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Temos em mãos as Obras completas do Doutor Místico. Entre elas
se destaca - e aí se vai centrar nosso estudo - a famosa tetralogia:
Subida - Noite Escura - Cântico - Chama.
Não consta com exatidão a data em que estes livros foram
redigidos[8]. Porem é seguro que contêm em seu interior, e de
modo muito explícito, uma rica doutrina sobre a fé como "meio de
união" da alma com Deus. Para a escolha do tema foi determinante a
sondagem desta obra e seu enquadramento no marco histórico. Do que
estamos dizendo se induz já que, para o estudo do tema da fé em São
João da Cruz, partimos do documento-testemunho de sua obra. Um
documento, por outro lado, que reflete a formação
científico-teológica do Doutor Místico; embora seu principal
valor esteja no testemunho da própria experiência, isto não impede
que o expresse magistralmente em uma linguagem escolástico-mística e
use termos e conceitos comuns em teologia. Porem nele se pode captar a
viva e vital realidade da fé, seu dinamismo intra-intelectual, suas
conseqüências e efeitos no caminho da união com Deus. Portanto, a
escolha do tema de nosso estudo recai sobre um testemunho vivo. Em
continuação tratarei de averiguar o que se pode tirar, ao nível de
teologia científica, a respeito do conceito ou noção de fé e que
propriedades e funções tem.
Meu trabalho consistirá, por conseguinte, na análise dos textos, a
fim de estabelecer seu valor formal; isto é, o conteúdo doutrinal
que se aninha neles. Toda a primeira parte é dedicada à análise
textual. E já se prevê que, junto a valiosos descobrimentos,
tropeçaremos também com serias dificuldades. Não me refiro aos
problemas estritamente textuais e críticos - dos quais falaremos
abaixo -, mas à dificuldade proveniente do estilo do texto que é
objeto de nosso estudo.
As obras de São João da Cruz pertencem a um gênero literário
único. Não são tratados especulativos. Têm caráter, como já
observamos, de testemunho experimental e pretendem servir de guia nos
caminhos do espírito. O santo autor, para limpar e iluminar esses
caminhos, utiliza a 'poesia' e o 'comentário'. Para a leitura
das obras de São João da Cruz, Baruzi propõe como chave a
hipótese de que estão estruturadas em torno de um eixo: a
inspiração lírica, da qual parte, animando toda a obra, a linha
estrutural. Sem entrar aqui na discussão baruziana, devemos admitir
ao menos, à vista dos textos, que o elemento poético tem um papel
importante, sobre tudo em Cântico, que é um comentário a um
extenso poema. Ao contrário, em Subida e Noite prevalece o
comentário explicativo do poema, que vem a ser como o germe de ambas
as obras. Por outro lado, o Doutor Místico nem sempre se restringe
exatamente ao poema na exposição. Não englobamos neste juizo
estimativo, é claro, a obra em si, na qual brilha sempre uma
coerência intrépida e incomparável e um desenvolvimento lógico sem
fissuras do alicerce ao acabamento. Incluímos nele unicamente a não
estrita correspondência comentário-poema, a bivalência das estrofes
e, certamente, muitos detalhes lingüísticos. Devemos considerar
que se trata de escritos encaminhados para um fim prático, não para
fim meramente especulativo. Disto resulta que as palavras e as
expressões adquirem em cada instante um sentido concreto, válido para
a finalidade primordial, porem não tão válido para a outra. Por
isso, o primeiro obstáculo que devemos contornar na análise é o de
precisar o sentido exato de uma palavra, de uma idéia ou de uma
expressão no caso concreto e no contexto geral: verificar se é
unívoco ou é diverso. Sob este aro de precisão caem especialmente
os princípios ou axiomas da filosofia e da teologia escolástica,
usados por São João da Cruz: ele os usa no sentido preciso e
conhecido que têm nessa filosofia e nessa teologia, ou em outro muito
peculiar seu? Tropeçaremos durante a análise com este problema.
Por exemplo, quando lemos 'substância', 'essência',
'potência', 'meio' e outros muitos vocábulos técnicos.
Acrescentamos ainda que o Doutor Místico pretende explicar a
experiência mística empregando um método descritivo. Na descrição
abunda o vocabulário escolástico, talvez atribuindo às palavras um
significado com novos matizes.
Portanto, as análises levarão a maior e mais extensa parte de nosso
estudo, detendo-nos algumas vezes e estendendo-nos no exame de uma
palavra ou de uma frase. Só assim será possível chegar à
compreensão total do sistema de São João da Cruz.
Quanto a isto, parece-me oportuno notar que não se pode investigar
sua doutrina sobre a fé vista solitária ou isoladamente.
Entenda-se: não só no sentido de isolar a fé e considera-la
separada - coisa absurda, já que sempre fala da fé viva, que agindo
pela caridade, une a Deus -, mas também no sentido de problema
desengajado de todo o conjunto doutrinal. Há, certamente, ocasiões
em que trata mais ex professo da fé. Porem ainda então não a isola
para submete-la a um exame especulativo. Em geral, o problema vai em
companhia dos demais que surgem em torno da vida mística. Por ele
devemos buscar a noção da fé no conjunto do sistema, sem perder de
vista os complexos elementos que o integram.
Só assim poderemos chegar a uma conclusão, concretizando já a fé,
sua índole e suas funções. Porem não pensemos nem imaginemos que o
Doutor Místico nos vai dar um tratado completamente elaborado sobre
esta virtude, não; ele a aprofunda e descreve principalmente em seu
aspecto unitivo. Aqui alcança uma precisão e uma perfeição
admiráveis. As outras questões que ordinariamente se estudam nos
tratados da fé não as expõe, porque as considera conhecidas ou, no
máximo, fazendo leves indicações.
Tal é, pois, o tema preciso de nosso estudo e tal a intenção e o
método com que vamos elabora-lo. Por aqui veremos também a que
velocidade caminharemos. Será lenta e sucessiva a tarefa analítica,
com a finalidade de fixar primeiramente o valor textual e doutrinal, e
em seguida descobrir o perfil próprio da matéria analisada. A
exploração sucessiva e progressiva nos conduzirá a conclusões
últimas, que irão aflorando no caminho e deveremos ir sublinhando
antes da síntese final. Dedico este trabalho à Bem-aventurada
Virgem Maria, e rogo-lhe o receba benignamente como homenagem
filial.
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