8. A FÉ NA NOITE ATIVA DO ESPÍRITO.

Incidentalmente já falamos que a noite própria da fé é a noite ativa do espírito, que constitui o tema fundamental do livro II de Subida. Também dissemos que a análise deste tema nos permitirá isolar a operação própria da fé e sua contribuição à união. Quando mais acima, ao longo de Subida II 8, tratávamos da fé enquanto meio proporcional de união, a considerávamos em seu aspecto estático. Era um estudo de sua entidade; isto é, respondíamos à pergunta: o que é?, qual é sua índole ontológica?

Tal apresentação nos pareceu justa e primária para nosso ponto de vista, embora não fosse essa a hierarquia de questões no texto do Místico Doutor.

Suposto, pois, o fundamento entitativo, podemos passar já à projeção dinâmica: como a fé realiza a união. Seu dinamismo próprio se desenvolve no caminho de união, com a meta à vista. E todos os elementos que colaboram durante o caminho devemos encontrar não de um modo abstrato, mas ativos no processo unitivo. Abrem-se a nosso conhecimento precisamente por seu lado operativo. E a partir dele poderemos também investigar melhor a natureza da fé, porque o modo de agir procede do modo de ser. Brota de sua íntima natureza e o "descobre".

Mas para compreender em profundidade a noite ativa convém observar que o Doutor Místico, ao passar da uma consideração geral da fé como meio de união para a consideração específica de seus elementos particulares, traça, em Subida II 10, um claro panorama dos distintos modos de estar as coisas no entendimento como matéria cognoscível. Ao longo da obra do Doutor Místico recebem diversos nomes. Porém os principais são apreensões, notícias, inteligências, palavras quase sinônimas quanto a seu significado.

A distinção é feita por eliminação. Antes de tudo, distingue uma dupla via pela qual o entendimento recebe suas 'notícias': a natural e a sobrenatural. Chama natural o caminho no qual o entendimento pode andar com seus próprios pés, ou seja, por sua capacidade natural, adquirindo 'notícias' ora diretamente através dos sentidos, ora mediante o trabalho interno (neste caso, segundo a teoria do conhecimento seguida pelo Doutor Místico, também com a ajuda remota ou indireta dos sentidos). E chama sobrenatural ao que está acima da capacidade natural do entendimento; trata-se, pois, de 'notícia' que nunca se pode obter por via natural - segundo a explicação dada em Subida II 3,2 -, de 'notícias' que não caem dentro da experiência sensível: são 'notícias', diz o santo Doutor, recebidas por via sobrenatural.

Pois bem, entre as 'notícias' que chegam por via sobrenatural devemos distinguir vários tipos:

- umas que, embora tenham chegado por via sobrenatural, se percebem através dos sentidos, externos ou internos; chama-as 'sobrenaturais corporais';

- outras que, por chegar ao entendimento sem a intermediação dos sentidos, são diretamente percebidas; são as imediatamente sobrenaturais, e são chamadas 'espirituais'.

Estas últimas podem ainda se subdividir em duas classes: primeira, notícias distintas e particulares; segunda, notícia confusa, obscura e geral.

Na primeira há quatro espécies: visões, revelações, locuções e sentimentos espirituais; a segunda é única:

"a inteligência obscura e geral está em uma só, que é a contemplação que ocorre pela fé".

A simples observação da enumeração classificada e, sobre tudo, da subsequente exposição, mostra claramente que o Doutor Místico fala 'sobrenatural' do ponto de vista causal, não do ponto de vista dos conteúdos. Também se observa claramente o caráter experimental e indutivo da obra sanjoanista. Cuida-se muito de propor nesta linha, prescindindo já da noção de fé, explicada anteriormente, a dinâmica da união em fé, que é o tema que desenvolve ao longo de 22 capítulos (Subida II 10-31), nos quais inclui também duas questões muito interessantes para nós, e das quais teremos que nos ocupar sucessivamente; a saber:

1ª A função da fé na noite ativa do espírito, na qual descarta todas as 'apreensões' e 'moções' que não servem para unir o entendimento com Deus.

2ª "A inteligência obscura e geral, que é a contemplação que se dá pela fé"; ou seja, o conhecimento que o entendimento, dentro de dimensão própria dos conteúdos da fé, porém com o auxilio estimulador das outras forças sobrenaturais, pode alcançar nesta vida. Contudo, a segunda questão - devemos observar - nos interessa só enquanto nos ajuda a ilustrar alguns pontos da natureza íntima da fé. Nunca devemos perder de vista os motivos pelos quais São João da Cruz insiste tanto na necessidade absoluta da noite para a união da alma com Deus. O primeiro motivo achamos em Subida II 8,3, onde compara Deus e a criatura, e conclui: nenhuma criatura pode se comparar com Deus, porque a realidade divina dista e se diferencia infinitamente de qualquer realidade criada considerada em si. O segundo motivo em ordem lógica, não cronológica, aponta em Subida I 3 e, sobretudo, em Subida I 4: a união se realiza por informação e participação da Divindade na alma, segundo se diz em Subida II 5; pois bem, entre Deus e a criatura não há proporção natural, e, portanto, tampouco composição ou união.

Por que?

O Doutor Místico responde: Porque o nexo operativo de união é o amor. E então encontramos um terceiro motivo ou razão para a noite: o amor é, de seu, transformador, já que produz igualdade entre o amante e o amado, assume intencionalmente a forma deste, aprisiona a vontade, a entrega. O que eqüivale dizer que se une ao amado, que se transforma, de certo modo, nele. E neste sentido se diz que o amor é exclusivo.

Das três premissas ou razões anteriormente expostas deriva, lógica e irremediavelmente, a "noite", enquanto significa privação ou negação do apetite a tudo o que não é Deus. Sob este aspecto cai dentro da exclusividade do amor, pois impede que qualquer outra forma criada e natural seja apetecida. Se considerarmos o raio de ação natural do amor, segue-se a 'adequação' da alma às criaturas e, então, se exclui necessariamente sua assimilação a Deus, e, por conseguinte, a união íntima ou, pelo menos, a tendência iniciada no amor até a transformação participada. Neste sentido, pois, a "noite" pertence ao amor.

Sem dúvida, intervém a fé, e com ela diríamos que a "noite" se duplica. A fé, com efeito, põe em comunicação com Deus, porém precisamente como "noite".

A "noite" da fé significa que o entendimento alcança a essência divina pela fé, sem apoiar-se já em sua luz específica natural; a luz da fé o une à Divindade, porém não o transforma intrinsecamente, que é o que se logra na visão.

Deste modo, a fé implica, ao ocorrer nela luz e obscuridade, condição de "noite" ou de não-visão e ao mesmo tempo dirige e alimenta a "noite" como fase necessária para chegar à união. A fé, pois, embora não consiga aferrar no entendimento a forma divina e goza-la, sem dúvida, como já antes esforçamo-nos em demonstrar, introduz no entendimento certa 'medida' ou proporção com Deus, no sentido de que não confunde o divino com o criado e não adultera a Deus com nada do que consegue ou pode conseguir pelas próprias forças naturais.

Como acontece isto em particular, nos ensinará a experiência da "noite ativa do espírito".

Antes de passar adiante devemos examinar esta afirmação geral, que achamos em Subida II 4:

"[...] como a fé é obscura noite para a alma, e como também a alma há de ficar na obscuridade e privada da própria luz natural, para que pela fé se deixe guiar a este alto término de união".

"Guiar" eqüivale a dirigir, conduzir. Portanto, a fé dirige a alma à união. Dirige-a em trevas são só no que concerne à parte sensível e inferior, mas também pelo que se refere à parte superior: "se há de cegar e obscurecer segundo a parte que diz respeito a Deus e ao espiritual, que é a parte racional e superior".

Se lhe perguntarmos por que, nos responderá rapidamente:

"Porque para que uma alma chegue à transformação sobrenatural, é claro que há de se obscurecer e se transpor a tudo o que contem o seu natural, que é sensível e racional".

Retorna sempre à raiz primeira da transformação, e exige, para que esta seja conseguida, transpor não só a área sensitiva, mas inclusive a racional. A união se realiza não no plano natural, mas no plano superior ou sobrenatural. Basta fixar-se no significado etimológico das palavras: "Porque sobrenatural quer dizer passar acima do natural". E conclui: "Logo o natural fica abaixo", ultrapassado pela fé.

O caráter absolutamente sobrenatural da união transformadora determina a índole do caminho e dos meios. Deve-se renunciar - "deve esvaziar-se" - a tudo o que cai dentro de sua capacidade natural, provenha de onde for, de cima ou de baixo, como se observa em Subida II 10 a propósito da divisão das apreensões.

Só então Deus pode fazer na alma o que quer. A fé é que mede e dirige a disposição da alma:

"Acercando-se da fé obscura, tomando-a por guia e luz, e afastando-se das coisas que entende, guia e sente e imagina. Porque tudo aquilo são trevas que a farão errar; e a fé é sobretudo aquele entender, e gostar, e sentir, e imaginar. E se por isso não é cega, deixando-se totalmente às escuras, não vem ao que é mais, que é o que ensina a fé".

Observa-se que não só diz que a fé se encontra acima de qualquer realidade natural conseguida ou possível de conseguir, mas também afirma que 'ensina'. Primeiro, pois, insinua sua ordem intrínseca para Deus, e logo, sua orcem objetiva para as verdades reveladas, nas quais, de algum modo, se apodera do divino.

A afirmação se prolonga explicativamente de outro modo. Partindo do axioma bíblico: "accedentem ad Deum oportet credere quod est" (Heb 11,6), traduz e declara:

"o que se for unindo a Deus, convém que creia em seu ser".

O que eqüivale exigir que não se una a nada que de Deus se possa imaginar, gostar, entender, por muito elevado que seja, nesta vida. E isto terá máxima importância ao falar e julgar as excelências da experiência mística. "Nada", dirá em cortante expressão. Porque qualquer coisa naturalmente perceptível, agradável e inteligível dista infinitamente de Deus e de sua pura possessão. Isto é o que quer dizer "entrar no abismo da fé".

Na verdade, nas afirmações precedentes está subjacente como fator essencial o conceito sanjoanista de fé. Esta explicação da "noite" tem sua estrutura e sua lógica intrínsecas. Eis aqui porque assevera que a fé duplica a "noite". Porém, por sua vez, a fé explica a "noite", pois se o amor exige "noite" da vontade - não aconteça que, atraída pelas coisas naturais, volte a elas -, a fé acrescenta outro motivo: Deus não é comparável a nenhuma criatura, e, portanto, todo o natural deve ser desprezado se quisermos chegar à união divina. A fé veta que as criaturas tomem o lugar de Deus.

Por outro lado, a fé faz compreensível a noite, enquanto, pela profundeza de sua natureza, por sua conexão intrínseca com Deus no entendimento e por sua proporção essencial à Divindade - não obstante sua obscuridade ou, melhor, em virtude dela -, não permite confundi-la com nada criado ou natural. Mantém-se em seus limites e estilo próprios, vinculando a alma unicamente a Deus.

"[...] neste caminho, o entrar no caminho é deixar seu caminho; ou, melhor dizendo, é passar ao término e deixar seu modo, é entrar no que não tem modo, que é Deus. Porque a alma que chega a este estado, já não tem modo ou maneiras, nem ao menos se apega ou pode apegar-se a eles, isto é, não mais se prende ao próprio modo de entender, nem de gostar, nem de sentir, embora em si encerre todos os modos, como quem nada tendo, tudo tem. Porque, tendo ânimo para passar de seu natural limitado interior e exteriormente, entra em limite sobrenatural que não tem modo algum, tendo em substância todos os modos".

Subida II 4, 5

Tudo isto se encerra na formidável expressão 'abismo de fé'.

Expressões como as citadas moveram Baruzi [37] a afirmar que a fé, na doutrina de São João da Cruz, é concebida como 'universalização do entendimento', segundo a fórmula verbal de Dom Chevalier [38].

É provável que os textos sanjoanistas, tomados isoladamente, possam ser interpretados assim. Não obstante, no conjunto se percebe outro fator, ao qual Baruzi não prestou a devida atenção: a causa de que na fé apareça o aspecto acima se deve ao fato de ultrapassar o término natural do entendimento e seu ingresso no âmbito do sobrenatural. Um âmbito, pois, essencialmente divino. Ao penetrar nele, a fé já tem força para nos levar a Deus [39].

Pois bem, esta força não pertence à capacidade natural do entendimento. Pelo contrário, o Doutor Místico afirma reiteradamente: quanto mais a alma em fé se adentra em Deus, tanto maior é a noite, que resulta no entendimento como reação à luz excessiva.

Não se dá, portanto, uma "imanente elaboração" do divino, como sugere Baruzi, senão a inserção na ordem sobrenatural mediante a graça. O entendimento resulta transbordado, e não por si mesmo, mas em virtude da íntima e extrinsecamente sobrenatural proporção ao divino, da qual o entendimento participa pela fé e da qual se vai fazendo cada vez mais consciente e experto ao ritmo do desenvolvimento vital da fé.

Do anterior se infere que a "noite" é guia para compreender o tema da fé na obra de São João da Cruz. Analogamente, o exame atento de Subida II 4 nos introduz ao estudo particular da noite ativa do espírito, na qual a fé desempenha um papel tão decisivo. Na trama da noite ativa do espírito analisaremos cuidadosamente as 'notícias', 'apreensões' e 'inteligências' que constituem a matéria do conhecimento particular. E o analisaremos não sob um prisma especulativo e crítico, embora não se prescinda dele, mas tendo presente a índole experimental, prática e normativa da fé; o examinaremos, em fim, na bigorna da experiência, sem esquecer que a fé, por sua íntima condição, é 'semelhança' e meio de união com Deus.

Estabelecida a divisão das apreensões, o Doutor Místico trata, como vemos em Subida II 10, de todas aquelas coisas que podem chegar ao entendimento por via sobrenatural, o que não exclui que algumas vezes interessem aos sentidos tanto exteriores quanto interiores. Sua sobrenaturalidade se refere somente ao modo de adquiri-las; a saber, não mediante o trabalho cognitivo natural, mas à margem dele. Talvez se possa reduzir, para compreende-las melhor, estas 'noticias' e 'apreensões' distintas e particulares a 'espécies'. Sem dúvida alguma, todas elas, ora as puramente espirituais, ora as que chegam ao entendimento pela via dos sentidos, implicam um modo distinto e particular para o Doutor Místico, isto é, limitado e certo, de conhecer, a que imediatamente se opõe a

"inteligência obscura e geral [...] que é a contemplação que se dá na fé".

A distinção contrapõe o conhecimento particular ao geral. E este é atribuído à fé. Em Subida II 10 começa a parte 'prático - mística', que é aplicação de toda a doutrina da fé exposta na parte anterior, e que, de alguma forma, qualificamos de 'especulativo - mística'. Poderíamos dizer que, estabelecidas as bases ou princípios, agora São João da Cruz inicia a solução dos "casos místicos", tomados da própria experiência ou da experiência alheia; esta pode proceder ou de conhecimento pessoal ou simplesmente de leitura de livros que tratam destes temas.

O método de análise dos casos concretos seguem esta ordem: primeiramente refere a 'notícia particular', logo estuda sua natureza e por último determina como deve se comportar para que não se converta em obstáculo ou detrimento da união divina.

Assim, em Subida II 11, apresenta o caso das "apreensões do entendimento por via daquilo que sobrenaturalmente se apresenta aos sentidos corporais exteriores". E o exame consiste em averiguar o que são. Pergunta então: Podem vir de Deus? Não nega a possibilidade, porém aumenta a precaução. Ao fim indaga seu valor relativamente à união, aplicando critérios extremamente cautelosos e restritivos, com a mesma lógica e severidade que nos outros casos. Sua norma prática é inequívoca: nem deixa-las e nem busca-las. Por que? Por muitos motivos, todos eles relacionados com o tema essencial da união da alma com Deus: antes de tudo essas 'apreensões' são algo essencialmente corporal, estão radicadas em uma potência corporal e são muito diferentes de tudo o que é puramente espiritual. Comparadas com a fé, seu valor é mínimo. O melhor, portanto, é renunciar a elas em favor da fé. Eis aqui como justifica este motivo capital:

"primeiro, porque lhe vai diminuindo a fé; porque muito prejudica a fé o que se experimenta sensivelmente. Porque a fé, como dissemos, ultrapassa todo o sentido".

Caem por terra ante a pureza e a beleza da fé, que da origem a uma íntima proporção entre o entendimento e a Divindade. O Doutor Místico, portanto, não nega a possibilidade de sua proveniência divina, nem tampouco diz que não devem apetecer, porque são substancialmente ilusões; não, não é isto o que conclui. O que faz é vê-las no plano da união, que anteriormente fixou com sumo cuidado. E vistas neste plano descobre sua dimensão natural, inclusive corporal; ainda que provenha de Deus, aparece ao homem de um modo conatural a ele, não a Deus. Por conseguinte, embora se enraízem prontamente e agradem, não são, por si, vantajosas para a união por sua configuração natural ou humana e pelo impacto afetivo que ocasionam na vontade. Vistas em sua contextura humana, naturalmente conseguidas e apetecidas, e comparadas com a fé, que é o meio próprio de união e a qual dá a 'semelhança' divina ao entendimento e a 'proporção' ao divino, vê-se logo sua escassa utilidade, seu pouco serviço. E, com base na comparação, decide-se pelo abandono, por não apetece-las nem busca-las.

Eis aqui a solução do caso e as razões porque optar pela negação.

É digno de se sublinhar como chega a esta solução. O Doutor Místico fundamenta seu conselho no seguinte raciocínio: se são de Deus, então não há dúvida de que Deus quer causar com elas na alma algum efeito espiritual; porém - e isto é muito importante - tal efeito se produz "sem diligência ou habilidade" do homem, "porque é coisa que se faz e opera passivamente no espírito". Portanto,

"não consiste em querer ou não querer, para que seja ou deixe de ser".

Deste modo deduz da experiência as leis que regulam a ação divina na alma. E, ademais, a mesma experiência fornece o princípio da não intervenção ativa. Por que? A nosso ver, se acatarmos as robustas afirmações de Subida II 4 e 7, a razão é obvia: porque ao intervir uma potência ativa após o que é divino e sobrenatural, o faz a seu modo humana e necessariamente natural.

Este é o primeiro princípio prático, determinante. O segundo deriva do primeiro: "não recebe tão copiosamente o espírito que causa, o qual se imprime e conserva mais negando todo o sensível, que é muito diferente do puro espírito". Ainda supondo que a 'apreensão' fosse causada por Deus para aumentar o grau de graça e de amor - e, em conseqüência, a união -, teríamos em ação algo sensível: porém não se trataria de uma ação direta, já que o que esse sensível faz diretamente é uma adaptação ao modo humano. Ao mesmo tempo, o homem possui em sua parte intelectual a fé, que o 'proporciona' intrinsecamente ao divino e é o meio próprio da união, e que, portanto, ensina-lhe a desprender-se do sensível, que, de seu, nenhuma semelhança tem com Deus. Na negação ou eliminação do sensível realiza a fé uma função peculiar. Por conseguinte, na negação ou eliminação do sensível realiza a fé uma função e uma ação que corresponde intimamente a sua natureza.

Temos assim um exemplo de como se resolve um 'caso místico' na praxis da noite ativa do espírito. Talvez o 'caso' pareça fácil de resolver, já que sua chave é descoberta prontamente. Não obstante, retenhamos na memória a fina maneira de aplica-la.

Casos mais difíceis serão apresentados. Porém estes não são abordados imediatamente, já que o segundo tipo de 'apreensões' pertence ainda à ordem do sensível, ou seja, às 'apreensões' que são percebidas mediante os sentidos interiores.

Em Subida II 12 expõe o Doutor Místico seus pontos de vista sobre a imaginação e a fantasia e prepara ao mesmo tempo o terreno para os capítulos seguintes, explicando como as potências sensitivas interiores colaboram no exercício da meditação discursiva. Por sua vez, em Subida II 13 -15 faz a famosa análise da "passagem" da meditação para a contemplação, assunto do qual nos ocuparemos mais tarde. Encontramos logo Subida II 16 "em que se trata das apreensões imaginárias que sobrenaturalmente se apresentam na fantasia". A este propósito, ensina que, como no caso anterior, as "comunicações espirituais [...] vêm envoltas nas formas, imagens e figuras" que já conhecemos - isto é, as figuras sensíveis e humanas -, que, portanto deve observar a norma prática apontada: a fé há de superar todo o sensível, próprio do conhecimento humano, eliminando-o, negando-o, não o buscando, para estar atenta somente ao espiritual, pois

"o espírito [...] é que leva à união na fé, a qual é meio próprio".

Em Subida II 23 trata de "as apreensões do entendimento que são puramente por via espiritual". Denomina-as 'espirituais' porque se comunicam imediatamente à parte espiritual da alma sem a mediação dos sentidos, tanto externos quanto internos. Pode-se também chama-los, e é o mais comum, 'visões intelectuais':

"aos olhos espirituais da alma, que é o entendimento, tudo o que é inteligível causa visão espiritual; pois, como dissemos, o entende-los é vê-los".

Não obstante, tais apreensões se apresentam ao entendimento configuradas pelos cinco sentidos; de onde o que se faz presente ao entendimento a maneira de coisa vista - ou seja, o que o entendimento recebe como coisa que entra pelos olhos - chame-se 'visão', e 'locução' o que chega como coisa ouvida, e 'revelação' o que lhe chega como coisa 'inaudita', e, em fim, 'sentimento espiritual' o que se parece ao que acode aos demais sentidos.

Note-se que dissemos 'a modo' e não 'por meio' (per viam), porque, de fato, trata-se de coisas representadas imediatamente no entendimento por via sobrenatural, tendo somente como auxílio a modalidade do que o entendimento recebe pelos sentidos.

A norma prática aparece rapidamente em Subida II 23:

"Destas, pois, também nos convém desembaraçar aqui o entendimento, encaminhando-o e dirigindo-o através delas, na noite espiritual da fé, à divina e substancial união com Deus".

É a resposta esperada, a qual não impede que o Doutor Místico diga um pouco depois:

"estas são mais nobres apreensões, e mais proveitosas, e muito mais seguras que as corporais imaginárias, porquanto são já interiores e puramente espirituais e menos acessíveis ao demônio, porque elas são comunicadas à alma de modo mais puro e sutil, sem nenhuma cooperação dela nem da imaginação".

Contudo, a norma prática é idêntica à que apontou anteriormente: deve-se prescindir delas para seguir caminhando na fé que atua na noite, pois por sua íntima proporção com o divino está acima de tudo o que, de qualquer maneira, se pode sentir pela experiência, que pode por em jogo e em ação as potências naturais do homem, por muito purificadas que estejam. Somente a fé é para o entendimento meio de união verdadeira e própria com Deus, e excede, sem comparação alguma, todo o criado natural. E, por isso, a fé é melhor que qualquer fruição mística, por elevada que esta seja.

Não é possível aqui alargar a análise a todos os detalhes dos textos sanjoanistas. Talvez saíssemos de nossos propósitos. Porém vamos nos fixar nos mais importantes.

Entre outros, o primeiro que se nos apresenta aos olhos é o que diz a propósito das 'visões': que podem versar acerca de substâncias corpóreas ou de substâncias incorpóreas, segundo Subida II 24. Estabelece imediatamente o princípio que será capital para definir a natureza da experiência mística: as coisas incorpóreas - prepara - não podem ser vistas pelo entendimento nesta vida, porém

"pode-se sentir na substância da alma, com suavíssimos toques e juntas, o que pertence aos sentimentos espirituais".

Parece que o termo 'substância' perdeu aqui seu significado escolástico e que se usa, adaptando-o, para expressar um estado ou situação mística. Pelo que nos concerne, achamos um texto claríssimo:

"estas visões, porquanto são de criaturas, com quem Deus nenhuma proporção nem conveniência essencial tem, não podem servir ao entendimento de meio próximo para a união com Deus. E assim convém a alma fazer-se puramente negativa a elas [...] para ir adiante pelo meio próximo que é a fé".

Mais ainda, afirma que semelhantes visões podem excitar a alma ao amor de Deus, porém muito mais a excita a fé que se enraíza mais profundamente com a negação das espécies criadas, inclusive as mais sublimes.

Continuando a matéria, trata de outros pontos que necessariamente teremos que citar e analisar mais abaixo, porque contêm a doutrina sobre o aumento simultâneo da fé, da esperança e da caridade.

No capítulo 25 de Subida II começa a tratar das 'revelações', distinguindo-as nas que chama "notícias intelectuais" e as que denomina "manifestações de segredos e mistérios ocultos de Deus".

A primeira série é de elevado apreço, pois

"são notícias do próprio Deus e deleite do mesmo Deus [...]: procedem diretamente de Deus, manifestando de maneira sublime algum atributo de Deus".

Nesta passagem de Subida II 26,3 sente-se já odor e sabor da Chama. Estas notícias são "pura contemplação",

"são a própria união, porque consistem em um certo contato da alma com a Divindade, e assim o próprio Deus é então sentido e gozado",

dirá um pouco mais adiante, em Subida II 26,5.

Porém vamos omitir, no momento, tudo o que se refere à estrutura da solitária experiência mística. A alma avança pelo caminho da união sempre em companhia da fé. E nosso objetivo consiste precisamente em averiguar o comportamento da fé em relação a todas estas coisas. A fé é somente meio de união com respeito ao que abertamente se chama 'união' ou 'a parte da união'. Por isso, o modo de comportar-se a fé não pode ser repelir, mas dispor a alma para manter-se em humildade e resignação, sem aderir a essas 'notícias' como a uma propriedade. Tal é a justa medida que a fé deve observar nessa experiência da união.

O discurso prossegue em Subida II 26, referindo-se logo às revelações pelas quais se conhece, com certeza absoluta e sobrenatural, algumas realidades ocultas criadas; por exemplo, os segredos do coração. Tal infusão de ciência particular se dá, por beneplácito divino, principalmente a alguns santos que chegaram já ao estado de união. Dá-se a isso o nome de graças dadas gratuitamente (gratiae gratis datae). No que diz respeito à fé a norma prática do Doutor Místico assim reza:

"estas notícias [...] muito pouco proveito podem trazer à alma para ir a Deus se a alma se quiser agarrar a elas".

Subida II 26, 18

Por conseguinte, aconselha

"grande cuidado em nega-las sempre, querendo caminhar para Deus pelo não saber".

Subida II 26,18

O "não saber" expressa o modo típico da fé. E, na verdade, estas graças dadas grátis - em outras passagens enumera mais - podem valer, segundo a explicação do santo Doutor, para manifestar a união, porém não necessariamente; portanto, são extrínsecas à união mesma, e colocar o empenho em busca-las traria o risco de sair-se do caminho. O fim do caminho é a união; o meio apto, a fé.

A solução proposta é cabal se pensarmos e medirmos com precisão essas graças: quando se dão, se dão por beneplácito divino, e em geral - se bem que não necessariamente - supõem já a união. Basta, pois, não busca-las. E esta é a justa atitude da fé em relação a elas.

O valor intrínseco da fé é manifestado de modo diferente quando se trata, em Subida II 27, da espécie de revelação designada com a expressão "descobrimento de segredos ocultos". Desta espécie de revelação são os artigos da fé. Não são excluídas revelações ulteriores que se referem ao curso das coisas, tanto universais quanto particulares, nem as próprias verdades da fé enquanto suscetíveis de que seu conteúdo se manifeste de maneira mais profunda e essencial: "manifestação ou declaração do já revelado". Não obstante, o Doutor Místico mostra-se nesta matéria muito inclinado a admitir a suspeita de uma intervenção diabólica, sobretudo em se tratando de 'revelar' algo novo e diferente no campo da fé. O receio deve relacionar-se no contexto histórico dos 'iluminados', segundo dissemos na Introdução. Seu critério e sua norma, incessantemente proclamada, é recorrer nestes casos ao juízo e à doutrina da Igreja. No que diz respeito à fé, a função da Igreja não consiste somente na proposição objetiva, mas também no que toca à constituição intrínseca da fé, segundo a doutrina de São João da Cruz que exporemos mais abaixo. No momento basta observar como coloca sob o arco da fé esta espécie de comunicação sobrenatural e como impõe o recurso à autoridade da Igreja, ensinando que se deve crer nas verdades reveladas no sentido que a Igreja determina e propõe, não no sentido de qualquer revelação privada. Uma razão última e profunda para esta solução é dada no seguinte texto:

"convém à alma muito não querer entender coisas claras acerca da fé, para conservar puro e inteiro o mérito delas".

Algumas vezes fala o santo Doutor do mérito da fé, em ordem principalmente à consecução da união.

O terceiro tipo de "apreensões" sobrenaturais no caminho espiritual é constituído pelas "palavras interiores", das quais trata em Subida II 28-31. Distingue entre elas várias espécies: "palavras sucessivas", "palavras formais" e "palavras substanciais" (Subida II 29-31).

Expõe com grande clareza sua natureza, sua diferença e o modo de se fazerem vivas ao entendimento.

As "palavras sucessivas" são produto do entendimento, unido a alguma verdade sobrenatural; isto é, aplicado a ela sob o impulso diretivo do Espírito Santo, que o ajuda a formar novos conceitos extraídos da verdade contemplada; vê, pois, nessa verdade "as demais verdades que são relacionadas àquela que pensava". Não obstante, há possibilidade de errar, tanto por uma intervenção diabólica - São João da Cruz, mestre em experiências místicas, aponta os sinais para discernir quais são do diabo e quais são de Deus -, quanto pela capacidade limitada do entendimento para receber e seguir sem erro conceitos sucessivos, bem como, finalmente, por sua demasiada sutileza para forma-los por habilidade natural.

Embora detectando agudamente esses perigos e admitindo uma direção autêntica do Espírito Santo, o valor que atribui a essas locuções é, comparado com o valor da fé, muito pequeno. Disse-nos na seguinte passagem, à qual teremos que recorrer muitas vezes para que nos ajude, com sua força e sua luz, a resolver graves interrogações:

"[...] embora seja verdade que naquela ilustração de verdades ele (o Espírito Santo) comunica à alma alguma luz, porém é tão diferente a que recebe desta pela fé, sem entender claramente, quanto à qualidade, como é o ouro muito distante do mais vil metal; e quanto à quantidade, como excede o mar a uma gota d'água. Porque a luz do conhecimento particular comunica a sabedoria de uma ou duas ou três verdades, etc., e a luz da fé comunica toda a Sabedoria de Deus em geral, que é o próprio Filho de Deus que se comunica à alma na fé".

O texto citado não compara imediatamente as "palavras sucessivas" com a fé, mas com o conhecimento obscuro e geral - a contemplação - que se dá na fé. Logo seu pleno sentido aparecerá somente quando submetermos a uma análise mais profunda esse conhecimento. Aqui nos contentaremos em indicar a norma prática que flui do que foi dito a respeito das "palavras sucessivas": não se deve buscar, deve a alma continuar no "abismo da fé"; iríamos nos perturbar com coisas demasiadamente claras, concretas e de escasso valor. E a resolução parecerá obvia se tivermos em conta o valor objetivo de uma e outra coisa e a união intelectual que cada uma propicia.

De modo análogo expõe o Doutor Místico em Subida II 30 sua doutrina sobre as "palavras formais", contrastando-as com a fé, que constitui o "meio legítimo e próximo de união com Deus".

Quanto à terceira espécie - "palavras substanciais" -, que consistem em causar na alma o que dizem divinamente - por exemplo, quando Deus diz à alma "ama-me" -, a alma sente imediatamente em realização eficaz. Contudo, o juízo de valor que acerca delas dá o Santo é muito similar ao que deu, a propósito das "inteligências", em Subida II 26: Aconselha grande humildade e resignação. Nem repulsa nem busca. Quando Deus quiser dá-las serão muito frutuosas e ajudarão a fazer mais genuína a união.

A espécie seguinte das comunicações espirituais, enumeradas como 'distintas e particulares' em Subida II 10, não pertence direta e imediatamente ao entendimento, mas à vontade. São os "sentimentos espirituais" (Subida II 32); levantam-se na vontade, e deles transborda para o entendimento "apreensão e notícia e inteligência". São muito valiosos e contribuem para a união. Porém não se deve buscar, já que seria uma busca vã. Deus os dá quando e a quem quer. Nenhuma atividade natural do entendimento seria aproveitável para logra-los, antes destruiria a "saborosa inteligência sobrenatural". A fé, portanto, é que se encarrega de conservar a alma em humildade e passivamente resignada.

Depois da análise detalhada de todas estas 'apreensões' que são matéria da noite ativa do espírito, cabe perguntar o que se conclui desde já sobre a índole da fé. Aparece claramente que essa noite é sua noite própria. Isto se induz do fato, facilmente perceptível, de que todas as 'inteligências' e 'apreensões' que se deve desprezar são algo pertinente ao entendimento, ora por cair imediatamente em sua área, ora por estar ao menos ordenadas a ele. Porém ali - no entendimento - encontram a fé, e então, segundo mostra a análise, o critério que determina o juízo de valor e a norma do tratamento justo que merecem é tomado se sua confrontação com a fé e de seu serviço à união. A norma não é sempre idêntica, como vimos ao fazer as análises: algumas vezes, a fé postula repulsa; outras, submissão ao confessor; outras, ao recurso à pedra de toque do magistério da Igreja; outras, em fim, somente manter a alma em humildade e resignação quando Deus produz nela efeitos unitivos.

Há, na verdade, algo misterioso nesta confrontação da fé com todas essas 'apreensões'. Estas pertencem sempre ao entendimento ou se ordenam a ele; por sua parte, a fé é o meio próprio para a união intelectual com Deus, um meio que implica proporção íntima do entendimento com a Divindade. Portanto, seus atos dão testemunho de seu valor constitutivo, já que por eles toda a matéria da noite ativa do espírito é dirigida, assumida, separada, eliminada e ordenada. Não é fácil demonstrar que todas essas operações dependem intrinsecamente da fé ou como as impõe. Não obstante, é obvio que caem sob seu raio de ação - e, por isso, de interesse para nosso tema -, segundo constam pelos textos analisados.

Antes de tudo, convém observar que não se trata aqui somente de uma comparação objetiva entre o valor intencional e intrínseco das "apreensões particulares" e a fé; algumas vezes se faz - como em Subida II 16,7 e 29,6 - porém é incidental. Trata-se realmente de um tipo de atividade que tem seu fundamento e sua razão de ser nas exigências mesmas da fé. Por isso esta noite do espírito se chama 'ativa'.

Os textos sanjoanistas não oferecem dificuldades de interpretação neste ponto, pois são seguros e claros. O que não resulta já tão fácil é precisar a natureza da dependência aludida, porque o Doutor Místico não pretende exatidão especulativa, mas direcional.

De qualquer modo, da comparação objetiva se vê claramente, ao menos, que as apreensões particulares e distintas se contrapõem à fé, sempre dentro do plano intelectual. À fé se atribui em Subida II 10 a

"inteligência obscura confusa e geral".

Pois bem, pelo que nos consta da análise de Subida II 3, o entendimento se adere pela fé às verdades reveladas, e fazendo-o se cobre de obscuridade, deslumbrado pela luz excessiva infusa, incapaz de penetrar por si mesmo a essência divina e de vê-la claramente. E assim, por um lado, chega a ela, e, por outro, cai na escuridão. A fé implica, por conseguinte, uma elevação essencial do entendimento, porém sem tirar sua insuficiência nativa. Na conjunção destes dois elos, psicologicamente contrários, se produz a íntima proporção do entendimento humano no estado viador em relação à Divindade.

A análise dos elementos textuais sanjoanistas nos levam a entrever a estrutura profunda da fé.

Na noite ativa ocorrem ao entendimento muitas "apreensões" particulares e distintas e de vários tipos ou espécies.

Para São João da Cruz, essas "apreensões", com seu perfil próprio, estão em harmonia com a capacidade e exigências naturais do entendimento, e, portanto, lhe convém e pode recebê-las e retê-las (leia principalmente sobre isto Subida II 16,17). Tem, pois, uma medida natural intrínseca. Ademais, vem por um caminho extraordinário; sobrenatural, diz o Doutor Místico, que não nega absolutamente a sobrenaturalidade de origem em muitos casos. Porém na conjunção de sua origem sobrenatural e de sua índole conatural ao entendimento é onde se descobre um grave perigo para a fé, pois esta é que deve dirigir, enquanto meio próprio, o entendimento à união com Deus. Só ela e nela se encontra a "inteligência obscura", ou seja, a contemplação. E pelo bem da "divina e substancial união com Deus", como diz em Subida II 23,4, a fé renuncia e diz não a essas "apreensões". Ou, dito de outra forma, deve ordena-las segundo as exigências da união do entendimento com Deus, já que só ela é que possui nessa potência a proporção essencial com Ele nesta vida. E já se sabe que proporção corresponde, na linguagem do Doutor Místico, a uma comunicação obscura com Deus.

Tal é a lógica da noite ativa do espírito, que nos permite isolar alguns elementos específicos da fé. Vemos, com efeito, como é propriedade sua a íntima proporção do sujeito com relação ao divino, como realiza sua função unitiva, e ao faze-lo manifesta essa proporção. Em fim, e concluindo, a íntima proporção ou "semelhança" exclui que Deus possa ser visto com toda clareza pelo entendimento nesta vida. O que parece claro ao entendimento é necessariamente limitado; portanto, não divino.

A análise anterior põe em evidência luminosa a dependência entre fé e noite ativa do espírito. Tratamos agora de precisar, à vista dos textos, algo mais sobre a natureza dessa atividade.

O que vemos primeiramente é que por tais atos de abnegação das "apreensões" claras e distintas aumenta o mérito da fé, a própria fé. Lemos em Subida II 24,8 a propósito das visões de substâncias espirituais:

"[...] embora seja verdade que a memória delas incita a alma a algum amor a Deus e contemplação, porém, muito mais incita e eleva a pura fé e despojamento na obscuridade de tudo isso, sem saber a alma como nem de onde vem".

Evidentemente, afirma que a fé contribui para a contemplação muito mais que qualquer visão. E um pouco depois aludirá clara e expressamente ao aumento:

"E assim como a fé se arraigou e infundiu mais na alma mediante aquele vazio e obscuridade e despojamento de todas as coisas, ou pobreza espiritual, que tudo é a mesma coisa, juntamente com a fé também se infundiu e arraigou mais na alma a caridade de Deus. De onde, quanto mais a alma quer se obscurecer e aniquilar em relação a todas as coisas exteriores e interiores que pode receber, tanto mais se infunde nela a fé, e, por conseguinte, o amor e a esperança, porquanto estas três virtudes teologais sempre andam juntas".

O texto citado reflete claramente a doutrina teológica comum sobre o aumento simultâneo de todo o organismo sobrenatural, referindo-se concretamente ao aumento das virtudes teologais, que, por sua profunda ligação, crescem ao mesmo tempo: quando a fé cresce, cresce também a caridade, e cresce a esperança, e crescem todas as forças de que dispõe a alma para a união com Deus.

Relativamente às questões que estamos pesquisando, tem um valor peculiar a passagem em que explicitamente se afirma que a fé aumenta na noite ativa:

"mediante aquele vazio, e trevas, e despojamento de todas as coisas".

Ou seja, a abnegação, posta em ato durante a noite ativa do espírito, faz crescer a fé. Já conhecemos a índole dessa abnegação: priva o entendimento das formas intencionais que lhe são conaturais. Por essa privação, por essa abnegação intelectual, cresce a fé. A conjuntura de ambos os aspectos nos sugere que, segundo o pensamento do Doutor Místico, os atos de abnegação procedem da fé. Certamente falta uma premissa: a virtude aumenta ou cresce pelos atos próprios. Em vão buscaremos essa premissa, da mesma forma que a teoria subjacente do 'habitus', nas obras do Doutor Místico; não se encontra de maneira explícita. Isto é facilmente compreensível. Como observamos mais de uma vez, não tentou fazer afirmações especulativas, e por isso não se deve busca-las. É suficiente a conexão expressa que põe entre a fé e a noite ativa do espírito; dela deduzimos que São João da Cruz atribui à fé uma intervenção direta no ato da abnegação intelectual.

Trata-se, na verdade, de algo novo e adicional, embora não estranho ao que se disse a propósito de Subida II 3.

Em Subida II 3, depois de refletir sobre a incapacidade do entendimento, embora ajudado pela luz da fé, para penetrar e fazer inteligível as verdades divinas, o ato de fé se reduz psicologicamente a um consentimento firme, revestido de absoluta certeza. Esse consentimento, segundo vimos, é positivo - pela certeza que a luz divina lhe outorga, sobretudo pela adesão conseqüente do entendimento à Divindade 'não-vista' - e, ao mesmo tempo, implica uma insuficiência total do entendimento para assimilar as realidades divinas. Podemos, portanto, concluir que o "consentimento" de que fala Subida II 3 eqüivale a uma assentimento intelectual ao 'não-visto'.

Pois bem, na atividade da noite do espírito podemos encontrar sem dificuldade semelhantes atos; não no mesmo sentido de Subida II 3, mas sob idêntica razão formal. O motivo último de abnegar qualquer espécie de "apreensão natural e distinta" é que se trata sempre de algo proporcional à capacidade própria do entendimento, de algo que lhe é conatural; e nada divino pode ser reduzido a essa ordem, nem, por conseguinte, apresentar-se ao entendimento sob uma modalidade distinta e particular. A Divindade são pode, em absoluto, ser 'vista' pelo entendimento humano neste estado de viador [40]. E esta é a razão determinante da abnegação; em tal estado, o entendimento não pode 'ver' Deus; por conseguinte, quando se adere a algo de fato 'visto', não se adere a Deus: na verdade, se saiu do caminho de união. De onde, sucedendo nas "apreensões distintas" uma adesão a algo visto - diferente delas segundo a natureza -, seja necessário, se quiser voltar ao caminho ou manter-se nele, a abnegação pela fé. Tal é, a nosso entender, a natureza da atuação da fé na noite ativa do espírito. A análise demonstra o fundamento de semelhante atribuição, já que à fé deve-se atribuir as abnegações próprias da noite ativa do espírito, como se demonstrará por outros elementos que intervêm efetivamente na noite.

Por outro lado, uma vez que estamos seguros ou certos da atividade da fé na noite ativa do espírito, podemos precisar melhor a índole dessa atividade. Segundo vimos, a função essencial da fé consiste na adesão ao 'não visto'; não obstante, há um aspecto novo nele que convém fixar: o "consentimento" traz uma resignação ou entrega do entendimento a Deus; deslumbrado pela luz excessiva, se rende em fé. Consente. Neste sentido deve ser interpretado o texto de Subida II 3. Porém, considerando o tema de outro ponto de vista, observamos que a excessiva intensidade da luz da fé em qualquer ato da noite espiritual potencializa o entendimento para superar sua natural aptidão em relação às coisas particulares e distintas e para transcender-se projetando-se em Deus. Isto, naturalmente, inclui uma forte abnegação, medular no conceito sanjoanista de "noite" (cf. Subida I 3).

A análise colocou em relevo este aspecto essencial da fé como "assentimento ao não visto" e como reluz, em meio às dificuldades e perigos da noite do espírito, a íntima proporção ao divino causada pela fé.

Ainda que não pudéssemos encontrar no texto sanjoanista outras indicações sobre a atividade das demais virtudes na noite ativa do espírito, não seria pouco descobrir sua dependência e sua conexão com a fé; as passagens analisadas tornam patente um aspecto novo e pouco conhecido desta virtude. O que não parece justificado é estabelecer, com base nos textos, a questão em um esquema programático do seguinte teor:

1) do hábito da fé;

2) dos atos da fé.

O problema que ainda aguarda exploração analítica - a saber, qual é a estrutura interna do ato da fé segundo o Doutor Místico - não pode ser resolvido somente com os dados anteriores. Tampouco a pergunta: Onde, em que potência, se enraíza a abnegação e quais são suas características? São João da Cruz se refere a tudo isto em termos muito gerais, como "não querer", "não admitir", "negar", "obscurecer", e outros parecidos. É verdade que, ao começar o tratado da noite, o Doutor Místico fixa os limites da abnegação. Lemos em Subida II 7:

"Esta, por certo, há de ser como uma morte e aniquilação temporal, e natural, e espiritual em tudo, no apreço da vontade, na qual se encontra toda negação".

Manifesta aqui que o mais íntimo e mais elevado da abnegação se refere à vontade. Porém estamos ainda muito longe de determinar a estrutura própria da dinâmica da fé descobrindo apenas sua intervenção nas 'abnegações' típicas da noite ativa do espírito. Sabemos, sim, que o essencial desta noite pertence à fé; mas não temos conhecimento suficiente de outros fatores que colaboram com ela e da contribuição própria da cada um. Sabemos que estão presentes e que crescem ao lado da fé; porém qual seja sua participação, não podemos determinar pelos textos. A única coisa que talvez possamos afirmar é que toda a atividade da fé se ordena à caridade. Segundo o que dissemos mais acima, a noite ativa do espírito cai dentro do caminho da união e conduz a ela; pois bem, a virtude unitiva é, propriamente falando, o amor. Por conseguinte, a fé, ainda admitindo seu enorme influxo - tão bela e agudamente destacado por São João da Cruz -, não seria meio de união se não estivesse informada e dirigida pela caridade. Isto parece claro já desde os primeiros capítulos de Subida; assim, em I 2, onde se afirma que a fé é meio de união, "de trânsito", não excluindo, porém, a caridade. Em outro lugar explicita mais cabalmente essa afirmação, aduzindo a razão determinante da subordinação da fé à caridade; diz na epígrafe de Subida II 9:

"Como a fé é o meio próximo e proporcional ao entendimento para que a alma possa chegar à divina união de amor".

Cada virtude cumpre uma missão própria: a alma se une por amor; para isto coopera necessariamente a fé na potência intelectual, fazendo-a meio próximo e proporcional de união. De fato, quando na noite ativa do espírito, o entendimento sob o impulso e a atividade da fé viva sofre quanto a suas exigências naturais da renúncia, o valor desta renúncia redunda em favor do amor, facilitando a união da alma com Deus, a transformação participada em Deus. Fica, pois, muito claro que a fé, enquanto raiz da abnegação intelectual, coopera com a função da caridade. Ouçamos o que o Doutor Místico diz em Subida III 8,5 falando das 'apreensões claras e particulares':

"[...] tudo quanto elas são em si mesmas não contribui tanto para aumentar o amor de Deus na alma quanto o menor ato de fé viva e esperança que se faz no vazio e na renúncia de tudo".

As palavras 'contribuir para o amor de Deus' são a chave luminosa que abre o sentido do texto citado. A fé ajuda a caridade, enquanto raiz da abnegação do entendimento, em sua tendência natural a perceber clara e distintamente as formas dos objetos. A razão de ser e a trama da "noite" levam à mesma conclusão: a noite é um postulado do amor, uma exigência sua para impedir que nada criado se apodere da vontade, excluindo, por amor de si, o amor de Deus, e, como conseqüência, a união transformadora. Neste sentido, a fé ajuda a caridade a realizar a união.

Também fica claro que a fé que impõe o exercício da abnegação depende, em última instância, da vontade, segundo se deduz da doutrina de São João da Cruz. Aqui se fundamenta, como sua última razão de ser, a "noite". Vimos isto em Subida I 3 e, sobretudo, em I 4 ao considerarmos a "noite" em geral. Mais terminantemente o repete em Subida III 34,1:

"[...] o entendimento e as demais potências não podem admitir nem negar sem que intervenha a vontade".

O texto toca vivamente no problema, indicando a parte que corresponde à vontade na abnegação própria da noite ativa do espírito. Indica, ademais, qual é o sentido exato das passagens citadas anteriormente: como o ato da abnegação - "se faz no vazio e na renúncia de tudo" - é um ato da fé viva, e coopera com a caridade, que impulsiona e realiza a união. Pois bem, se tal ato depende, em última instância, da vontade e esta está subordinada ao amor, segue-se que existe conexão entre o que se passa no entendimento (a abnegação da forma particular, abnegação imposta pela fé) e o que se passa na vontade, onde a renúncia de uma coisa implica a aceitação de seu oposto. A noite aparece, pois, como uma exigência da união. A vontade 'move' - usaremos este verbo, em harmonia com o que diz Subida III 34,1 - à abnegação da forma particular que é conatural ao entendimento; então se deixa penetrar mais profundamente pela forma oposta, adere-se a ela mais fortemente e por ela é informada mais totalmente. Tudo isto é o que implica a frase 'ajudar o amor de Deus' [41].

Porém devemos também observar que a fé de que aqui se fala é a fé viva, como nos recorda o Doutor Místico em Subida III 8,5. De fato, em toda a obra de São João da Cruz não se fala de outra, segundo afirmou no início, em Subida I 2,3: "fé não excluindo a caridade". Devemos ter isto sempre presente. Embora os textos submetidos a análise se ocupem só da fé - da fé formada, sem dúvida alguma -, e não trate neles (por exemplo em Subida II 3 e II 8,9) de como ajuda à caridade. Aqui, ao contrário, sim. Antes tratou da fé vivificada pela caridade; agora, da vida da fé pela caridade. E isto implica a atuação da vontade.

Para entender melhor, recorremos a um texto curioso de Cântico ;

"A fé, simbolizada pelo olho, reside no entendimento que crê e na vontade que ama"

Cântico 31,10

Refere-se, evidentemente, à fé que vive pela caridade, à fé que recebe do amor um íntimo e contínuo influxo e a modalidade de sua união com Deus.

É preciso sublinhar bem este ponto, porque não vamos achar mais textos que nos falem da fé vivificada pela caridade, senão somente da vida da fé em caridade.

Perguntemos finalmente: De todos os textos analisados sobre a atividade da fé na noite ativa do espírito, podemos tirar algum elemento de juízo sobre a estrutura psicológica da fé?

Parece que não. Porque, em primeiro lugar, o que se demonstrou é que na noite ativa do espírito ocorre uma 'atividade' efetiva da fé, de maneira que o essencial da noite é tecido por atos de fé. Em segundo lugar, estes atos têm como característica especial, ser atos de abnegação do entendimento submetido à fé. Em fim, os atos de abnegação, embora se realizem em outra potência, dependem necessariamente da vontade, segundo ensina o Doutor Místico. Portanto, os atos de abnegação da potência intelectual - têm lugar durante a noite ativa do espírito e são produzidos pela fé - dependem, em última análise, da vontade, já que o entendimento nada pode rechaçar, nem admitir tampouco, sem a intervenção da vontade.

Tudo isto gira em torno da questão que propusemos, porém não é bastante para induzir elementos concretos a cerca da estrutura psicológica do ato de fé, isolando o que corresponde ao entendimento e o que corresponde à vontade.

Poderíamos dizer que os elementos que buscamos estão insinuados, mesmo latentes, na doutrina de São João da Cruz. Porém isto não basta para deduzir conclusões resolutivas. Na realidade, o Doutor Místico não se propõe a resolver esta questão. É certo que fala da natureza da fé e inclusive, em certo sentido, do aspecto metafísico, da índole da mesma como 'hábito obscuro', mas não da estrutura psicológica do ato de fé. As fugazes sugestões que faz a este respeito se referem a outro problema: a íntima relação - de contato e de mútuo influxo - entre fé e amor no caminho da união. Vamos nos ocupar disto em seguida.

Em suma: São João da Cruz insiste em afirmar a intervenção da vontade na abnegação que a fé impõe ao entendimento. Como se observa imediatamente, tudo isto pertence, total ou particularmente, à esfera do amor, e, por esse lado, pouco ou nada se pode induzir direta e concretamente sobre a estrutura psicológica do ato de fé. Nunca aparece tratado 'ex professo' nas obras de São João da Cruz este aspecto, embora sempre fale da fé ativa. Por outro lado, a atividade da fé não aparece separada da atividade das demais virtudes, de maneira que seja possível individualizar sua ação específica. Tal é, sem dúvida alguma, o caso da noite ativa do espírito; tal também, embora em outro sentido, o caso da contemplação. Daqui se poderá, talvez, induzir algo sobre a natureza e a atividade próprias da fé. Mas, no geral, como teremos ocasião de precisar na análise das obras seguintes, descreve em conjunto a dinâmica de todas as energias sobrenaturais que intervêm no caminho da união. E isto estreita as asas de nossa pesquisa.