ANOTAÇÕES.

1. A análise do problema da "noite" nas obras de São João da Cruz tem sido detalhada. Esse detalhamento tem sido, contudo, necessário, porque, embora "noite" seja símbolo e não se use em sentido uniforme, o conteúdo expresso multiformemente por essa palavra é eixo para todo o sistema místico de São João da Cruz, e, portanto, chave para nosso tema.

A "noite" invade de ponta a ponta a doutrina do Doutor Místico, ilumina sua atitude ante a realidade natural e a realidade sobrenatural, é guia do homem que sai em busca da união com Deus e aparece como exigência imprescindível da tendência à união. Neste último aspecto se funde com a fé, caminha com ela, tem sua explicação, sua justificativa e sua resolução nela. É evidente que, sem uma análise exaustiva da noite, sobretudo neste ponto que se refere imediatamente à fé, não é possível se aprofundar na natureza íntima da mesma fé.

2. Dissemos anteriormente que os textos sanjoanistas nos obrigavam a trabalhar não sobre a fé vivificada pela caridade, mas sobre a vida da fé. A análise nos levou a estabelecer um íntimo nexo entre caridade e fé. A noite ativa do espírito nos exemplifica experimentalmente essa íntima relação. A fé aparece ai realizando a abnegação do entendimento, porque este, por sua natural condição no estado de união da alma com o corpo, se projeta às formas concretas que percebeu, e das que se apropriou pelos sentidos; ao contrário, a fé, por sua proporção de semelhança com a deidade, penetra obscuramente em uma forma ilimitada, e, portanto, reprime a tendência natural do entendimento. Para que a repressão seja efetiva se requer a 'privação' ou abnegação intelectual. Esta 'privação' ou abnegação se atribui à fé, segundo dissemos, que opera em virtude e em razão da forma divina, 'intencionalmente escondida' no entendimento, ou, melhor, conseguida no entendimento pela obscuridade. Observamos que esta privação que se realiza em virtude da forma intencional divina e em virtude da obscuridade concomitante, afasta as formas distintas e concretas por serem limitadas; e assim reafirma a obscuridade, que durante a vida presente corresponde no entendimento à forma divina, que é ilimitada. A obscuridade do entendimento é, portanto, conseqüência da forma intencional infinita da Divindade que a fé oferece ao entendimento.

Pois bem, a abnegação provém, em última instancia, da vontade; isto é, o entendimento não a impõe se não intervém a vontade. Mas - e aqui está o centro da questão - na abnegação da forma particular e clara, que é própria do entendimento, se inclui a afirmação da forma divina, obtida pela fé, em sua ilimitada obscuridade. De onde induzimos que a vontade subjacente nesta abnegação ativa recebe a forma divina intencionalmente no entendimento pela fé, e, simultaneamente, recebe pela fé a proporção essencial com a Divindade à qual se une por amor. Estamos, pois, ante a fé viva, que, segundo o texto citado de Cântico, "se sujeita no entendimento pela fé, e na vontade por amor" (Cântico 31,10). Todo o processo seguirá o caminho inato do amor: assimilação do amante ao amado e realização da união.

Nosso propósito foi averiguar como nos textos de São João da Cruz é indicado com precisão o modo ou, por assim dizer, o mecanismo pelo qual a participação divina se transpõe da fé no entendimento ao amor pela vontade. Certamente, a explicação deve ser buscada através do exame direto de alguns casos particulares, a saber, os que o Doutor Místico nos oferece na descrição da noite ativa do espírito, na qual a fé atua impondo a abnegação intelectual. Porém este mecanismo pelo qual a forma divina passa do entendimento, onde se encontra em obscuridade de fé, à vontade, que a recebe pelo amor, causando o próprio efeito de união de semelhança, poderia ser aplicado também fora dos casos da noite e da abnegação.

Vimos, por tudo isso, que a razão própria para que a forma divina participada se transfira, não é a abnegação enquanto tal, mas a abnegação enquanto exigência da fé. Individualizamos assim o valor positivo da fé, que na abnegação da forma intencional particular e clara inclui a aceitação da forma divina intencionalmente obscura. Tal afirmação está enraizada na noção de "semelhança essencial", na participação sobrenatural da luz excessiva, segundo explicamos nas páginas precedentes. Daí arranca a conformação divina da vontade.

E esta nos parece ser a explicação da vida da fé pela caridade; não certamente no sentido total, mas somente no que pudermos chamar sua célula primitiva. Ou, dito de outro modo, a explicação do fenômeno pelo qual a forma divina passa da fé ao amor. A explicação se refere a casos concretos da noite espiritual e se faz ao longo dos textos de São João da Cruz, nos quais está latente. Em acréscimo, é possível estende-la a todo o caminho da união, já que todo o caminho da união, segundo o Doutor Místico, é noite e abnegação, e exige, por conseguinte, a intervenção da vontade, como se afirma em Subida III 34,1. Simultaneamente, todo o caminho da união avança envolto na obscuridade da fé, que acompanha os passos do viajante para Deus, que já possui, de algum modo, no entendimento. Sempre, pois, se tem à vista esses elementos correlativos, sempre estão presentes na noite ativa do espírito, ainda que não apareça tão clara e mútua dependência. E neste sentido devem ser entendidas as seguintes palavras do santo Doutor:

"Deus [...], mediante a segunda noite, que é fé, vai se comunicando à alma tão secreta de intimamente, que é outra noite para a alma".

Subida I 2,4

Trata-se aqui não da noite de fé (a noite ativa do espírito), mas simplesmente da fé; da fé pela qual Deus sobrevive no entendimento e se intima à alma. É assim, segundo dissemos, como deve ser entendida essa intimação, essa comunicação interna de Deus pela fé, ordenada para a união de amor. A análise atenta dos textos e dos princípios do Doutor Místico nos dá este resultado.

3. Já dissemos que os textos sanjoanistas não permitem determinar nada com total evidência sobre a estrutura psicológica da fé, embora insinuem alguns elementos. Em compensação, abundam os textos em que, ao expor a doutrina relativa à noite ativa do espírito, fala da índole da atividade da fé. É muito interessante, com efeito, o dinamismo que atribui à fé. Se aceitarmos a divisão de 'ato externo' da fé (confissão da fé) e 'ato interno' (crer), teremos necessariamente que afirmar que o dinamismo da fé na noite ativa do espírito é genuíno e muito alinhado com sua natureza íntima. A fé, dizíamos, é constituída da luz excessiva com que se conhece as verdades reveladas e, ao mesmo tempo, da obscuridade que essa luz excessiva produz na potência natural intelectiva. Não se vê, portanto, que haja outra atividade correspondente à "proporção" da fé se não a que se desenvolve na noite espiritual. Trata-se propriamente de negar qualquer tipo de forma limitada no entendimento com o fim de afirmar a ilimitada forma divina. Têm lugar então os atos de obscuridade, por assim dizer; os atos da noite proporcionais à Divindade, de cuja luz se participa pela fé. Mais ainda: a mesma noite se origina imediatamente dessa "proporção" íntima que o entendimento humano logra pela fé em relação à Divindade. Este tipo de atividade corresponde direta e imediatamente à natureza da fé. O que já não podemos esclarecer suficientemente com base nos textos sanjoanistas é como brota esse dinamismo e qual é a estrutura psicológica da fé. Temos que nos contentar, pois, em sublinhar apenas o fato da profunda correlação.

4. Devemos nos fixar, a propósito do dinamismo da fé tal como se depreende da análise da noite, em outra dimensão sua que aqui se manifesta: a fé anima e domina a experiência mística. Segundo o santo Doutor, é superior, em certo sentido, à experiência, inclusive a que é parte integral da união. Não afasta e não nega esta última espécie de experiência; mas, por outro lado, põe-se em guarda sobre seu desejo. Por que? Porque se infiltraria então algo naturalmente apetecível. E isto é alheio à fé, cujo móvel próprio e própria medida é a Divindade participada. É então, precisamente então, que a fé aparece em toda sua íntima grandeza de "semelhança essencial" de Deus; não porque manifeste somente seu conteúdo metafísico, mas, o que é razão de sua subsistência , o que a situa em uma trajetória de tendência à união. É então que se sente e constata que na fé existe a "semelhança essencial", que é mais um fato do que uma expressão, que se dá nela uma participação daquela Realidade à qual nenhuma realidade criada e natural pode ser comparada. E essa Realidade existente na fé é que impõe um limite a sua própria operação unitiva e também um rumo: a fé, gozando intimamente dessa Realidade, é capaz de conduzir a alma à união com ela.

Isto que acabamos de dizer não se lê somente nos textos sanjoanistas, nem se funda unicamente na não-repugnância dos termos; é algo manifesto e alinhado à exigência da própria operação da fé.

Esta dimensão estritamente divina da fé, tão nitidamente reafirmada em numerosas passagens (por exemplo, em Subida II 16 e 29), é muito típica dos escritos de São João da Cruz. A chamamos "proporção" íntima do entendimento em relação às coisas divinas, porque essa palavra expressa, ao mesmo tempo, a sobrenaturalidade intrínseca da fé e sua habitual obscuridade, o duplo elemento que tanto incide na atividade da fé na noite do espírito.

5. Queremos agora nos referir a um ponto que, embora não o tenhamos encontrado explicitamente nem uma só vez nos escritos do Doutor Místico, está virtualmente latente em toda sua descrição da noite ativa do espírito: a distinção entre ordem natural e ordem sobrenatural.

Uma vez mais, devemos dizer que a distinção não se esboça a priori, mas ao longo mesmo da experiência.

Se perguntarmos: Por que se rechaça as apreensões particulares e claras que vêm por via sobrenatural? Responde o Doutor Místico em Subida II 16,7: Porque em sua modalidade intencional correspondem à potência natural, e, em definitivo, seriam conaturais a ela. Similar é a argumentação que é dada em Subida II 4.

Se depois perguntássemos: Que se afirma então sobre a fé?, responderia o que não cessa de dizer ao longo destes capítulos: Não há nexo, não há conaturalidade entre o que a fé propõe e qualquer potência natural, incluído o entendimento. Portanto, afirma-se o excesso essencial da fé, constituída por uma comunicação da Divindade, por uma 'impressão' desta no entendimento. Esta é sua substância. E seu modo de expressão, a obscuridade intelectual. Por conseguinte, um excesso absoluto em relação à capacidade natural do entendimento.

Finalmente, não está subjacente nesta oposição e comparação, que tão exatamente aparecem perfiladas na análise, a distinção entre o essencial sobrenatural (quoad essentiam) e o modal sobrenatural (quoad modum)?

Sem dúvida alguma. De fato o Doutor Místico nunca invoca explicitamente essa distinção. Talvez por isso seu testemunho implícito tenha excepcional valor. Porque, sem usar a terminologia técnica, apoiando-se exclusivamente no dinamismo experimental, situa a fé no plano do "sobrenatural essencial".

6. À luz desta explicação compreendemos melhor o que tantas vezes repete o Doutor Místico: a fé é inacessível para o demônio. Por isso escreve em Subida II 1 que a alma saiu "disfarçada pela escada secreta" da fé; não pode, portanto, dete-la nenhum obstáculo temporal, nem a insídia do diabo. Ao contrário, nas "apreensões" receia sempre o perigo diabólico.

Em resumo, a fé tem algo essencial que é inacessível ao demônio, apesar de sua astúcia e inteligência. A esse algo essencial corresponde a função de unir a alma com Deus:

"[...] saindo do todo limite natural e racional para subir por esta divina escada da fé, que se eleva e penetra as profundezas de Deus".

Subida II 1, 1