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Vou usar em meu trabalho a edição crítica das obras de São João
da Cruz, feita pelo Pe. Silverio de Santa Teresa.
Porem convém advertir imediatamente que há muitos anos existe uma
disputa crítica, ainda não terminada, sobre a autenticidade dos
textos sanjoanistas, em especial sobre Cântico. A disputa surgiu a
raiz da edição de Obras completas do Santo, preparada pelo Pe.
Gerardo de San Juan de la Cruz, que apareceu em 1912 e incluiu
um texto de Cântico tomado do manuscrito chamado B. Dom Chevalier
negou a autenticidade sanjoanista do códice B, sustentando que o
único texto autêntico era o de códice A . O texto B é também
conhecido com o nome "códice de Sanlúcar de Barrameda"[9].
A diferença entre um e outro é notável e consiste em várias
considerações; por exemplo: o texto B é mais extenso que o texto
A; neste só há 39 estrofes, enquanto no outro as estrofes são
40, o que obriga a enumeração distinta nas seguintes, etc..
Segundo Dom Chevalier, o texto B não é de São João da Cruz,
mas de algum discípulo seu, que teria manipulado o texto A, isto
é, o único autêntico.
Seguiu esta opinião J. Baruzi em sua grande obra, varias vezes
citada, acrescentando objeções parecidas contra a autenticidade de
Chama B.
Contra as hipóteses de Chevalier e Baruzi reagiram numerosos
carmelitas, especialmente o Pe. Silverio de Santa Teresa e o Pe.
Gabriel de Santa Maria Magdalena, que defendem a autenticidade
sanjoanista de Cântico B. As anotações marginais do códice A
indicam uma reelaboração do texto, que terminará nos fornecendo uma
nova redação: a do Cântico B.
A crítica carmelitana continuou trabalhando em torno da questão,
defendendo sempre a autenticidade do texto B. Na nota bibliográfica
se poderá ver algumas referências a estudos sobre o particular. Mais
recentemente, o Pe. Juan de Jesus Maria tentou resolver em
profundidade e na raiz o problema, a favor da opinião de sua
escola[10].
Do ponto de vista prático, vamos seguir em nosso estudo a solução
que nos parece justa: utilizaremos a edição das obras de São João
da Cruz feita pelo Pe. Silverio de Santa Teresa, que inclui ambos
os textos, o A e o B. Quando for o caso, procuraremos usar só
aquelas passagens que são comuns a uma e a outra redação, e, no
caso de haver alguma variante, a anotaremos expressamente. Deste modo
poderemos estar seguros de refletir o pensamento genuíno do Doutor
Místico.
Falemos também algo sobre a bibliografia. E a primeira coisa é
que, em sua grande maioria, os estudos abrangem a totalidade da obra
de São João da Cruz: em uma visão de conjunto, o tema da fé é
tratado de maneira muito geral. Outra série de estudos aprofundou
especialmente o problema da contemplação e seus derivados: infusa ou
adquirida, índole de uma e outra. Ou seja, o tema da fé é
estudado sob um aspecto particular ou simplesmente é admitida por
hipótese.
Minha intenção é abordar o estudo da fé na obra do Doutor
Místico, procurando fixar seu miolo e seu contorno. Existe uma
monografia sobre o tema concreto, do Pe. Labourdette[11],
porem o que este autor realça é o conhecimento místico. Portanto,
vê a fé em sua dimensão funcional, intervindo na contemplação.
Meu propósito aponta, melhor, à fé em si, ou seja, a sua
dimensão ontológica.
Oxalá que, com a ajuda de Deus, logre meu intento!
Permita-me uma última palavra, uma palavra de gratidão ao Pe.
Reginaldo Garrigou-Lagrange, que dirigiu meus passos com sua
sabedoria e experiência.
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