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A palavra "noite" é típica de São João da Cruz e se acha a
cada passo em seus escritos. É o que dá a sua doutrina essa tinta de
'noturno', em contraposição ao matiz 'solar' da doutrina
agostiniana. A origem de 'noite' remonta certamente ao
Pseudo-Dionísio. Por outro lado, o sentido desta palavra não é
único nem sempre o mesmo nas obras do Doutor Místico. Portanto,
se adquire sentidos diversos em lugares diferentes, devemos nos ater ao
sentido próprio em cada caso.
Achamos o termo "noite" já nas primeiras páginas de Subida, onde
o santo Doutor, consciente da importância deste símbolo, tenta
explica-lo expressamente. Diz em Subida I 3,1:
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"Chamamos aqui noite à privação do gosto no apetite de todas as coisas".
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Parece, pois, que "noite" é tomada aqui numa acepção geral,
equivalente à privação do gosto próprio do apetite. Sem dúvida,
São João da Cruz distingue logo bem as coisas apetecíveis e a
"noite", especificando-a algumas vezes ao referi-la a privações
particulares.
O motivo de usar o termo "noite" está em que assim como a noite
designa uma privação da luz em que se vê os objetos, assim também
aqui o emprega metaforicamente para expressar uma privação de luz
psicológica, pela qual os objetos naturais apetecíveis 'reluzem' ao
apetite, estimulando-o a desfruta-los:
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"Pode-se chamar noite para a alma à mortificação do apetite,
porque, privando-se a alma do gosto do apetite por todas as coisas,
torna-se como obscura e sem nada".
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Aparece aqui, junto a 'noite', a noção de mortificação, que
depois, ao final de Subida I 13, despontará definitivamente como
uma das pedras angulares de seu formoso sistema. Porém não confunde
'noite' totalmente com 'mortificação'; apenas põe em relevo o
vazio da potência, que, enquanto privada de seu objeto conatural, se
torna sem luz própria na obscuridade.
Tal é o conceito de 'noite', fundamental na doutrina do Doutor
Místico; um conceito, como dissemos, psicológico, pois sugere ou
se refere à potência privada de seu objeto.
São João da Cruz não deixou de antecipar-nos que os objetos
apetecíveis se apresentam às potências naturais através dos
sentidos, no estado de união da alma com o corpo. Portanto, de modo
natural. Porém ao mesmo tempo se pergunta se a alma não pode
renunciar completamente à percepção das coisas através dos
sentidos. Pela resposta dada nesta ocasião, observa-se que a
'noite' sanjoanista pertence a área do "querer". Isto é, da
vontade.
Não se trata, portanto, do contato dos sentidos com o objeto
próprio, mas unicamente do afeto ou adesão da vontade às coisas,
'boas' em si. A 'noite' se opõe a esta atividade
apetito-volitiva, intimando-a ou saciando-a; isto afirma o Doutor
Místico claramente:
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"porque não ocupam a alma as coisas deste
mundo, nem a danificam, pois não entram nela, senão a vontade e
apetite delas, que moram nela".
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Das palavras citadas podemos concluir em que linha conceitual se situa
a 'noite'. Não se trata, evidentemente, de privar os sentidos de
seu ato natural, mas de estabelecer uma relação de domínio da
vontade sobre as criaturas. A 'noite' se opõe, portanto, ao
apetite intencional, e, sob esta modalidade, não são os sentidos,
mas a vontade que deve despojar-se e se tornar vazia. Em "noite".
Já se antevê nesta explicação que a 'noite' é a base filosófica
da doutrina da união. O assunto é tratado em Subida I 4. Porém
antes de expo-lo devemos observar que, para São João da Cruz, as
criaturas são, em relação a Deus, puro nada. Achamos assim um
novo vestígio conceitual de "noite" ou, pelo menos, da 'doutrina
noturna', que não se opõe, antes reforça a acepção precedente.
Afirma o santo Doutor, e o repete de diversas maneiras ao longo de
Subida I 4, que a criatura, comparada com Deus, não possui nem
bondade, nem beleza, nem se quer ser; antes, pelo contrário, é
má, feia, quase nada, e outras coisas semelhantes.
De onde procedem tamanhas afirmações? Empregam-se no texto em
relação à união com Deus. Porém já conhecemos por Subida II
8 este modo de falar e outros parecidos, que provêm de excluir
"semelhança essencial" entre Deus e as criaturas. Portanto, não
podem servir de meio de união [35]. Falando com precisão mais
objetiva: por lhes faltar semelhança proporcional a Deus.
Aqui, em Subida I 4, realça mais a razão subjetiva; a saber,
que a alma revestida das criaturas - revestida efetivamente delas,
aderindo-se voluntariamente a elas -, não pode chegar à união com Deus.
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"Todas as afeições existentes nas criaturas são, diante de Deus,
puras trevas, das quais, estando a alma revestida, não tem
capacidade para ser ilustrada e possuída pela pura e simples luz de
Deus se antes não as afastar de si".
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Poderíamos perguntar a seguir: Por que? E o Doutor Místico
responderia imediatamente:
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"Porque dois contrários, segundo nos ensina a filosofia, não podem
subsistir em um sujeito".
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Deste principio se deduz que tampouco subsistem a afeição às
criaturas e a união com Deus. É impossível que ambas coexistam
[36].
A posterior resposta nos serve de bandeja a razão própria da
exclusividade. É algo subjacente no constitutivo da união, que é o
amor. Com efeito, o amor faz iguais e semelhantes o amante e o
amado. Quando se trata, por conseguinte, da união de semelhança,
no modo de Subida II 5,3, não deve haver mais que amor, que é
a virtude unitiva. Por isso, quando a alma ama as criaturas, pela
força mesma desse amor se torna igual a elas; e não só isso, mas
também prisioneira. E com tal sujeição e semelhança fica presa e
forçada e incapaz de evadir-se e de unir-se a Deus: "incapaz da
pura união com Deus e sua transformação". É preciso, pois, que
a vontade se liberte do amor ou adesão às criaturas e ponha toda sua
alma em outro objeto e se abra a outro amor. A este desprender-se ou
privar-se o apetite volitivo das criaturas de dentro de si se chama
também "noite".
O texto de Subida I 4 sublinha com traços fortes duas coisas:
1. A índole fundamental e a força subjugadora do amor, e,
portanto, o papel decisivo da vontade na união, tal como São João
da Cruz o concebe. Esse caráter e esse ímpeto são inerentes à
própria natureza do amor, enquanto causa semelhança e sujeição do
amante ao amado; falando-se de união de semelhança, tem
forçosamente que ser unitivo; e ademais, por habitar na vontade,
entrega todo o homem interior à coisa amada.
Estas reflexões fazem mais patente o que o Doutor Místico refere
repetidamente: a união consiste na total conformação ou, melhor
ainda, na transformação da vontade da alma na vontade divina, sem
restar nela nenhuma coisa terrena. Em tudo e acima de tudo, a vontade
humana está cheia somente da vontade divina. O texto de Subida I
11 e igualmente o de Subida II 5 são bem explícitos a respeito.
2. Do que antecede deriva, logicamente, a razão justificativa da
"noite". Se excluirmos da potência apetitiva - ou seja, da
vontade - a coexistência de duas formas contrárias simultaneamente
possuídas por amor, não haverá mais outro jeito senão admitir que
para que se interiorize a forma divina (participada progressivamente
pelo amor, o que segue necessariamente a união de semelhança) é
preciso expulsar ou não deixar entrar a outra forma, coisa que se
obtém pela negação ou abnegação da vontade em relação aos objetos
que são percebidos naturalmente pelos sentidos. A esta privação é
que chama "noite", e que define em Subida I 3,1.
Em seguida observamos a linha que o Doutor Místico segue em toda sua
tetralogia para expor sua doutrina sobre a união da alma com Deus:
'vontade - amor - noite' são pontos essenciais e de referência
luminosa.
Por outro lado, a razão de ser da "noite" não consiste só no que
afirma em Subida I 3,1; tem-se que levar também em conta as
posteriores adições e explicações. A fé ocupa um lugar decisivo
nessa noção de "noite", segundo exporá o Doutor Místico a
seguir. Até aqui havia insistido na equivalência conceitual 'noite
- mortificação'; isto é, na noção de "noite" como privação
do apetite em relação a seu objeto conatural. A seguir, sem negar o
anterior, examina a "noite" sob o aspecto positivo de via de união
da alma com Deus e ainda como condição necessária em todo o
caminho.
Tal conceito de "noite" aparece pela primeira vez em Subida I 2:
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"chama-se noite este trânsito que faz a alma para a união com Deus".
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E isto por três razões:
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- Primeira, quanto ao ponto de partida (terminus a quo). Já o
conhecemos: a alma não é naturalmente capaz de fazer nada sem a ajuda
dos sentidos; é como "tábua rasa e lisa em que nada está pintado;
e se não vai conhecendo pelos sentidos, por outro forma,
naturalmente, não se lhe comunica nada". Pois bem, para
projetar-se à união com Deus deve negar ou, melhor, abnegar as
coisas para as quais tem inclinação, e que naturalmente, através
dos sentidos, a informam e preenchem. Este é o término de partida
- terminus a quo -, a primeira 'noite', que já conhecemos como
"negação e carência [...] como noite para todos os sentidos do
homem".
- A segunda causa para que a via de união se chame justamente noite,
ou melhor, a segunda parte da noite, já que não há solução de
continuidade, é tomada do meio de união, que abrange todo o
trajeto: este meio é a fé, da qual o doutor Místico se apressa a
dizer: "é também obscura ao entendimento como noite".
- A terceira razão para chama-la noite diz respeito à meta a que
aponta. terminus ad quem, que é Deus, "o qual, nem mais nem
menos, é noite obscura para a alma nesta vida".
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Devemos estabelecer um nexo especial entre a segunda e a terceira
causas. Em primeiro lugar, a segunda noite, que é considerada meio
para percorrer o caminho, não contém a razão de meio de modo total
ou exclusivo. O Doutor Místico o precisa: "não como excluindo a
caridade", mas em um sentido particular, isto é, com relação ao
entendimento, para o qual é, simultaneamente, meio de união e
noite. Encontramo-nos assim ante outro aspecto da noite. O meio
próprio e necessário para a união é o amor, como nos mostra a
análise anterior. A fé é meio particular, que dá um matiz
especial a todo o caminho de união. Sua peculiaridade, inerente a
sua índole intelectual - segundo nos diz a epígrafe de Subida II
9 -, consiste em apresentar Deus, término final ou 'ad quem' da
união, envolto em total obscuridade.
Note-se bem a dinâmica diferente da primeira e da segunda etapa da
noite: na primeira, abnegação ou distanciamento das criaturas; na
segunda, aproximação de Deus, que se entronca com a terceira fase:
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"Deus, o qual, mediante a segunda noite, que é fé, se vai
comunicando à alma tão secreta e intimamente, que é outra noite para
a alma".
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Que quer dizer? Pois o mesmo que o texto de Subida II 9, que já
conhecemos, embora agora o expresse com outras palavras: na fé,
Deus permanece escondido e comunicando-se à alma. Porque na fé se
verifica uma adesão ou união do entendimento com Deus, ainda que em
total obscuridade. Por conseguinte, a fé é um verdadeiro meio de
união; Deus se comunica com a alma na fé, retendo esta a razão
própria de "noite", enquanto essa comunicação da alma com Deus
comporta, por ser em fé, obscuridade. E nesta dupla perspectiva se
estende a fé a todo o caminho de união, o invade todo, e lhe imprime
seu próprio caráter de "noite". Evidentemente, estamos aqui ante
uma razão de "noite" diferente da primeira. A primeira significa e
implica a privação ou negação do apetite em relação aos objetos
sensíveis e a segunda já supõe certa aproximação ou comunicação
unitiva com Deus, ainda que de uma maneira obscura, saltando à vista
a diferença. Este modo relativo de união que se dá na segunda faz
ainda mais intensa a "noite" a quem já se privou das criaturas por
Deus. Por isso, a fé é noite profundíssima, é a meia noite, na
qual Deus se comunica à alma, arrancada das criaturas, em total
obscuridade.
Que resultados nos oferece esta análise? Coloca-nos ante alguns
elementos novos para elaborar a síntese da fé?
Certamente. Em primeiro lugar, nos esclarece a noção de
"noite", palavra que com tanta freqüência encontramos nos escritos
de São João da Cruz. Em segundo lugar, nos indica como a fé
pertence de maneira medular à dinâmica da "noite".
Por outro lado, já que todo o tema da união com Deus - para a qual
a fé é meio, segundo afirmamos repetidamente - está vinculado ao
tema das "noites", segue-se também que a partir destes ângulos
conceituais é possível ver com maior exatidão a fé.
Consta que São João da Cruz concebe a união de semelhança como
uma informação intencional, à maneira que a vontade possui os
objetos que ama. E consta também como, e em que sentido, tendo
presente a índole da potência e de sua operação própria - o amor
-, se lhe assemelha a vontade e se transforma. A transformação de
que tratamos aqui não é outra coisa senão a total adesão da vontade
ao que ama, já que o impulso inato do amor arrasta a potência ao
amado e se funde nele de um modo exclusivo. Tal é a força do amor,
que devemos atribuir-lhe a função de unir e a mesma união
psicológica como propriedades. Daí que quase todo o primeiro livro
de Subida esteja dedicado à consideração do amor, que a alma dedica
às criaturas mediante os apetites naturais. Se a alma se deixar levar
pela tendência natural apetitiva, então se assemelhará às
criaturas, se empanturrará delas, será sua prisioneira, perdendo
assim superioridade e asas para o vôo alto. Precisamente a
superioridade da alma em relação às criaturas consiste na capacidade
para ser iluminada pela luz divina e informada pela Divindade por meio
da graça e, finalmente, partícipe da união transformadora pelo amor
sobrenatural.
Em outras palavras: a alma é capaz de passar das realidades criadas
à realidade divina. Porém não se dá o trânsito sem uma dupla
noite: a noite da privação ou renúncia das criaturas, que contínua
e naturalmente solicitam o apetite, e a noite de união com Deus, que
se comunica à alma em fé, sem nenhuma claridade que satisfaça
naturalmente à potência cognitiva, antes em completa obscuridade.
Da análise anterior resultam duas coisas:
1. A proporção entre amor e fé no caminho da união. Chamamos à
fé meio de união. Na maioria das vezes lhe aplicamos esta idéia,
que é a mais corrente e da qual partimos em nossa reflexão. Porém
chama-se também amor. Em sentido distinto em cada caso: o amor
produz a união de semelhança por seu caráter e por seu impulso
psicológico, e por esse caráter e por essa índole é capaz de levar
ao vértice da semelhança e da união, que é o que se designa com o
nome de transformação. A fé, ao contrário, produz união,
segundo Subida I 2 e II 8-9, ao apresentar a Divindade ao
entendimento e unir esta potência com ela. Como se observa em Subida
II 3, a índole e a capacidade psicológica da fé são, de seu,
muito débeis e insuficientes para lograr tal elevação. O
entendimento não se molda e abre pela fé à transformação divina
como a vontade pelo amor; nele atua a forma divina só de maneira
obscura e tenebrosa, não como as formas criadas captadas pelos
sentidos. Nisto consiste precisamente a noite de fé: na informação
do entendimento pela divindade, que permanece, enquanto tal,
inacessível, sem claridade para o entendimento.
Esta noite da fé abrange toda a via de união. E, por isso, todo o
caminho de união está coberto de trevas e se chama noite, segundo
Subida I 2. A Divindade entra e mora pela fé, sem produzir
claridade no entendimento. A obscuridade pertence à índole
psicológica do hábito da fé. Deve-se ter em conta aqui o processo
da revelação, no qual Deus atua decisivamente propondo as verdades
'reveladas' ou de fé e movendo a recebê-las.
Não obstante, a obscuridade essencial da fé no modo de união não
implica que a fé seja imperfeita quanto ao fato de união. Mais
ainda: insinua-se que a Divindade comunicada à alma é, em certo
sentido, a própria fé, revestida de sua obscuridade típica.
Tudo isto sugere que na fé essencial, a qual chamamos meio de
união, se dá uma identidade participada com Deus no plano da
informação intencional do entendimento. Por esta informação do
entendimento, não obstante a obscuridade, se comunica à alma e à
vontade como princípio de transformação amorosa. Inclusive por essa
mesma obscuridade proporciona à união um matiz especial nesta vida,
já que Deus,
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"mediante a segunda noite, que é fé, se vai comunicando à alma
tão secreta e intimamente, que é outra noite para a alma".
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Conclusão: se o amor faz com que a alma se transforme em Deus por
participação, a fé faz com que Deus, a que se assemelha, embora a
semelhança não se dê em claridade, mas em obscuridade intelectual,
seja o princípio da informação, da assimilação e da união.
2. À fé , que aplana o caminho para a alma transitar à união com
Deus, deve-se também que o caminho seja obscuro e tenebroso como
noite. Pela fé, o entendimento se une á Divindade, e nesta união
essencial se fundamenta todo o processo dinâmico da união, toda a
progressiva transformação sobrenatural da alma até chegar ao mais
alto grau que é possível nesta vida.
Continuando, tenta o Doutor Místico iniciar aos leitores nessa
via, assinalando cuidadosamente suas etapas. O trajeto compreende
quatro partes, que coletivamente se chamam "noite": duas ativas, de
que trata Subida, e duas passivas, que explica em Noite escura.
O esquema resulta extremamente simples. Porém aguarda-nos uma
tarefa mais complicada: investigar sua doutrina sobre a fé na linha do
que diz a propósito das noites ativas, em especial da noite ativa do
espírito.
A noite ativa dos sentidos é precedente e diz respeito à parte
inferior do homem, como precisa em Subida II 2; portanto, é mais
uma noite exterior, que não deve confundir-se com a noite da fé. É
verdade que a fé atua em todo o projeto de união, e assim é raiz e
razão de abnegação dos sentidos; sem dúvida, por realizar-se esta
imediatamente nas potências inferiores, que são as que trabalham e
padecem, não pode esta tarefa identificar-se nem chamar-se com
propriedade "noite da fé". À "noite dos sentidos" corresponde o
que o Doutor Místico designa como "ânsias do amor sensível", que
não pertencem, como veremos mais abaixo, ao exercício estrito da
fé. Ao contrário, quando no processo ulterior se trata das
potências superiores - isto é, das espirituais -, a fé atua
diretamente no fundo da alma. E este trecho do caminho espiritual é o
que se designa propriamente "noite ativa da fé". A bela expressão
quer dizer: a purificação ativa da alma é obra da fé. E por ser
obra da fé, a chama noite profundíssima e dificílima, comparável
à meia-noite, na qual não há rastro de luz. Isto é, a luz das
criaturas, que chega à alma através dos sentidos, se apagou na noite
precedente, e começou a arder a luz divina pela fé; porém esta é
uma luz ao mesmo tempo profunda e obscura, porque o objeto divino, o
qual ao desprender-se a alma das criaturas é o único que lhe resta,
não aparece claramente ao entendimento crente. A alma está , pois,
só com Deus, porém Deus está presente só pela fé. Tanto tem de
Deus quanto tem de fé. E isto significa ter só a Deus, sem mescla
de criaturas. Psicologicamente, "nada": nenhum gozo, nenhuma
satisfação do entendimento, nenhuma operação natural da potência
intelectual, embora esta se una profundamente a Deus pela fé. A
adesão de fé, segundo vimos em Subida II 3, é
"consentimento", algo assim como a espécie de cor que o cego conhece
de ouvir falar. E assim, a fé é um passar a pé enxuto pelo
"nada" psicológico.
Encontramos esta doutrina em Subida II 1 e II 2, onde começa a
tratar extensamente do segundo trecho do caminho espiritual: ou seja,
da fé, apresentando-a como "noite" da parte superior ou espiritual
da alma.
Eis aí onde aparece obviamente a correspondência:
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"[...] Deus é para a alma tão escura noite quanto a fé,
falando naturalmente; porém, decorridas já estas três partes da noite"
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diz, atendo-se ao esquema de Subida I 2,
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"que para a alma são naturalmente trevas, já vai Deus ilustrando a
alma sobrenaturalmente com o raio de sua divina luz, o qual é o
princípio da perfeita união que se segue".
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Fixemo-nos também aqui na correspondência:
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naturalmente - sobrenaturalmente.
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Deus que é uma noite total para o entendimento por falta de
semelhança essencial da criatura com Ele, permanece absolutamente
inacessível; porém pode iluminar o entendimento humano, muito além
da capacidade natural deste, com a luz divina, que é princípio da
união perfeita com Deus. Essa luz divina é a que ilumina na fé,
segundo vimos em Subida II 3; sem dúvida, trata-se de uma luz
que, por exceder infinitamente a luz natural do entendimento, não
causa nele senão obscuridade; Mais ainda, a própria fé acaba em
obscuridade do entendimento, causada pelo excesso da luz divina. Aí
temos a fé com sua desproporção essencial. Para a alma, Deus é
uma "noite" tão escura quanto a fé, "falando naturalmente".
Logo, a fé é noite para o entendimento, que não tem mais que seu
olho natural. E Deus, que se manifesta pela fé, é também noite.
Porque a luz da fé é totalmente sobrenatural, e o entendimento não
recebe dela nada adequado a sua natureza, nada que corresponda a sua
capacidade natural. Existe uma profunda vala de separação entre a
luz natural do entendimento e a luz excessiva de Deus. E esse sulco
de separação absoluta entre o natural e o sobrenatural, entre o
criado e o divino, afeta à natureza da fé e a sua dinâmica.
Acrescentaremos, enfim, que esta doutrina do Doutor Místico sobre
a fé se apoia na famosa passagem da carta aos Hebreus:
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"A fé é a
substância das coisas que se esperam, o argumento do que não se vê"
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Sobre esta afirmação construiu São João da Cruz sua explicação
da fé; e, de modo semelhante, a noção da virtude teologal. De
fato, as três virtudes teologais são, no sistema sanjoanista, os
três meios pelos quais as três potências superiores da alma -
entendimento, memória e vontade - "se põem em perfeição". Isto
é, se unem com Deus. Coisa que, por outro lado, acontece no vazio
e obscuridade concomitantes:
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"fazem o mesmo vazio e obscuridade cada uma em sua potência".
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Como acontece isto na fé, já o indicamos de algum modo, e
voltaremos a tratar mais particularmente. No momento, basta reler o
que o Doutor Místico diz a este respeito em Subida II 6:
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"[...] a fé, como já vimos, nos diz o que não podemos
alcançar com o entendimento".
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E, ao explicar a passagem citada da carta aos Hebreus, comenta:
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"Que para nosso propósito quer dizer que a fé é substância das
coisas que se esperam; pois ainda que o entendimento com firmeza e
certeza consinta nelas, não são coisas que ao entendimento sejam
descobertas; porque, se lhe fossem descobertas, não seria fé. A
qual, embora dê certeza ao entendimento, não o ilumina claramente,
mas o obscurece".
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Em resumo: toda a doutrina sanjoanista sobre a fé, toda a
'substância' da fé, é tecida dessas "coisas" que se esperam e
que já recebemos no entendimento como objeto próprio, como existentes
nele, porém sem evidência intelectual; ou seja, sem a evidência
com que o entendimento percebe a conclusão em uma ciência. A exegese
que o Doutor Místico faz desse texto insiste, como em Subida II
3, na expressão "argumento do que não se vê". Em outras
palavras: as coisas que assim se esperam estão no entendimento não
'vistas', informando-o; a fé, que lhe dá notícia e presença,
não lhe dá claridade. Se assim não fosse, não seria fé.
Por conseguinte, ambas as dimensões configuram a essência da fé: a
presença das verdades divinas no entendimento e, ao mesmo tempo, a
distância - "obscuridade".
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