3. TEMA DE ESTUDO. DIFICULDADES E MÉTODO DE TRABALHO.

Temos em mãos as Obras completas do Doutor Místico. Entre elas se destaca - e aí se vai centrar nosso estudo - a famosa tetralogia: Subida - Noite Escura - Cântico - Chama.

Não consta com exatidão a data em que estes livros foram redigidos[8]. Porem é seguro que contêm em seu interior, e de modo muito explícito, uma rica doutrina sobre a fé como "meio de união" da alma com Deus. Para a escolha do tema foi determinante a sondagem desta obra e seu enquadramento no marco histórico. Do que estamos dizendo se induz já que, para o estudo do tema da fé em São João da Cruz, partimos do documento-testemunho de sua obra. Um documento, por outro lado, que reflete a formação científico-teológica do Doutor Místico; embora seu principal valor esteja no testemunho da própria experiência, isto não impede que o expresse magistralmente em uma linguagem escolástico-mística e use termos e conceitos comuns em teologia. Porem nele se pode captar a viva e vital realidade da fé, seu dinamismo intra-intelectual, suas conseqüências e efeitos no caminho da união com Deus. Portanto, a escolha do tema de nosso estudo recai sobre um testemunho vivo. Em continuação tratarei de averiguar o que se pode tirar, ao nível de teologia científica, a respeito do conceito ou noção de fé e que propriedades e funções tem.

Meu trabalho consistirá, por conseguinte, na análise dos textos, a fim de estabelecer seu valor formal; isto é, o conteúdo doutrinal que se aninha neles. Toda a primeira parte é dedicada à análise textual. E já se prevê que, junto a valiosos descobrimentos, tropeçaremos também com serias dificuldades. Não me refiro aos problemas estritamente textuais e críticos - dos quais falaremos abaixo -, mas à dificuldade proveniente do estilo do texto que é objeto de nosso estudo.

As obras de São João da Cruz pertencem a um gênero literário único. Não são tratados especulativos. Têm caráter, como já observamos, de testemunho experimental e pretendem servir de guia nos caminhos do espírito. O santo autor, para limpar e iluminar esses caminhos, utiliza a 'poesia' e o 'comentário'. Para a leitura das obras de São João da Cruz, Baruzi propõe como chave a hipótese de que estão estruturadas em torno de um eixo: a inspiração lírica, da qual parte, animando toda a obra, a linha estrutural. Sem entrar aqui na discussão baruziana, devemos admitir ao menos, à vista dos textos, que o elemento poético tem um papel importante, sobre tudo em Cântico, que é um comentário a um extenso poema. Ao contrário, em Subida e Noite prevalece o comentário explicativo do poema, que vem a ser como o germe de ambas as obras. Por outro lado, o Doutor Místico nem sempre se restringe exatamente ao poema na exposição. Não englobamos neste juizo estimativo, é claro, a obra em si, na qual brilha sempre uma coerência intrépida e incomparável e um desenvolvimento lógico sem fissuras do alicerce ao acabamento. Incluímos nele unicamente a não estrita correspondência comentário-poema, a bivalência das estrofes e, certamente, muitos detalhes lingüísticos. Devemos considerar que se trata de escritos encaminhados para um fim prático, não para fim meramente especulativo. Disto resulta que as palavras e as expressões adquirem em cada instante um sentido concreto, válido para a finalidade primordial, porem não tão válido para a outra. Por isso, o primeiro obstáculo que devemos contornar na análise é o de precisar o sentido exato de uma palavra, de uma idéia ou de uma expressão no caso concreto e no contexto geral: verificar se é unívoco ou é diverso. Sob este aro de precisão caem especialmente os princípios ou axiomas da filosofia e da teologia escolástica, usados por São João da Cruz: ele os usa no sentido preciso e conhecido que têm nessa filosofia e nessa teologia, ou em outro muito peculiar seu? Tropeçaremos durante a análise com este problema. Por exemplo, quando lemos 'substância', 'essência', 'potência', 'meio' e outros muitos vocábulos técnicos.

Acrescentamos ainda que o Doutor Místico pretende explicar a experiência mística empregando um método descritivo. Na descrição abunda o vocabulário escolástico, talvez atribuindo às palavras um significado com novos matizes.

Portanto, as análises levarão a maior e mais extensa parte de nosso estudo, detendo-nos algumas vezes e estendendo-nos no exame de uma palavra ou de uma frase. Só assim será possível chegar à compreensão total do sistema de São João da Cruz.

Quanto a isto, parece-me oportuno notar que não se pode investigar sua doutrina sobre a fé vista solitária ou isoladamente. Entenda-se: não só no sentido de isolar a fé e considera-la separada - coisa absurda, já que sempre fala da fé viva, que agindo pela caridade, une a Deus -, mas também no sentido de problema desengajado de todo o conjunto doutrinal. Há, certamente, ocasiões em que trata mais ex professo da fé. Porem ainda então não a isola para submete-la a um exame especulativo. Em geral, o problema vai em companhia dos demais que surgem em torno da vida mística. Por ele devemos buscar a noção da fé no conjunto do sistema, sem perder de vista os complexos elementos que o integram.

Só assim poderemos chegar a uma conclusão, concretizando já a fé, sua índole e suas funções. Porem não pensemos nem imaginemos que o Doutor Místico nos vai dar um tratado completamente elaborado sobre esta virtude, não; ele a aprofunda e descreve principalmente em seu aspecto unitivo. Aqui alcança uma precisão e uma perfeição admiráveis. As outras questões que ordinariamente se estudam nos tratados da fé não as expõe, porque as considera conhecidas ou, no máximo, fazendo leves indicações.

Tal é, pois, o tema preciso de nosso estudo e tal a intenção e o método com que vamos elabora-lo. Por aqui veremos também a que velocidade caminharemos. Será lenta e sucessiva a tarefa analítica, com a finalidade de fixar primeiramente o valor textual e doutrinal, e em seguida descobrir o perfil próprio da matéria analisada. A exploração sucessiva e progressiva nos conduzirá a conclusões últimas, que irão aflorando no caminho e deveremos ir sublinhando antes da síntese final. Dedico este trabalho à Bem-aventurada Virgem Maria, e rogo-lhe o receba benignamente como homenagem filial.