A SUBIDA DO MONTE CARMELO


1. MEIO DE UNIÃO.

A quem se aprofunda na leitura de Subida buscando o que São João da Cruz diz sobre a fé, talvez o que mais surpreenda à primeira vista seja a reiteração com que a chama 'meio de união' da alma com Deus.

Este modo de definir ou de expressar a função da fé, tão perceptível em Subida, rareia em Noite Escura e desaparece quase completamente em Cântico espiritual e em Chama viva de amor.

Diríamos, observa o Pe. Bruno, que o Doutor Místico quis destacar nas duas primeiras partes de sua tetralogia o sobrenatural criado das virtudes teologais e dos dons, enquanto nas restantes se preocupou em realçar o sobrenatural incriado[12].

Por conseguinte, o fio condutor de Subida é a fé como meio de união, tema que exporá de muitas maneiras.

Para compreender melhor este feito textual, vamos selecionar, entre as numerosas passagens que repetem a mesma idéia, algumas de conteúdo mais significativo:

a) Repete freqüentemente essa idéia com a máxima simplicidade falando da fé: "A fé é meio para unir a alma com Deus".

b) Não é raro tampouco que diga o mesmo com expressões equivalentes, como quando ensina que pela fé a alma se aproxima ou se dirige à união com Deus; "adiantar-se no caminho da união"[13], "encaminhar a alma pela fé à união divina"[14], "caminhar pela fé"[15], "ir" ou "subir pela fé"[16]. O mesmo parece expressar com as palavras que usa atribuindo à fé a função de "guia" para a união[17].

c) Outras vezes esse puro meio - a fé - aparece adornado com algum adjetivo, de valor mais literário e poético que filosófico e exegético. Assim, por exemplo, quando chama à fé "o admirável meio"[18], ou lhe dá qualificativos semelhantes.

d) Maior atenção exigem outras passagens, também abundantes, nas quais a adjetivação de "meio" supõe, na linguagem teológica, em geral, um valor conceitual determinado. Nestes casos é preciso aplicar ao texto em questão um critério exegético. Deste tipo são, entre outros, os textos seguintes:

"Fé é meio próximo para subir à união de Deus"[19]; "a fé é o meio próprio e proporcionado para a união com Deus"[20]; "a fé é o próximo e proporcionado meio ao entendimento para que a alma possa chegar à divina união do amor"[21]; "a fé é o único meio próximo e proporcionado para que a alma se una com Deus"[22]; "a fé é meio próximo para ir adiante"[23], onde, segundo se deduz do contexto, a expressão "adiante" não significa outra coisa senão "à união"; "a fé é meio legítimo e próximo para a união com Deus"[24], onde "meio legítimo", examinando-se atentamente o texto inteiro do capítulo, significa "meio justo".

Enfim, ainda achamos outra expressão deste tipo, única e isolada, em Noite escura: "Caminhar em obscura e pura fé, que é meio próprio e adequado pelo qual a alma se une com Deus"[25].

Trata-se, certamente, de qualificações usuais na filosofia escolástica. Porem por essa mesma razão, antes de asseverar ou estabelecer algo a priori, devemos averiguar seu sentido exato em cada caso. Por este caminho será possível saber como o Doutor Místico utiliza a terminologia escolástica e como em sua obra se entrelaçam elementos filosóficos com elementos descritivos e poéticos com a finalidade de nos mostrar, de modo muito sugestivo, os efeitos da profunda experiência mística.

Digamos, pois, de imediato: nas últimas passagens que citamos, os adjetivos não desempenham um mero papel de ornamento literário, mas servem para determinar melhor a função da fé como meio de união do entendimento com Deus. Assim, pois, o alcance destes adjetivos, tal como se depreende da leitura dos textos, nos brinda um primeiro rastro luminoso para penetrar na natureza íntima da fé. Mas, por outro lado, esses textos não manifestam sempre a razão suficiente de porque se dá à fé um qualificativo aqui, e ali outro. Evidentemente, o Doutor Místico não destinou seus escritos às pesquisas dos investigadores, e menos ainda aos doutores ou aos estudiosos críticos; destinou-os principalmente às almas contemplativas, com o fim de encaminha-las à união com Deus, como se pode ver no prólogo a Subida. Se, portanto, tivéssemos que escolher algum texto chave para nossas pesquisas, nos fixaríamos em Subida II 8. E não em vão, já que ele nos remete ao coração de nosso tema. Na realidade, nos capítulos 8 e 9 de Subida II, que expõem uma doutrina positiva da fé, vê-se manar um princípio cujo raio de ação abarcará todo o sistema sanjoanista. De modo análogo, no mesmo lugar aparece indicada com exemplos, e em continuação teologicamente explicada, a noção de "meio":

"É conhecido que, segundo as regras da filosofia, todos os meios devem ser proporcionados ao fim e devem ter alguma conveniência e semelhança com o fim, de modo que bastem e sejam suficientes para que por eles se possa conseguir o fim que se pretende"[26].

Temos neste texto algo de definição: o meio proporcionado deve possuir todas aquelas qualidades que se requer para conseguir o fim ou faça possível quem tende a ele alcança-lo. Pois bem, não se trata de qualidades quaisquer cuja propriedade essencial, determinada pelo fim mesmo, consiste em fazer o meio ser 'proporcionado', 'acomodado'. Neste sentido, lemos no mesmo capítulo: "meio proporcionado" para obter o fim[27]; "para que por eles se possa conseguir o fim" devem ser suficientes; "tal que baste e seja suficiente".

Portanto é obvio que as exigências do fim, tomado objetivamente, se impõem a tal meio e este fica determinado por elas.

E já que as referidas qualidades são designadas como "conveniência e semelhança com o fim", é necessário averiguar sua razão última de ser, prosseguindo a análise do texto até que vejamos claramente quais constituem esse meio de união com Deus.

Os exemplos, sem dúvida, apresentados até agora, nem sempre incluem com precisão todas as qualidades resenhadas. Isto é evidente sobretudo no primeiro exemplo: quem deseja ir a uma cidade determinada deve caminhar por tal via, e não outra; ou seja, por aquela que leva a essa cidade.

Certamente, podemos encontrar neste exemplo a razão de certa "conveniência" ou proporção entre meio-via e fim-cidade; porém em que sentido a razão de "semelhança"?

O outro exemplo evidencia melhor todos os requisitos. Trata-se de um exemplo clássico: "Para se juntar e unir o fogo com a madeira para queima-la, é necessário que o calor, que é o meio, disponha a madeira primeiro com tantos graus de calor, que tenha grande semelhança e proporção com o fogo".

Portanto, a transformação da madeira em fogo é obtida mediante o calor, já que este, por sua propriedade essencial, dispõe a madeira para que tome forma de fogo. Porem isto não ocorre se o calor não alcança determinado grau; de forma que seja capaz de transformar a madeira em brasa.

Vemos otimamente neste exemplo a razão de proporção, e também a razão de semelhança.

Que tiramos, claramente, destes exemplos sobre o meio proporcionado?

Quando o Doutor Místico fala do "meio", parece que está intuindo uma realidade; mais ainda, sua natureza em relação ao fim, e se pergunta sobre as qualidades dessa realidade, e postula para ela tal índole, que a faça intrinsecamente proporcionada à obtenção do fim.

De tudo isso pode-se induzir a seguinte conclusão: chama-se meio proporcionado o que, por sua própria natureza, é suficiente para conseguir o fim. Isto é, com efeito, o que o define: o que lhe é próprio e tem dentro - quod est in re-, como o rumo no caminho e o poder esquentar e queimar no fogo, para a consecução do fim.

Só o "meio proporcionado" goza deste privilégio, que é o que explica plenamente sua razão de ser. O resto dos adjetivos, não.

Sem dúvida, o Doutor Místico os usa de maneira substitutiva algumas vezes e de maneira completiva outras. Assim, por exemplo, no mesmo texto de Subida II 8, um pouco mais abaixo, emprega a expressão "meio próprio" para dizer o mesmo, ou seja, a força inata do calor para transformar a madeira em fogo.

Atendo-nos às palavras, não é a mesma coisa dizer "meio próprio" ou "meio proporcionado", já que o primeiro significa que, entre muitos outros incapazes de conduzir ao fim, só ele é capaz; o segundo acrescenta e nos esclarece o motivo pelo qual é único: a proporção.

Isto é o que se depreende da análise do texto sanjoanista. Sem dúvida trata-se em ambos os casos de expressar coisas muito parecidas. E, além disso, o Doutor Místico não manifesta a menor preocupação por ulteriores distinções. Basta, pois, também para nós.

Algo parecido sucede em Subida II 24,8, onde encontramos "meio próximo": envolve as mesmas condições que o "meio proporcionado", expressão usada em Subida II 8; a saber, a razão de "proporção e conveniência", que o fazem apto e útil para conseguir o fim. Em Noite II 2 aparece a expressão "meio adequado"; porem nem a fórmula nem o contexto em que está encravado acrescentam nada especial ao que já sabemos. Trata-se, a nosso parecer, de uma expressão que pertence à mesma família que as anteriores, e a usa para dizer o mesmo.

Encontramos ainda outra fórmula: "meio legítimo". Talvez estejamos diante de um novo matiz. O contexto em que se acha - Subida II 30,5 - sublinha com traço mais forte a oposição deste meio para a união com Deus, se justa e adequadamente desfruta de tal título, e as "palavras interiores", com as quais o compara, que, sem nenhuma força inata, pretendem função análoga. O Doutor Místico precisa que a 'habilidade' das "palavras interiores" para essa função deve ser examinada a fundo e deve contrastar com os problemas que derivam e transparecem pelos efeitos, para que, finalmente, se possa separar bem o que é apto e o que é inepto; e, uma vez feita a separação, veremos que são muito insuficientes e muito inferiores ao meio legítimo e próximo, que é a fé.

Do exposto anteriormente, concluímos, portanto, que as adjetivações que nos textos do Doutor Místico acompanham "meio" têm forte sabor de linguagem escolástica e em geral tentam perfilar a mesma idéia . Alem disso, a análise separada de cada caso não apresenta resultados reveladores. No texto sanjoanista aparecem os adjetivos ligados ao substantivo fé. Posteriormente, é neste contexto ideológico que devem ser examinados para que evidenciem seu sentido pleno e cabal.

As análises prévias servem, sobretudo, para não atribuirmos a elas, a priori , mais do que significam; e, por sua vez, essas análises nos aproximam de um estabelecimento mais próximo da questão fundamental; permitem-nos ver, efetivamente, que a fé, enquanto meio de união, deve estar dotada de algumas qualidades que proporcionem suficientemente a ela a condução ao fim. Estas qualidades devem ser tão peculiares suas como o são o rumo ao caminho, e o calor ao fogo.

Temos, portanto, isolado um primeiro elemento para definir a natureza da fé segundo o pensamento sanjoanista.