2. A DOUTRINA E AS FONTES.

O Doutor Místico contava, sem dúvida alguma, com uma boa preparação intelectual para a criação de sua obra. Em primeiro lugar, e como fundamento, seus estudos teológicos na Universidade de Salamanca no momento da grande renovação tomista, iniciada nos fins do século XV e levada ao amadurecimento perfeito por Francisco de Vitoria. Fixemo-nos nos anos em que João de São Matías segue ali os cursos de filosofia e teologia: 1564-68. No curso de teologia teve como professor Mancio de Corpus Christi, que explicava a terceira parte da Suma de Santo Tomás.

A marca da teologia escolástica ficou gravada profundamente em São João da Cruz, como o atesta o prólogo ao Cântico Espiritual. Não só aprendeu uma técnica segura[4], mas também lançou em sua mente os alicerces doutrinais - os princípios - que depois desenvolverá em sua obra, aplicando-os ao campo da mística. Daí provem, como adverte D. Chevalier, a radical conformidade de sua doutrina com a do Doutor Angélico.

Além dos estudos de teologia escolástica - que não se há de limitar exclusivamente a Salamanca -, contava também com uma primorosa preparação no campo da literatura mística. Aparecem vestígios em sua obra; por exemplo: do Pseudo-Dionísio, de Santo Agostinho, de São Gregório Magno. A Imitação de Cristo deve ter sido seu livro de cabeceira. E também os autores da escola renano-flamenca, dos quais tomou vários elementos, que logo transformará seu gênio e sua experiência. O Pe. Crisógono os enumera: a doutrina do "toque" e a da "advertência simples e amorosa" se encontram nas obras de Ruysbroeck; a do "fundo da alma" e da fé "nua e simples", o mesmo que a dos "sinais" que indicam a "passagem" da meditação para a contemplação, pode tomá-las de Tauler [5], feita por Surio, e também uma espanhola, publicada em Coimbra, 1551.Igualmente, Ruysbroeck foi traduzido por Surio para o latim, 1552, fazendo-o acessível.

Podemos citar inúmeros outros autores, dos quais recebeu, talvez, menos influência; não consta certamente que tenha lido São Bernardo[6]; talvez Dionisio o Cartuxo, Herp e Gerson, e, mais provavelmente, seus contemporâneos Osuma e Bernardino de Laredo. E não devemos esquecer de Santa Teresa, mãe e filha espiritual do Doutro Místico.

Quanto às citações explícitas ou implícitas desses autores, convém ter em conta o que anota o Pe. Bruno de Jesus Maria, e que tem particular importância na hora de emitir um juízo de valor doutrinal, em especial no tema que é objeto de nossa pesquisa; alude o Pe. Bruno à 'afinidade' e uso dos místicos de Rhin e de Flandes, que é assunto de relevo em São João da Cruz: "Ruysbroeck não distinguiu tão bem como Santo Tomás a ordem sobrenatural da ordem puramente natural. A teologia de São João da Cruz é muito distinta e muito mais fiel a Santo Tomás de Aquino! Não recebeu, através da teoria agostiniana da imagem da Trindade na alma, aquelas influências platônicas que encontramos em Ruybroeck. Segundo ele, para que a alma se una a Deus, não somente deve ser purificada a natureza pela graça, mas também deve estar radicalmente elevada, e a obra da união depende toda inteira das energias essencialmente sobrenaturais da fé viva"[7]. O mesmo autor anota em outra ocasião que Ruysbroeck outorga lugar 'intermediário' na alma para a graça, as virtudes e os dons, porem em São João da Cruz são precisamente esses os meios que integram e realizam a união com Deus. A distinção entre "união sem intermediários" e os "meios de união" coloca imediatamente São João da Cruz na linha própria da teologia de Santo Tomás, aprendida na Universidade de Salamanca. È um ponto que entra plenamente em nossa perspectiva, pois queremos tratar da fé como "meio de união" da alma com Deus.

A parte estas duas fontes, mais extrínsecas, é certo que intervêm outros elementos na arquitetura do sistema místico de São João da Cruz: o estudo da Sagrada Escritura em geral, e especialmente do Evangelho. Quão fundo calou a Bíblia nele, atestam seus escritos. Logo, a experiência. E não nos referimos à experiência alheia, conhecida através dos livros, mas à experiência própria, tanto pessoal como derivada da direção das almas. Tocamos assim um dos aspectos mais típicos de sua obra, que não é um tratado de especulação mística, mas um testemunho: o testemunho da experiência. Diríamos que a teologia o brindou com os princípios e que os autores espirituais lhe ofereceram frases talhadas e matéria literária para construir uma obra nova, original e robusta, baseada na própria experiência. Uma experiência profunda da realidade sobrenatural que se comunica a alma, uma experiência de vital participação na vida íntima da Santíssima Trindade, uma experiência, em fim, da fé como "meio de união" com Deus.

Tendo, pois, tudo isto em vista, colocamo-nos ante um grave problema: eis que se nos apresenta, em forma de testemunho de uma grande vivência mística, a questão teológica da fé como "meio de união". Que é esta realidade sobrenatural tanto em sua condição ontológica - participação do divino - como em seu dinamismo psicológico? De que maneira lança raízes na alma, como age nela, como se realiza essa simbiose de entendimento humano com a luz divina?

Eis aqui o campo que vamos explorar, a pergunta aberta para descobrir o valor vital e experimental de uma categoria teológica. Eis aí o incitante tema de nosso trabalho.