo detalhado desse
quadro histórico, nem ver nele a causa adequada da obra de São
João da Cruz; o que ele pretendeu de imediato foi ensinar e só
incidentalmente combater os erros. Isso ele nos diz abertamente no
prólogo de Subida.
Sem dúvida, o encrave de sua vida e de sua obra no contexto
histórico nos ajuda a compreender melhor seu ensinamento,
especialmente na questão que elegemos como tema do presente estudo. O
Doutor Místico, de fato, reagindo contra as correntes de um
misticismo vago e sentimental, ensinou intrepidamente que a fé é o
meio próprio para a união da alma com Deus; a fé com todas as suas
conseqüências, a fé nua, a fé em austeridade e obediência
intelectual. A este propósito diz o Pe. Crisógono de Jesus Sacramentado:
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"O meio para reagir contra essas inclinações e doutrinas era
glorificar a fé, que se opõe à visão; fazer dela o meio único
para alcançar o mais alto grau de união mística; colocá-la sobre
toda visão e revelação; excluir da mística a visão facial"[1].
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O contexto histórico descobre este aspecto da doutrina sanjoanista
como réplica das tendências confusas, que tinham raízes, talvez,
nas teorias averroistas e na mística árabe, e que se haviam
estimulado mediante a ambígua interpretação de autores espirituais de
Flandes e de Rhin, cujas obras foram traduzidas e penetraram
fundamente na península Ibérica. A melhor réplica consistia em
manifestar a íntima e autêntica veia vital da fé, cuja força
saudável e unitiva se encontra glorificada na Sagrada Escritura e se
encarna na Igreja, animada pelo Espírito. O humilde solitário de
Duruelo foi um instrumento singular de Deus para desmascarar os erros
e para iluminar os caminhos espirituais com a luz intensa de um
magistério excepcional.
Mas o quadro histórico nos permite descobrir ainda outro aspecto mais
amplo e muito mais significativo para o bem da vida da Igreja: estamos
na segunda metade do século XVI, nos anos que seguem à grande
crise da Reforma, quando serpeavam os erros dos 'renovadores';
estamos, por outro lado, em plena reforma tridentina. Situando a
obra de São João da Cruz nessa perspectiva eclesiástica, nesse
momento histórico da Igreja, adquire seu profundo valor e seu exato
encrave.
Eis aqui como o Pe. Bruno de Jesus Maria julga este aspecto:
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"Fr. João luta com o amor, não com o fogo. A raiz do erro de
Martin Lutero, nota-se um apetite desordenado pelos gostos
sensíveis da graça, uma perversão da mística de Taulero que leva
à desesperança de não ser nunca amigo de Deus, a buscar a
salvação em uma fé-confiança que salva sem as obras, que vivifica
a caridade.
João da Cruz opõe a este cristianismo corrompido a integridade da
vida sobrenatural e sua obra suprema de transformação e de união de
amor com Deus. Suplica com o exemplo e com a palavra não deter-se
nunca no sentido que engana, mas entregar-se à fé pura, a fé
viva, formada pela caridade e que opera por ela; a fé, único meio
proporcionado à união viva com Deus. O iluminismo herético dos
"iluminados", condenado pela primeira vez em 1568, não pode
tropeçar com maior adversário que o Doutor dos Mártires, aquele
verdadeiro Pobre que se imola obedecendo até a mote de cruz"[2].
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Apreciações semelhantes podem ser encontradas em outras obras:
verbigracia, na do Pe. Luis da Trindade, que destaca a
importância da doutrina de São João da Cruz na história da
Igreja, atribuindo a seu ensinamento sobre a fé-meio de união um
peculiar valor não só doutrinal, mas também histórico[3].
Pelo valor doutrinal foi considerado digno do título de doutor da
Igreja.
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