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Incidentalmente já falamos que a noite própria da fé é a noite
ativa do espírito, que constitui o tema fundamental do livro II de
Subida. Também dissemos que a análise deste tema nos permitirá
isolar a operação própria da fé e sua contribuição à união.
Quando mais acima, ao longo de Subida II 8, tratávamos da fé
enquanto meio proporcional de união, a considerávamos em seu aspecto
estático. Era um estudo de sua entidade; isto é, respondíamos à
pergunta: o que é?, qual é sua índole ontológica?
Tal apresentação nos pareceu justa e primária para nosso ponto de
vista, embora não fosse essa a hierarquia de questões no texto do
Místico Doutor.
Suposto, pois, o fundamento entitativo, podemos passar já à
projeção dinâmica: como a fé realiza a união. Seu dinamismo
próprio se desenvolve no caminho de união, com a meta à vista. E
todos os elementos que colaboram durante o caminho devemos encontrar
não de um modo abstrato, mas ativos no processo unitivo. Abrem-se a
nosso conhecimento precisamente por seu lado operativo. E a partir
dele poderemos também investigar melhor a natureza da fé, porque o
modo de agir procede do modo de ser. Brota de sua íntima natureza e o
"descobre".
Mas para compreender em profundidade a noite ativa convém observar que
o Doutor Místico, ao passar da uma consideração geral da fé como
meio de união para a consideração específica de seus elementos
particulares, traça, em Subida II 10, um claro panorama dos
distintos modos de estar as coisas no entendimento como matéria
cognoscível. Ao longo da obra do Doutor Místico recebem diversos
nomes. Porém os principais são apreensões, notícias,
inteligências, palavras quase sinônimas quanto a seu significado.
A distinção é feita por eliminação. Antes de tudo, distingue
uma dupla via pela qual o entendimento recebe suas 'notícias': a
natural e a sobrenatural. Chama natural o caminho no qual o
entendimento pode andar com seus próprios pés, ou seja, por sua
capacidade natural, adquirindo 'notícias' ora diretamente através
dos sentidos, ora mediante o trabalho interno (neste caso, segundo a
teoria do conhecimento seguida pelo Doutor Místico, também com a
ajuda remota ou indireta dos sentidos). E chama sobrenatural ao que
está acima da capacidade natural do entendimento; trata-se, pois,
de 'notícia' que nunca se pode obter por via natural - segundo a
explicação dada em Subida II 3,2 -, de 'notícias' que não
caem dentro da experiência sensível: são 'notícias', diz o santo
Doutor, recebidas por via sobrenatural.
Pois bem, entre as 'notícias' que chegam por via sobrenatural
devemos distinguir vários tipos:
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- umas que, embora tenham chegado por via sobrenatural, se percebem
através dos sentidos, externos ou internos; chama-as 'sobrenaturais
corporais';
- outras que, por chegar ao entendimento sem a intermediação dos
sentidos, são diretamente percebidas; são as imediatamente
sobrenaturais, e são chamadas 'espirituais'.
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Estas últimas podem ainda se subdividir em duas classes: primeira,
notícias distintas e particulares; segunda, notícia confusa,
obscura e geral.
Na primeira há quatro espécies: visões, revelações, locuções
e sentimentos espirituais; a segunda é única:
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"a inteligência obscura e geral está em uma só, que é a
contemplação que ocorre pela fé".
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A simples observação da enumeração classificada e, sobre tudo, da
subsequente exposição, mostra claramente que o Doutor Místico fala
'sobrenatural' do ponto de vista causal, não do ponto de vista dos
conteúdos. Também se observa claramente o caráter experimental e
indutivo da obra sanjoanista. Cuida-se muito de propor nesta linha,
prescindindo já da noção de fé, explicada anteriormente, a
dinâmica da união em fé, que é o tema que desenvolve ao longo de
22 capítulos (Subida II 10-31), nos quais inclui também
duas questões muito interessantes para nós, e das quais teremos que
nos ocupar sucessivamente; a saber:
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1ª A função da fé na noite ativa do espírito, na qual descarta
todas as 'apreensões' e 'moções' que não servem para unir o
entendimento com Deus.
2ª "A inteligência obscura e geral, que é a contemplação que se
dá pela fé"; ou seja, o conhecimento que o entendimento, dentro de
dimensão própria dos conteúdos da fé, porém com o auxilio
estimulador das outras forças sobrenaturais, pode alcançar nesta
vida. Contudo, a segunda questão - devemos observar - nos
interessa só enquanto nos ajuda a ilustrar alguns pontos da natureza
íntima da fé. Nunca devemos perder de vista os motivos pelos quais
São João da Cruz insiste tanto na necessidade absoluta da noite
para a união da alma com Deus. O primeiro motivo achamos em Subida
II 8,3, onde compara Deus e a criatura, e conclui: nenhuma
criatura pode se comparar com Deus, porque a realidade divina dista e
se diferencia infinitamente de qualquer realidade criada considerada em
si. O segundo motivo em ordem lógica, não cronológica, aponta em
Subida I 3 e, sobretudo, em Subida I 4: a união se realiza por
informação e participação da Divindade na alma, segundo se diz em
Subida II 5; pois bem, entre Deus e a criatura não há
proporção natural, e, portanto, tampouco composição ou união.
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|
Por que?
O Doutor Místico responde: Porque o nexo operativo de união é o
amor. E então encontramos um terceiro motivo ou razão para a noite:
o amor é, de seu, transformador, já que produz igualdade entre o
amante e o amado, assume intencionalmente a forma deste, aprisiona a
vontade, a entrega. O que eqüivale dizer que se une ao amado, que
se transforma, de certo modo, nele. E neste sentido se diz que o
amor é exclusivo.
Das três premissas ou razões anteriormente expostas deriva, lógica
e irremediavelmente, a "noite", enquanto significa privação ou
negação do apetite a tudo o que não é Deus. Sob este aspecto cai
dentro da exclusividade do amor, pois impede que qualquer outra forma
criada e natural seja apetecida. Se considerarmos o raio de ação
natural do amor, segue-se a 'adequação' da alma às criaturas e,
então, se exclui necessariamente sua assimilação a Deus, e, por
conseguinte, a união íntima ou, pelo menos, a tendência iniciada
no amor até a transformação participada. Neste sentido, pois, a
"noite" pertence ao amor.
Sem dúvida, intervém a fé, e com ela diríamos que a "noite" se
duplica. A fé, com efeito, põe em comunicação com Deus, porém
precisamente como "noite".
A "noite" da fé significa que o entendimento alcança a essência
divina pela fé, sem apoiar-se já em sua luz específica natural; a
luz da fé o une à Divindade, porém não o transforma
intrinsecamente, que é o que se logra na visão.
Deste modo, a fé implica, ao ocorrer nela luz e obscuridade,
condição de "noite" ou de não-visão e ao mesmo tempo dirige e
alimenta a "noite" como fase necessária para chegar à união. A
fé, pois, embora não consiga aferrar no entendimento a forma divina
e goza-la, sem dúvida, como já antes esforçamo-nos em
demonstrar, introduz no entendimento certa 'medida' ou proporção
com Deus, no sentido de que não confunde o divino com o criado e não
adultera a Deus com nada do que consegue ou pode conseguir pelas
próprias forças naturais.
Como acontece isto em particular, nos ensinará a experiência da
"noite ativa do espírito".
Antes de passar adiante devemos examinar esta afirmação geral, que
achamos em Subida II 4:
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"[...] como a fé é obscura noite para a alma, e como também a
alma há de ficar na obscuridade e privada da própria luz natural,
para que pela fé se deixe guiar a este alto término de união".
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"Guiar" eqüivale a dirigir, conduzir. Portanto, a fé dirige a
alma à união. Dirige-a em trevas são só no que concerne à parte
sensível e inferior, mas também pelo que se refere à parte
superior: "se há de cegar e obscurecer segundo a parte que diz
respeito a Deus e ao espiritual, que é a parte racional e
superior".
Se lhe perguntarmos por que, nos responderá rapidamente:
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"Porque para que uma alma chegue à transformação sobrenatural, é
claro que há de se obscurecer e se transpor a tudo o que contem o seu
natural, que é sensível e racional".
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Retorna sempre à raiz primeira da transformação, e exige, para que
esta seja conseguida, transpor não só a área sensitiva, mas
inclusive a racional. A união se realiza não no plano natural, mas
no plano superior ou sobrenatural. Basta fixar-se no significado
etimológico das palavras: "Porque sobrenatural quer dizer passar
acima do natural". E conclui: "Logo o natural fica abaixo",
ultrapassado pela fé.
O caráter absolutamente sobrenatural da união transformadora
determina a índole do caminho e dos meios. Deve-se renunciar -
"deve esvaziar-se" - a tudo o que cai dentro de sua capacidade
natural, provenha de onde for, de cima ou de baixo, como se observa
em Subida II 10 a propósito da divisão das apreensões.
Só então Deus pode fazer na alma o que quer. A fé é que mede e
dirige a disposição da alma:
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"Acercando-se da fé obscura, tomando-a por guia e luz, e
afastando-se das coisas que entende, guia e sente e imagina. Porque
tudo aquilo são trevas que a farão errar; e a fé é sobretudo aquele
entender, e gostar, e sentir, e imaginar. E se por isso não é
cega, deixando-se totalmente às escuras, não vem ao que é mais,
que é o que ensina a fé".
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Observa-se que não só diz que a fé se encontra acima de qualquer
realidade natural conseguida ou possível de conseguir, mas também
afirma que 'ensina'. Primeiro, pois, insinua sua ordem intrínseca
para Deus, e logo, sua orcem objetiva para as verdades reveladas,
nas quais, de algum modo, se apodera do divino.
A afirmação se prolonga explicativamente de outro modo. Partindo do
axioma bíblico: "accedentem ad Deum oportet credere quod est"
(Heb 11,6), traduz e declara:
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"o que se for unindo a Deus, convém que creia em seu ser".
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O que eqüivale exigir que não se una a nada que de Deus se possa
imaginar, gostar, entender, por muito elevado que seja, nesta vida.
E isto terá máxima importância ao falar e julgar as excelências da
experiência mística. "Nada", dirá em cortante expressão.
Porque qualquer coisa naturalmente perceptível, agradável e
inteligível dista infinitamente de Deus e de sua pura possessão.
Isto é o que quer dizer "entrar no abismo da fé".
Na verdade, nas afirmações precedentes está subjacente como fator
essencial o conceito sanjoanista de fé. Esta explicação da
"noite" tem sua estrutura e sua lógica intrínsecas. Eis aqui
porque assevera que a fé duplica a "noite". Porém, por sua vez,
a fé explica a "noite", pois se o amor exige "noite" da vontade -
não aconteça que, atraída pelas coisas naturais, volte a elas -,
a fé acrescenta outro motivo: Deus não é comparável a nenhuma
criatura, e, portanto, todo o natural deve ser desprezado se
quisermos chegar à união divina. A fé veta que as criaturas tomem o
lugar de Deus.
Por outro lado, a fé faz compreensível a noite, enquanto, pela
profundeza de sua natureza, por sua conexão intrínseca com Deus no
entendimento e por sua proporção essencial à Divindade - não
obstante sua obscuridade ou, melhor, em virtude dela -, não permite
confundi-la com nada criado ou natural. Mantém-se em seus limites e
estilo próprios, vinculando a alma unicamente a Deus.
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"[...] neste caminho, o entrar no caminho é deixar seu caminho;
ou, melhor dizendo, é passar ao término e deixar seu modo, é
entrar no que não tem modo, que é Deus. Porque a alma que chega a
este estado, já não tem modo ou maneiras, nem ao menos se apega ou
pode apegar-se a eles, isto é, não mais se prende ao próprio modo
de entender, nem de gostar, nem de sentir, embora em si encerre todos
os modos, como quem nada tendo, tudo tem. Porque, tendo ânimo para
passar de seu natural limitado interior e exteriormente, entra em
limite sobrenatural que não tem modo algum, tendo em substância todos
os modos".
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Tudo isto se encerra na formidável expressão 'abismo de fé'.
Expressões como as citadas moveram Baruzi [37] a afirmar que a
fé, na doutrina de São João da Cruz, é concebida como
'universalização do entendimento', segundo a fórmula verbal de
Dom Chevalier [38].
É provável que os textos sanjoanistas, tomados isoladamente, possam
ser interpretados assim. Não obstante, no conjunto se percebe outro
fator, ao qual Baruzi não prestou a devida atenção: a causa de que
na fé apareça o aspecto acima se deve ao fato de ultrapassar o
término natural do entendimento e seu ingresso no âmbito do
sobrenatural. Um âmbito, pois, essencialmente divino. Ao penetrar
nele, a fé já tem força para nos levar a Deus [39].
Pois bem, esta força não pertence à capacidade natural do
entendimento. Pelo contrário, o Doutor Místico afirma
reiteradamente: quanto mais a alma em fé se adentra em Deus, tanto
maior é a noite, que resulta no entendimento como reação à luz
excessiva.
Não se dá, portanto, uma "imanente elaboração" do divino, como
sugere Baruzi, senão a inserção na ordem sobrenatural mediante a
graça. O entendimento resulta transbordado, e não por si mesmo,
mas em virtude da íntima e extrinsecamente sobrenatural proporção ao
divino, da qual o entendimento participa pela fé e da qual se vai
fazendo cada vez mais consciente e experto ao ritmo do desenvolvimento
vital da fé.
Do anterior se infere que a "noite" é guia para compreender o tema
da fé na obra de São João da Cruz. Analogamente, o exame atento
de Subida II 4 nos introduz ao estudo particular da noite ativa do
espírito, na qual a fé desempenha um papel tão decisivo. Na trama
da noite ativa do espírito analisaremos cuidadosamente as
'notícias', 'apreensões' e 'inteligências' que constituem a
matéria do conhecimento particular. E o analisaremos não sob um
prisma especulativo e crítico, embora não se prescinda dele, mas
tendo presente a índole experimental, prática e normativa da fé; o
examinaremos, em fim, na bigorna da experiência, sem esquecer que a
fé, por sua íntima condição, é 'semelhança' e meio de união
com Deus.
Estabelecida a divisão das apreensões, o Doutor Místico trata,
como vemos em Subida II 10, de todas aquelas coisas que podem
chegar ao entendimento por via sobrenatural, o que não exclui que
algumas vezes interessem aos sentidos tanto exteriores quanto
interiores. Sua sobrenaturalidade se refere somente ao modo de
adquiri-las; a saber, não mediante o trabalho cognitivo natural,
mas à margem dele. Talvez se possa reduzir, para compreende-las
melhor, estas 'noticias' e 'apreensões' distintas e particulares a
'espécies'. Sem dúvida alguma, todas elas, ora as puramente
espirituais, ora as que chegam ao entendimento pela via dos sentidos,
implicam um modo distinto e particular para o Doutor Místico, isto
é, limitado e certo, de conhecer, a que imediatamente se opõe a
|
"inteligência obscura e geral [...] que é a contemplação que
se dá na fé".
|
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A distinção contrapõe o conhecimento particular ao geral. E este
é atribuído à fé. Em Subida II 10 começa a parte 'prático
- mística', que é aplicação de toda a doutrina da fé exposta na
parte anterior, e que, de alguma forma, qualificamos de
'especulativo - mística'. Poderíamos dizer que, estabelecidas as
bases ou princípios, agora São João da Cruz inicia a solução
dos "casos místicos", tomados da própria experiência ou da
experiência alheia; esta pode proceder ou de conhecimento pessoal ou
simplesmente de leitura de livros que tratam destes temas.
O método de análise dos casos concretos seguem esta ordem:
primeiramente refere a 'notícia particular', logo estuda sua
natureza e por último determina como deve se comportar para que não se
converta em obstáculo ou detrimento da união divina.
Assim, em Subida II 11, apresenta o caso das "apreensões do
entendimento por via daquilo que sobrenaturalmente se apresenta aos
sentidos corporais exteriores". E o exame consiste em averiguar o que
são. Pergunta então: Podem vir de Deus? Não nega a
possibilidade, porém aumenta a precaução. Ao fim indaga seu valor
relativamente à união, aplicando critérios extremamente cautelosos e
restritivos, com a mesma lógica e severidade que nos outros casos.
Sua norma prática é inequívoca: nem deixa-las e nem busca-las.
Por que? Por muitos motivos, todos eles relacionados com o tema
essencial da união da alma com Deus: antes de tudo essas
'apreensões' são algo essencialmente corporal, estão radicadas em
uma potência corporal e são muito diferentes de tudo o que é
puramente espiritual. Comparadas com a fé, seu valor é mínimo. O
melhor, portanto, é renunciar a elas em favor da fé. Eis aqui como
justifica este motivo capital:
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"primeiro, porque lhe vai diminuindo a fé; porque muito prejudica a
fé o que se experimenta sensivelmente. Porque a fé, como dissemos,
ultrapassa todo o sentido".
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Caem por terra ante a pureza e a beleza da fé, que da origem a uma
íntima proporção entre o entendimento e a Divindade. O Doutor
Místico, portanto, não nega a possibilidade de sua proveniência
divina, nem tampouco diz que não devem apetecer, porque são
substancialmente ilusões; não, não é isto o que conclui. O que
faz é vê-las no plano da união, que anteriormente fixou com sumo
cuidado. E vistas neste plano descobre sua dimensão natural,
inclusive corporal; ainda que provenha de Deus, aparece ao homem de
um modo conatural a ele, não a Deus. Por conseguinte, embora se
enraízem prontamente e agradem, não são, por si, vantajosas para a
união por sua configuração natural ou humana e pelo impacto afetivo
que ocasionam na vontade. Vistas em sua contextura humana,
naturalmente conseguidas e apetecidas, e comparadas com a fé, que é
o meio próprio de união e a qual dá a 'semelhança' divina ao
entendimento e a 'proporção' ao divino, vê-se logo sua escassa
utilidade, seu pouco serviço. E, com base na comparação,
decide-se pelo abandono, por não apetece-las nem busca-las.
Eis aqui a solução do caso e as razões porque optar pela negação.
É digno de se sublinhar como chega a esta solução. O Doutor
Místico fundamenta seu conselho no seguinte raciocínio: se são de
Deus, então não há dúvida de que Deus quer causar com elas na
alma algum efeito espiritual; porém - e isto é muito importante -
tal efeito se produz "sem diligência ou habilidade" do homem,
"porque é coisa que se faz e opera passivamente no espírito". Portanto,
|
"não consiste em querer ou não querer, para que seja ou deixe de ser".
|
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Deste modo deduz da experiência as leis que regulam a ação divina na
alma. E, ademais, a mesma experiência fornece o princípio da não
intervenção ativa. Por que? A nosso ver, se acatarmos as robustas
afirmações de Subida II 4 e 7, a razão é obvia: porque ao
intervir uma potência ativa após o que é divino e sobrenatural, o
faz a seu modo humana e necessariamente natural.
Este é o primeiro princípio prático, determinante. O segundo
deriva do primeiro: "não recebe tão copiosamente o espírito que
causa, o qual se imprime e conserva mais negando todo o sensível, que
é muito diferente do puro espírito". Ainda supondo que a
'apreensão' fosse causada por Deus para aumentar o grau de graça e
de amor - e, em conseqüência, a união -, teríamos em ação
algo sensível: porém não se trataria de uma ação direta, já que
o que esse sensível faz diretamente é uma adaptação ao modo humano.
Ao mesmo tempo, o homem possui em sua parte intelectual a fé, que o
'proporciona' intrinsecamente ao divino e é o meio próprio da
união, e que, portanto, ensina-lhe a desprender-se do sensível,
que, de seu, nenhuma semelhança tem com Deus. Na negação ou
eliminação do sensível realiza a fé uma função peculiar. Por
conseguinte, na negação ou eliminação do sensível realiza a fé
uma função e uma ação que corresponde intimamente a sua natureza.
Temos assim um exemplo de como se resolve um 'caso místico' na
praxis da noite ativa do espírito. Talvez o 'caso' pareça fácil
de resolver, já que sua chave é descoberta prontamente. Não
obstante, retenhamos na memória a fina maneira de aplica-la.
Casos mais difíceis serão apresentados. Porém estes não são
abordados imediatamente, já que o segundo tipo de 'apreensões'
pertence ainda à ordem do sensível, ou seja, às 'apreensões' que
são percebidas mediante os sentidos interiores.
Em Subida II 12 expõe o Doutor Místico seus pontos de vista
sobre a imaginação e a fantasia e prepara ao mesmo tempo o terreno
para os capítulos seguintes, explicando como as potências sensitivas
interiores colaboram no exercício da meditação discursiva. Por sua
vez, em Subida II 13 -15 faz a famosa análise da "passagem"
da meditação para a contemplação, assunto do qual nos ocuparemos
mais tarde. Encontramos logo Subida II 16 "em que se trata das
apreensões imaginárias que sobrenaturalmente se apresentam na
fantasia". A este propósito, ensina que, como no caso anterior,
as "comunicações espirituais [...] vêm envoltas nas formas,
imagens e figuras" que já conhecemos - isto é, as figuras
sensíveis e humanas -, que, portanto deve observar a norma prática
apontada: a fé há de superar todo o sensível, próprio do
conhecimento humano, eliminando-o, negando-o, não o buscando,
para estar atenta somente ao espiritual, pois
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"o espírito [...] é que leva à união na fé, a qual é meio próprio".
|
|
Em Subida II 23 trata de "as apreensões do entendimento que são
puramente por via espiritual". Denomina-as 'espirituais' porque se
comunicam imediatamente à parte espiritual da alma sem a mediação dos
sentidos, tanto externos quanto internos. Pode-se também
chama-los, e é o mais comum, 'visões intelectuais':
|
"aos olhos
espirituais da alma, que é o entendimento, tudo o que é inteligível
causa visão espiritual; pois, como dissemos, o entende-los é
vê-los".
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Não obstante, tais apreensões se apresentam ao entendimento
configuradas pelos cinco sentidos; de onde o que se faz presente ao
entendimento a maneira de coisa vista - ou seja, o que o entendimento
recebe como coisa que entra pelos olhos - chame-se 'visão', e
'locução' o que chega como coisa ouvida, e 'revelação' o que
lhe chega como coisa 'inaudita', e, em fim, 'sentimento
espiritual' o que se parece ao que acode aos demais sentidos.
Note-se que dissemos 'a modo' e não 'por meio' (per viam),
porque, de fato, trata-se de coisas representadas imediatamente no
entendimento por via sobrenatural, tendo somente como auxílio a
modalidade do que o entendimento recebe pelos sentidos.
A norma prática aparece rapidamente em Subida II 23:
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"Destas, pois, também nos convém desembaraçar aqui o
entendimento, encaminhando-o e dirigindo-o através delas, na noite
espiritual da fé, à divina e substancial união com Deus".
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É a resposta esperada, a qual não impede que o Doutor Místico diga
um pouco depois:
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"estas são mais nobres apreensões, e mais proveitosas, e muito mais
seguras que as corporais imaginárias, porquanto são já interiores e
puramente espirituais e menos acessíveis ao demônio, porque elas são
comunicadas à alma de modo mais puro e sutil, sem nenhuma cooperação
dela nem da imaginação".
|
|
Contudo, a norma prática é idêntica à que apontou anteriormente:
deve-se prescindir delas para seguir caminhando na fé que atua na
noite, pois por sua íntima proporção com o divino está acima de
tudo o que, de qualquer maneira, se pode sentir pela experiência,
que pode por em jogo e em ação as potências naturais do homem, por
muito purificadas que estejam. Somente a fé é para o entendimento
meio de união verdadeira e própria com Deus, e excede, sem
comparação alguma, todo o criado natural. E, por isso, a fé é
melhor que qualquer fruição mística, por elevada que esta seja.
Não é possível aqui alargar a análise a todos os detalhes dos
textos sanjoanistas. Talvez saíssemos de nossos propósitos. Porém
vamos nos fixar nos mais importantes.
Entre outros, o primeiro que se nos apresenta aos olhos é o que diz a
propósito das 'visões': que podem versar acerca de substâncias
corpóreas ou de substâncias incorpóreas, segundo Subida II 24.
Estabelece imediatamente o princípio que será capital para definir a
natureza da experiência mística: as coisas incorpóreas - prepara -
não podem ser vistas pelo entendimento nesta vida, porém
|
"pode-se
sentir na substância da alma, com suavíssimos toques e juntas, o que
pertence aos sentimentos espirituais".
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Parece que o termo 'substância' perdeu aqui seu significado
escolástico e que se usa, adaptando-o, para expressar um estado ou
situação mística. Pelo que nos concerne, achamos um texto claríssimo:
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"estas visões, porquanto são de criaturas, com quem Deus nenhuma
proporção nem conveniência essencial tem, não podem servir ao
entendimento de meio próximo para a união com Deus. E assim convém
a alma fazer-se puramente negativa a elas [...] para ir adiante
pelo meio próximo que é a fé".
|
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Mais ainda, afirma que semelhantes visões podem excitar a alma ao
amor de Deus, porém muito mais a excita a fé que se enraíza mais
profundamente com a negação das espécies criadas, inclusive as mais
sublimes.
Continuando a matéria, trata de outros pontos que necessariamente
teremos que citar e analisar mais abaixo, porque contêm a doutrina
sobre o aumento simultâneo da fé, da esperança e da caridade.
No capítulo 25 de Subida II começa a tratar das
'revelações', distinguindo-as nas que chama "notícias
intelectuais" e as que denomina "manifestações de segredos e
mistérios ocultos de Deus".
A primeira série é de elevado apreço, pois
|
"são notícias do próprio Deus e deleite do mesmo Deus [...]:
procedem diretamente de Deus, manifestando de maneira sublime algum
atributo de Deus".
|
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Nesta passagem de Subida II 26,3 sente-se já odor e sabor da
Chama. Estas notícias são "pura contemplação",
|
"são a própria união, porque consistem em um certo contato da alma
com a Divindade, e assim o próprio Deus é então sentido e gozado",
|
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dirá um pouco mais adiante, em Subida II 26,5.
Porém vamos omitir, no momento, tudo o que se refere à estrutura da
solitária experiência mística. A alma avança pelo caminho da
união sempre em companhia da fé. E nosso objetivo consiste
precisamente em averiguar o comportamento da fé em relação a todas
estas coisas. A fé é somente meio de união com respeito ao que
abertamente se chama 'união' ou 'a parte da união'. Por isso, o
modo de comportar-se a fé não pode ser repelir, mas dispor a alma
para manter-se em humildade e resignação, sem aderir a essas
'notícias' como a uma propriedade. Tal é a justa medida que a fé
deve observar nessa experiência da união.
O discurso prossegue em Subida II 26, referindo-se logo às
revelações pelas quais se conhece, com certeza absoluta e
sobrenatural, algumas realidades ocultas criadas; por exemplo, os
segredos do coração. Tal infusão de ciência particular se dá,
por beneplácito divino, principalmente a alguns santos que chegaram
já ao estado de união. Dá-se a isso o nome de graças dadas
gratuitamente (gratiae gratis datae). No que diz respeito à fé a
norma prática do Doutor Místico assim reza:
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"estas notícias [...] muito pouco proveito podem trazer à alma
para ir a Deus se a alma se quiser agarrar a elas".
|
|
Por conseguinte, aconselha
|
"grande cuidado em nega-las sempre, querendo caminhar para Deus pelo
não saber".
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O "não saber" expressa o modo típico da fé. E, na verdade,
estas graças dadas grátis - em outras passagens enumera mais - podem
valer, segundo a explicação do santo Doutor, para manifestar a
união, porém não necessariamente; portanto, são extrínsecas à
união mesma, e colocar o empenho em busca-las traria o risco de
sair-se do caminho. O fim do caminho é a união; o meio apto, a
fé.
A solução proposta é cabal se pensarmos e medirmos com precisão
essas graças: quando se dão, se dão por beneplácito divino, e em
geral - se bem que não necessariamente - supõem já a união.
Basta, pois, não busca-las. E esta é a justa atitude da fé em
relação a elas.
O valor intrínseco da fé é manifestado de modo diferente quando se
trata, em Subida II 27, da espécie de revelação designada com
a expressão "descobrimento de segredos ocultos". Desta espécie de
revelação são os artigos da fé. Não são excluídas revelações
ulteriores que se referem ao curso das coisas, tanto universais quanto
particulares, nem as próprias verdades da fé enquanto suscetíveis de
que seu conteúdo se manifeste de maneira mais profunda e essencial:
"manifestação ou declaração do já revelado". Não obstante, o
Doutor Místico mostra-se nesta matéria muito inclinado a admitir a
suspeita de uma intervenção diabólica, sobretudo em se tratando de
'revelar' algo novo e diferente no campo da fé. O receio deve
relacionar-se no contexto histórico dos 'iluminados', segundo
dissemos na Introdução. Seu critério e sua norma, incessantemente
proclamada, é recorrer nestes casos ao juízo e à doutrina da
Igreja. No que diz respeito à fé, a função da Igreja não
consiste somente na proposição objetiva, mas também no que toca à
constituição intrínseca da fé, segundo a doutrina de São João
da Cruz que exporemos mais abaixo. No momento basta observar como
coloca sob o arco da fé esta espécie de comunicação sobrenatural e
como impõe o recurso à autoridade da Igreja, ensinando que se deve
crer nas verdades reveladas no sentido que a Igreja determina e
propõe, não no sentido de qualquer revelação privada. Uma razão
última e profunda para esta solução é dada no seguinte texto:
|
"convém à alma muito não querer entender coisas claras acerca da
fé, para conservar puro e inteiro o mérito delas".
|
|
Algumas vezes
fala o santo Doutor do mérito da fé, em ordem principalmente à
consecução da união.
O terceiro tipo de "apreensões" sobrenaturais no caminho espiritual
é constituído pelas "palavras interiores", das quais trata em
Subida II 28-31. Distingue entre elas várias espécies:
"palavras sucessivas", "palavras formais" e "palavras
substanciais" (Subida II 29-31).
Expõe com grande clareza sua natureza, sua diferença e o modo de se
fazerem vivas ao entendimento.
As "palavras sucessivas" são produto do entendimento, unido a
alguma verdade sobrenatural; isto é, aplicado a ela sob o impulso
diretivo do Espírito Santo, que o ajuda a formar novos conceitos
extraídos da verdade contemplada; vê, pois, nessa verdade "as
demais verdades que são relacionadas àquela que pensava". Não
obstante, há possibilidade de errar, tanto por uma intervenção
diabólica - São João da Cruz, mestre em experiências
místicas, aponta os sinais para discernir quais são do diabo e quais
são de Deus -, quanto pela capacidade limitada do entendimento para
receber e seguir sem erro conceitos sucessivos, bem como, finalmente,
por sua demasiada sutileza para forma-los por habilidade natural.
Embora detectando agudamente esses perigos e admitindo uma direção
autêntica do Espírito Santo, o valor que atribui a essas locuções
é, comparado com o valor da fé, muito pequeno. Disse-nos na
seguinte passagem, à qual teremos que recorrer muitas vezes para que
nos ajude, com sua força e sua luz, a resolver graves interrogações:
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"[...] embora seja verdade que naquela ilustração de verdades
ele (o Espírito Santo) comunica à alma alguma luz, porém é tão
diferente a que recebe desta pela fé, sem entender claramente, quanto
à qualidade, como é o ouro muito distante do mais vil metal; e
quanto à quantidade, como excede o mar a uma gota d'água. Porque a
luz do conhecimento particular comunica a sabedoria de uma ou duas ou
três verdades, etc., e a luz da fé comunica toda a Sabedoria de
Deus em geral, que é o próprio Filho de Deus que se comunica à
alma na fé".
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O texto citado não compara imediatamente as "palavras sucessivas"
com a fé, mas com o conhecimento obscuro e geral - a contemplação
- que se dá na fé. Logo seu pleno sentido aparecerá somente quando
submetermos a uma análise mais profunda esse conhecimento. Aqui nos
contentaremos em indicar a norma prática que flui do que foi dito a
respeito das "palavras sucessivas": não se deve buscar, deve a alma
continuar no "abismo da fé"; iríamos nos perturbar com coisas
demasiadamente claras, concretas e de escasso valor. E a resolução
parecerá obvia se tivermos em conta o valor objetivo de uma e outra
coisa e a união intelectual que cada uma propicia.
De modo análogo expõe o Doutor Místico em Subida II 30 sua
doutrina sobre as "palavras formais", contrastando-as com a fé,
que constitui o "meio legítimo e próximo de união com Deus".
Quanto à terceira espécie - "palavras substanciais" -, que
consistem em causar na alma o que dizem divinamente - por exemplo,
quando Deus diz à alma "ama-me" -, a alma sente imediatamente em
realização eficaz. Contudo, o juízo de valor que acerca delas dá
o Santo é muito similar ao que deu, a propósito das
"inteligências", em Subida II 26: Aconselha grande humildade
e resignação. Nem repulsa nem busca. Quando Deus quiser dá-las
serão muito frutuosas e ajudarão a fazer mais genuína a união.
A espécie seguinte das comunicações espirituais, enumeradas como
'distintas e particulares' em Subida II 10, não pertence direta
e imediatamente ao entendimento, mas à vontade. São os
"sentimentos espirituais" (Subida II 32); levantam-se na
vontade, e deles transborda para o entendimento "apreensão e notícia
e inteligência". São muito valiosos e contribuem para a união.
Porém não se deve buscar, já que seria uma busca vã. Deus os dá
quando e a quem quer. Nenhuma atividade natural do entendimento seria
aproveitável para logra-los, antes destruiria a "saborosa
inteligência sobrenatural". A fé, portanto, é que se encarrega
de conservar a alma em humildade e passivamente resignada.
Depois da análise detalhada de todas estas 'apreensões' que são
matéria da noite ativa do espírito, cabe perguntar o que se conclui
desde já sobre a índole da fé. Aparece claramente que essa noite é
sua noite própria. Isto se induz do fato, facilmente perceptível,
de que todas as 'inteligências' e 'apreensões' que se deve
desprezar são algo pertinente ao entendimento, ora por cair
imediatamente em sua área, ora por estar ao menos ordenadas a ele.
Porém ali - no entendimento - encontram a fé, e então, segundo
mostra a análise, o critério que determina o juízo de valor e a
norma do tratamento justo que merecem é tomado se sua confrontação
com a fé e de seu serviço à união. A norma não é sempre
idêntica, como vimos ao fazer as análises: algumas vezes, a fé
postula repulsa; outras, submissão ao confessor; outras, ao recurso
à pedra de toque do magistério da Igreja; outras, em fim, somente
manter a alma em humildade e resignação quando Deus produz nela
efeitos unitivos.
Há, na verdade, algo misterioso nesta confrontação da fé com
todas essas 'apreensões'. Estas pertencem sempre ao entendimento ou
se ordenam a ele; por sua parte, a fé é o meio próprio para a
união intelectual com Deus, um meio que implica proporção íntima
do entendimento com a Divindade. Portanto, seus atos dão testemunho
de seu valor constitutivo, já que por eles toda a matéria da noite
ativa do espírito é dirigida, assumida, separada, eliminada e
ordenada. Não é fácil demonstrar que todas essas operações
dependem intrinsecamente da fé ou como as impõe. Não obstante, é
obvio que caem sob seu raio de ação - e, por isso, de interesse
para nosso tema -, segundo constam pelos textos analisados.
Antes de tudo, convém observar que não se trata aqui somente de uma
comparação objetiva entre o valor intencional e intrínseco das
"apreensões particulares" e a fé; algumas vezes se faz - como em
Subida II 16,7 e 29,6 - porém é incidental. Trata-se
realmente de um tipo de atividade que tem seu fundamento e sua razão de
ser nas exigências mesmas da fé. Por isso esta noite do espírito se
chama 'ativa'.
Os textos sanjoanistas não oferecem dificuldades de interpretação
neste ponto, pois são seguros e claros. O que não resulta já tão
fácil é precisar a natureza da dependência aludida, porque o Doutor
Místico não pretende exatidão especulativa, mas direcional.
De qualquer modo, da comparação objetiva se vê claramente, ao
menos, que as apreensões particulares e distintas se contrapõem à
fé, sempre dentro do plano intelectual. À fé se atribui em Subida
II 10 a
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"inteligência obscura confusa e geral".
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Pois bem, pelo
que nos consta da análise de Subida II 3, o entendimento se adere
pela fé às verdades reveladas, e fazendo-o se cobre de obscuridade,
deslumbrado pela luz excessiva infusa, incapaz de penetrar por si mesmo
a essência divina e de vê-la claramente. E assim, por um lado,
chega a ela, e, por outro, cai na escuridão. A fé implica, por
conseguinte, uma elevação essencial do entendimento, porém sem
tirar sua insuficiência nativa. Na conjunção destes dois elos,
psicologicamente contrários, se produz a íntima proporção do
entendimento humano no estado viador em relação à Divindade.
A análise dos elementos textuais sanjoanistas nos levam a entrever a
estrutura profunda da fé.
Na noite ativa ocorrem ao entendimento muitas "apreensões"
particulares e distintas e de vários tipos ou espécies.
Para São João da Cruz, essas "apreensões", com seu perfil
próprio, estão em harmonia com a capacidade e exigências naturais do
entendimento, e, portanto, lhe convém e pode recebê-las e
retê-las (leia principalmente sobre isto Subida II 16,17).
Tem, pois, uma medida natural intrínseca. Ademais, vem por um
caminho extraordinário; sobrenatural, diz o Doutor Místico, que
não nega absolutamente a sobrenaturalidade de origem em muitos casos.
Porém na conjunção de sua origem sobrenatural e de sua índole
conatural ao entendimento é onde se descobre um grave perigo para a
fé, pois esta é que deve dirigir, enquanto meio próprio, o
entendimento à união com Deus. Só ela e nela se encontra a
"inteligência obscura", ou seja, a contemplação. E pelo bem da
"divina e substancial união com Deus", como diz em Subida II
23,4, a fé renuncia e diz não a essas "apreensões". Ou,
dito de outra forma, deve ordena-las segundo as exigências da união
do entendimento com Deus, já que só ela é que possui nessa
potência a proporção essencial com Ele nesta vida. E já se sabe
que proporção corresponde, na linguagem do Doutor Místico, a uma
comunicação obscura com Deus.
Tal é a lógica da noite ativa do espírito, que nos permite isolar
alguns elementos específicos da fé. Vemos, com efeito, como é
propriedade sua a íntima proporção do sujeito com relação ao
divino, como realiza sua função unitiva, e ao faze-lo manifesta
essa proporção. Em fim, e concluindo, a íntima proporção ou
"semelhança" exclui que Deus possa ser visto com toda clareza pelo
entendimento nesta vida. O que parece claro ao entendimento é
necessariamente limitado; portanto, não divino.
A análise anterior põe em evidência luminosa a dependência entre
fé e noite ativa do espírito. Tratamos agora de precisar, à vista
dos textos, algo mais sobre a natureza dessa atividade.
O que vemos primeiramente é que por tais atos de abnegação das
"apreensões" claras e distintas aumenta o mérito da fé, a própria
fé. Lemos em Subida II 24,8 a propósito das visões de
substâncias espirituais:
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"[...] embora seja verdade que a memória delas incita a alma a
algum amor a Deus e contemplação, porém, muito mais incita e eleva
a pura fé e despojamento na obscuridade de tudo isso, sem saber a alma
como nem de onde vem".
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Evidentemente, afirma que a fé contribui para a contemplação muito
mais que qualquer visão. E um pouco depois aludirá clara e
expressamente ao aumento:
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"E assim como a fé se arraigou e infundiu mais na alma mediante
aquele vazio e obscuridade e despojamento de todas as coisas, ou
pobreza espiritual, que tudo é a mesma coisa, juntamente com a fé
também se infundiu e arraigou mais na alma a caridade de Deus. De
onde, quanto mais a alma quer se obscurecer e aniquilar em relação a
todas as coisas exteriores e interiores que pode receber, tanto mais se
infunde nela a fé, e, por conseguinte, o amor e a esperança,
porquanto estas três virtudes teologais sempre andam juntas".
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O texto citado reflete claramente a doutrina teológica comum sobre o
aumento simultâneo de todo o organismo sobrenatural, referindo-se
concretamente ao aumento das virtudes teologais, que, por sua profunda
ligação, crescem ao mesmo tempo: quando a fé cresce, cresce
também a caridade, e cresce a esperança, e crescem todas as forças
de que dispõe a alma para a união com Deus.
Relativamente às questões que estamos pesquisando, tem um valor
peculiar a passagem em que explicitamente se afirma que a fé aumenta na
noite ativa:
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"mediante aquele vazio, e trevas, e despojamento de
todas as coisas".
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Ou seja, a abnegação, posta em ato durante a
noite ativa do espírito, faz crescer a fé. Já conhecemos a índole
dessa abnegação: priva o entendimento das formas intencionais que lhe
são conaturais. Por essa privação, por essa abnegação
intelectual, cresce a fé. A conjuntura de ambos os aspectos nos
sugere que, segundo o pensamento do Doutor Místico, os atos de
abnegação procedem da fé. Certamente falta uma premissa: a virtude
aumenta ou cresce pelos atos próprios. Em vão buscaremos essa
premissa, da mesma forma que a teoria subjacente do 'habitus', nas
obras do Doutor Místico; não se encontra de maneira explícita.
Isto é facilmente compreensível. Como observamos mais de uma vez,
não tentou fazer afirmações especulativas, e por isso não se deve
busca-las. É suficiente a conexão expressa que põe entre a fé e a
noite ativa do espírito; dela deduzimos que São João da Cruz
atribui à fé uma intervenção direta no ato da abnegação
intelectual.
Trata-se, na verdade, de algo novo e adicional, embora não
estranho ao que se disse a propósito de Subida II 3.
Em Subida II 3, depois de refletir sobre a incapacidade do
entendimento, embora ajudado pela luz da fé, para penetrar e fazer
inteligível as verdades divinas, o ato de fé se reduz
psicologicamente a um consentimento firme, revestido de absoluta
certeza. Esse consentimento, segundo vimos, é positivo - pela
certeza que a luz divina lhe outorga, sobretudo pela adesão
conseqüente do entendimento à Divindade 'não-vista' - e, ao
mesmo tempo, implica uma insuficiência total do entendimento para
assimilar as realidades divinas. Podemos, portanto, concluir que o
"consentimento" de que fala Subida II 3 eqüivale a uma
assentimento intelectual ao 'não-visto'.
Pois bem, na atividade da noite do espírito podemos encontrar sem
dificuldade semelhantes atos; não no mesmo sentido de Subida II
3, mas sob idêntica razão formal. O motivo último de abnegar
qualquer espécie de "apreensão natural e distinta" é que se trata
sempre de algo proporcional à capacidade própria do entendimento, de
algo que lhe é conatural; e nada divino pode ser reduzido a essa
ordem, nem, por conseguinte, apresentar-se ao entendimento sob uma
modalidade distinta e particular. A Divindade são pode, em
absoluto, ser 'vista' pelo entendimento humano neste estado de viador
[40]. E esta é a razão determinante da abnegação; em tal
estado, o entendimento não pode 'ver' Deus; por conseguinte,
quando se adere a algo de fato 'visto', não se adere a Deus: na
verdade, se saiu do caminho de união. De onde, sucedendo nas
"apreensões distintas" uma adesão a algo visto - diferente delas
segundo a natureza -, seja necessário, se quiser voltar ao caminho
ou manter-se nele, a abnegação pela fé. Tal é, a nosso
entender, a natureza da atuação da fé na noite ativa do espírito.
A análise demonstra o fundamento de semelhante atribuição, já que
à fé deve-se atribuir as abnegações próprias da noite ativa do
espírito, como se demonstrará por outros elementos que intervêm
efetivamente na noite.
Por outro lado, uma vez que estamos seguros ou certos da atividade da
fé na noite ativa do espírito, podemos precisar melhor a índole
dessa atividade. Segundo vimos, a função essencial da fé consiste
na adesão ao 'não visto'; não obstante, há um aspecto novo nele
que convém fixar: o "consentimento" traz uma resignação ou entrega
do entendimento a Deus; deslumbrado pela luz excessiva, se rende em
fé. Consente. Neste sentido deve ser interpretado o texto de
Subida II 3. Porém, considerando o tema de outro ponto de
vista, observamos que a excessiva intensidade da luz da fé em qualquer
ato da noite espiritual potencializa o entendimento para superar sua
natural aptidão em relação às coisas particulares e distintas e para
transcender-se projetando-se em Deus. Isto, naturalmente, inclui
uma forte abnegação, medular no conceito sanjoanista de "noite"
(cf. Subida I 3).
A análise colocou em relevo este aspecto essencial da fé como
"assentimento ao não visto" e como reluz, em meio às dificuldades e
perigos da noite do espírito, a íntima proporção ao divino causada
pela fé.
Ainda que não pudéssemos encontrar no texto sanjoanista outras
indicações sobre a atividade das demais virtudes na noite ativa do
espírito, não seria pouco descobrir sua dependência e sua conexão
com a fé; as passagens analisadas tornam patente um aspecto novo e
pouco conhecido desta virtude. O que não parece justificado é
estabelecer, com base nos textos, a questão em um esquema
programático do seguinte teor:
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1) do hábito da fé;
2) dos atos da fé.
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O problema que ainda aguarda exploração analítica - a saber, qual
é a estrutura interna do ato da fé segundo o Doutor Místico - não
pode ser resolvido somente com os dados anteriores. Tampouco a
pergunta: Onde, em que potência, se enraíza a abnegação e quais
são suas características? São João da Cruz se refere a tudo isto
em termos muito gerais, como "não querer", "não admitir",
"negar", "obscurecer", e outros parecidos. É verdade que, ao
começar o tratado da noite, o Doutor Místico fixa os limites da
abnegação. Lemos em Subida II 7:
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"Esta, por certo, há de ser como uma morte e aniquilação
temporal, e natural, e espiritual em tudo, no apreço da vontade, na
qual se encontra toda negação".
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Manifesta aqui que o mais íntimo e mais elevado da abnegação se
refere à vontade. Porém estamos ainda muito longe de determinar a
estrutura própria da dinâmica da fé descobrindo apenas sua
intervenção nas 'abnegações' típicas da noite ativa do
espírito. Sabemos, sim, que o essencial desta noite pertence à
fé; mas não temos conhecimento suficiente de outros fatores que
colaboram com ela e da contribuição própria da cada um. Sabemos que
estão presentes e que crescem ao lado da fé; porém qual seja sua
participação, não podemos determinar pelos textos. A única coisa
que talvez possamos afirmar é que toda a atividade da fé se ordena à
caridade. Segundo o que dissemos mais acima, a noite ativa do
espírito cai dentro do caminho da união e conduz a ela; pois bem, a
virtude unitiva é, propriamente falando, o amor. Por conseguinte,
a fé, ainda admitindo seu enorme influxo - tão bela e agudamente
destacado por São João da Cruz -, não seria meio de união se
não estivesse informada e dirigida pela caridade. Isto parece claro
já desde os primeiros capítulos de Subida; assim, em I 2, onde
se afirma que a fé é meio de união, "de trânsito", não
excluindo, porém, a caridade. Em outro lugar explicita mais
cabalmente essa afirmação, aduzindo a razão determinante da
subordinação da fé à caridade; diz na epígrafe de Subida II 9:
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"Como a fé é o meio próximo e proporcional ao entendimento para que
a alma possa chegar à divina união de amor".
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Cada virtude cumpre uma missão própria: a alma se une por amor;
para isto coopera necessariamente a fé na potência intelectual,
fazendo-a meio próximo e proporcional de união. De fato, quando na
noite ativa do espírito, o entendimento sob o impulso e a atividade da
fé viva sofre quanto a suas exigências naturais da renúncia, o valor
desta renúncia redunda em favor do amor, facilitando a união da alma
com Deus, a transformação participada em Deus. Fica, pois,
muito claro que a fé, enquanto raiz da abnegação intelectual,
coopera com a função da caridade. Ouçamos o que o Doutor Místico
diz em Subida III 8,5 falando das 'apreensões claras e particulares':
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"[...] tudo quanto elas são em si mesmas não contribui tanto
para aumentar o amor de Deus na alma quanto o menor ato de fé viva e
esperança que se faz no vazio e na renúncia de tudo".
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As palavras 'contribuir para o amor de Deus' são a chave luminosa
que abre o sentido do texto citado. A fé ajuda a caridade, enquanto
raiz da abnegação do entendimento, em sua tendência natural a
perceber clara e distintamente as formas dos objetos. A razão de ser
e a trama da "noite" levam à mesma conclusão: a noite é um
postulado do amor, uma exigência sua para impedir que nada criado se
apodere da vontade, excluindo, por amor de si, o amor de Deus, e,
como conseqüência, a união transformadora. Neste sentido, a fé
ajuda a caridade a realizar a união.
Também fica claro que a fé que impõe o exercício da abnegação
depende, em última instância, da vontade, segundo se deduz da
doutrina de São João da Cruz. Aqui se fundamenta, como sua
última razão de ser, a "noite". Vimos isto em Subida I 3 e,
sobretudo, em I 4 ao considerarmos a "noite" em geral. Mais
terminantemente o repete em Subida III 34,1:
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"[...] o entendimento e as demais potências não podem admitir
nem negar sem que intervenha a vontade".
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O texto toca vivamente no problema, indicando a parte que corresponde
à vontade na abnegação própria da noite ativa do espírito.
Indica, ademais, qual é o sentido exato das passagens citadas
anteriormente: como o ato da abnegação - "se faz no vazio e na
renúncia de tudo" - é um ato da fé viva, e coopera com a
caridade, que impulsiona e realiza a união. Pois bem, se tal ato
depende, em última instância, da vontade e esta está subordinada ao
amor, segue-se que existe conexão entre o que se passa no
entendimento (a abnegação da forma particular, abnegação imposta
pela fé) e o que se passa na vontade, onde a renúncia de uma coisa
implica a aceitação de seu oposto. A noite aparece, pois, como uma
exigência da união. A vontade 'move' - usaremos este verbo, em
harmonia com o que diz Subida III 34,1 - à abnegação da
forma particular que é conatural ao entendimento; então se deixa
penetrar mais profundamente pela forma oposta, adere-se a ela mais
fortemente e por ela é informada mais totalmente. Tudo isto é o que
implica a frase 'ajudar o amor de Deus' [41].
Porém devemos também observar que a fé de que aqui se fala é a fé
viva, como nos recorda o Doutor Místico em Subida III 8,5.
De fato, em toda a obra de São João da Cruz não se fala de
outra, segundo afirmou no início, em Subida I 2,3: "fé não
excluindo a caridade". Devemos ter isto sempre presente. Embora os
textos submetidos a análise se ocupem só da fé - da fé formada,
sem dúvida alguma -, e não trate neles (por exemplo em Subida II
3 e II 8,9) de como ajuda à caridade. Aqui, ao contrário,
sim. Antes tratou da fé vivificada pela caridade; agora, da vida da
fé pela caridade. E isto implica a atuação da vontade.
Para entender melhor, recorremos a um texto curioso de Cântico ;
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"A fé, simbolizada pelo olho, reside no entendimento que crê e na
vontade que ama"
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Refere-se, evidentemente, à fé que vive pela caridade, à fé que
recebe do amor um íntimo e contínuo influxo e a modalidade de sua
união com Deus.
É preciso sublinhar bem este ponto, porque não vamos achar mais
textos que nos falem da fé vivificada pela caridade, senão somente da
vida da fé em caridade.
Perguntemos finalmente: De todos os textos analisados sobre a
atividade da fé na noite ativa do espírito, podemos tirar algum
elemento de juízo sobre a estrutura psicológica da fé?
Parece que não. Porque, em primeiro lugar, o que se demonstrou é
que na noite ativa do espírito ocorre uma 'atividade' efetiva da
fé, de maneira que o essencial da noite é tecido por atos de fé.
Em segundo lugar, estes atos têm como característica especial, ser
atos de abnegação do entendimento submetido à fé. Em fim, os atos
de abnegação, embora se realizem em outra potência, dependem
necessariamente da vontade, segundo ensina o Doutor Místico.
Portanto, os atos de abnegação da potência intelectual - têm
lugar durante a noite ativa do espírito e são produzidos pela fé -
dependem, em última análise, da vontade, já que o entendimento
nada pode rechaçar, nem admitir tampouco, sem a intervenção da
vontade.
Tudo isto gira em torno da questão que propusemos, porém não é
bastante para induzir elementos concretos a cerca da estrutura
psicológica do ato de fé, isolando o que corresponde ao entendimento
e o que corresponde à vontade.
Poderíamos dizer que os elementos que buscamos estão insinuados,
mesmo latentes, na doutrina de São João da Cruz. Porém isto
não basta para deduzir conclusões resolutivas. Na realidade, o
Doutor Místico não se propõe a resolver esta questão. É certo
que fala da natureza da fé e inclusive, em certo sentido, do aspecto
metafísico, da índole da mesma como 'hábito obscuro', mas não da
estrutura psicológica do ato de fé. As fugazes sugestões que faz a
este respeito se referem a outro problema: a íntima relação - de
contato e de mútuo influxo - entre fé e amor no caminho da união.
Vamos nos ocupar disto em seguida.
Em suma: São João da Cruz insiste em afirmar a intervenção da
vontade na abnegação que a fé impõe ao entendimento. Como se
observa imediatamente, tudo isto pertence, total ou particularmente,
à esfera do amor, e, por esse lado, pouco ou nada se pode induzir
direta e concretamente sobre a estrutura psicológica do ato de fé.
Nunca aparece tratado 'ex professo' nas obras de São João da
Cruz este aspecto, embora sempre fale da fé ativa. Por outro lado,
a atividade da fé não aparece separada da atividade das demais
virtudes, de maneira que seja possível individualizar sua ação
específica. Tal é, sem dúvida alguma, o caso da noite ativa do
espírito; tal também, embora em outro sentido, o caso da
contemplação. Daqui se poderá, talvez, induzir algo sobre a
natureza e a atividade próprias da fé. Mas, no geral, como teremos
ocasião de precisar na análise das obras seguintes, descreve em
conjunto a dinâmica de todas as energias sobrenaturais que intervêm no
caminho da união. E isto estreita as asas de nossa pesquisa.
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