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É oportuno observar que a questão não se refere aqui somente à fé.
Entram também em jogo ativo as demais virtudes sobrenaturais que, por
sua íntima conexão e seu dinamismo, mesclam o ato contemplativo, de
modo que não é fácil isolar a fé e dar-lhe tratamento a parte.
Correríamos o risco de tomar uma por outra e atribuir-lhe méritos
alheios. Ademais, a descrição não nos ajuda muito, porque nela o
Doutor Místico nos dá um testemunho muito vivo e penetrante - muito
autêntico - da contemplação; por isso resulta mais difícil
aplicar-lhe um método demasiadamente estrito e científico.
De qualquer forma, apoiando-nos no que já sabemos sobre a fé, é
possível investigar a "contemplação que se dá em fé" precisamente
por dar-se pela fé.
Por este lado, a análise da contemplação pode nos brindar,
talvez, com algo novo sobre a natureza da fé e, ao mesmo tempo,
corroborar os dados que já conseguimos.
Devemos dizer de início que agora entramos, propriamente falando, no
tratado da oração. Antes, o tema versava sobre a fé que vive pela
caridade, e também sobre o dinamismo especial da fé na noite do
espírito. Aqui tratamos da oração interior - chamada, por outro
nome, meditação -, que, segundo a doutrina de São João da
Cruz, aponta para a contemplação.
Em fim, devemos ter em conta que o Doutor Místico usa diversas
expressões equivalentes para designar a contemplação: "a notícia
ou advertência geral em Deus e amorosa", ou "notícia geral e
confusa", ou assistência em Deus", ou simplesmente
"contemplação".
Em várias passagens acharemos variada terminologia. Interessa-nos
sublinhar principalmente a conexão, firme e constantemente repetida,
que o Doutor Místico estabelece entre a fé e a contemplação.
Inclusive algumas vezes a "notícia" é chamada simplesmente
"fé", como em Subida II 24,4: "esta notícia obscura
amorosa que é a fé".
Talvez convenha fixarmos os adjetivos que ordinariamente emprega para
qualificar a "notícia". Os mais freqüentes são: "obscura",
"geral", "confusa", "amorosa". Eles constituem uma valiosa
pista para investigar a parte que na contemplação corresponde à fé.
Em Subida II 12 esboça-se a panorâmica da oração discursiva
ou meditação, indicando que a alma usa a fundo a ajuda dos atos das
faculdades inferiores; isto é, das potências sensitivas, da
imaginação e da fantasia.
Continuando, nos capítulos 13-15 de Subida II, trata-se da
famosa 'passagem' da meditação para a contemplação, ordenando-a
e determinando-a por três sinais especiais. Porque são chave para
entender a doutrina sanjoanista sobre a contemplação e também,
talvez, para elucidar a função da fé, devemos resenha-los aqui:
O primeiro sinal:
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"é ver em si que já não pode meditar nem discorrer com a
imaginação, nem gostar disso como antes acontecia; antes já
encontra secura no que até então costumava fixar o sentido e fazer juízo".
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O segundo:
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"é já não ter vontade de pôr a imaginação nem o sentido em outras
coisas particulares, exteriores ou interiores. Não me refiro à
distração da imaginação - pois esta, mesmo em muito recolhimento,
acontece andar solta -, mas que a alma não gosta de coloca-la de
propósito em outras coisas".
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O terceiro, sem nenhuma dúvida:
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"é gostar a alma de estar a sós com atenção amorosa em Deus, sem
consideração particular, em paz interior, e quietude, e descanso,
e sem atos e exercícios das potências, memória, entendimento e
vontade, ao menos discursivos, que consistem em passar de um ao
outro; mas só com a atenção e notícia geral amorosa já
mencionada, sem inteligência particular e sem entender sobre que".
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Conclui:
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"Estes três sinais, pelo menos, há de ver em si juntos o
espiritual para atrever-se com segurança a deixar o estado de
meditação e do sentido e entrar no da contemplação e do espírito".
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Com facilidade distinguiremos nestes três sinais alguns elementos que
já nos são conhecidos. Caberia classifica-los em dois grupos.
De uma parte, os que têm alguma relação com a ordem intelectual.
A este propósito, o Doutor Místico insiste no desaparecimento de
um elemento concreto, dependente dos sentidos, que será substituído
pela "notícia geral", que se realiza já "sem inteligência
particular e sem entender sobre que". Nas últimas palavras aparece
indicada com nitidez a situação do sujeito e do objeto: nesta
notícia geral, o entendimento não percebe propriamente o objeto -
"sobre que" -: falta-lhe a 'inteligência particular'.
Encontramos novamente o problema que já conhecemos: o da
conaturalidade do entendimento em relação às formas particulares e
limitadas. No estado de viador, o entendimento humano deve ter
proporção natural. Se falta a forma intencional, o objeto se esfuma
necessariamente. Estamos, pois, ante os mesmos elementos e
princípios que já estudamos em páginas anteriores.
De outra parte, os elementos que pertencem à ordem afetiva: a alma
já não gosta de discorrer nem de entreter-se em considerações
particulares. Ou seja, não pode meditar. Todo seu ser está
concentrado nessa atenção geral a Deus, nessa 'notícia' amorosa.
Assim, a transição aparece 'sinalizada' por elementos que já
analisamos a respeito da fé. Porém aparece também uma modificação
apenas perceptível na dinâmica da meditação: os elementos
conaturais às potências, que pertencem ao âmbito dos sentidos, vão
sendo substituídos por outros que carecem já de contato sensitivo e,
não obstante, são algo objetivo, algo que ocupa e concretiza as
potências. O santo Doutor insiste na substituição. Por
conseguinte, os 'sinais' da passagem devem aparecer todos juntos;
não basta este ou aquele, isolado dos outros.
O terceiro sinal é o mais importante. E a razão é obvia: torna
patente que ocorreu a substituição do elemento anterior por outro
novo. Se isto não ocorrer, é 'sinal' que a passagem não se
realizou. O primeiro e segundo sinais indicam os elementos que já
desapareceram, que se perderam de vista; se não aparecesse o terceiro
sinal, que é positivo, haveria o perigo de cair no vazio; perigo
possível, como veremos na análise de Noite escura. Por isso, a
alma deve se manter em vigília para não cair culpavelmente neste
perigo; seria um lamentável engano tomar por ação divina a própria
negligência espiritual.
No capítulo seguinte, Subida II 14, o santo Doutor discute a
conveniência - mais ainda, a necessidade - destes sinais, que,
segundo ele, são necessários para poder discernir a 'passagem' da
meditação para a contemplação.
Quanto ao primeiro sinal dá duas razões: a primeira, porque já se
esgotou todo o bem que podia obter pela meditação e o discurso do
imaginário. Este "bem espiritual que encontrava nas coisas de
Deus" deve ser referido ao mesmo tempo, à ordem do conhecimento e à
ordem do amor, tendo em conta o que se disse em Subida II 13,4,
onde "espírito e substância" aparecem unidos, "em verdadeira
inteligência e amor", em oposição a "certeza e acidental", sobre
as quais trabalham as potências e no fim abandonam. Finda esta fase,
a alma recebe "a substância" entendida e amada daquelas formas.
Analogamente, no caso do texto que estamos analisando, a meditação
discursiva consiste de atos de conhecimento e de amor, nos quais o
entendimento e a vontade ainda se esforçam ativamente com a ajuda das
potências inferiores. O mesmo trabalho leva o selo dos sentidos,
pois labora sobre as verdades reveladas, enquanto foram captadas pelos
sentidos e pela imaginação; por ele adquire algum "bem
espiritual", marcado pelo modo pelo qual foi conseguido. Logra,
pois, certo conhecimento e certo gosto das verdades reveladas, porque
o gosto é conseqüente a esse modo de conhecer. A segunda se refere
mais à parte técnica da oração mental; mediante a repetição de
atos orantes, de atos de "notícia amorosa" sensível, a alma
adquiriu o hábito da oração interior, o hábito da "notícia
amorosa". Por isso o Doutor Místico pode dizer: "neste tempo tem
o espírito da meditação em substância e hábito".
Estas razões não têm igual valor ou peso para nosso tema, já que a
primeira nos indica uma fruição objetiva e a segunda insiste na
disposição subjetiva adquirida, na habilidade para realizar
facilmente o ato do conhecimento amoroso. Porém as duas juntas nos
explicam porque a alma "não pode meditar nem discorrer [...] como
antes acontecia" [42]. Já conseguiu tudo o que podia obter
pela meditação.
Deixamos a parte os casos excepcionais em que, imediatamente e sem
esforço algum, se consegue de Deus a graça da contemplação
infusa.
A explicação do segundo sinal não é muito abundante. O santo
Doutor chama a atenção para um detalhe curioso, indicador de que a
alma superou a etapa precedente: embora a imaginação siga
trabalhando, a vontade já perdeu o gosto. "Nisto - diz - sente
pena, porque a inquieta a paz e o sabor". Eis aí o sintoma de que
se produziu uma distância entre a parte inferior e a parte superior da
alma. O 'desgosto' implica uma ruptura entre a parte sensitiva e a
parte racional. Anteriormente, esta gostava dos serviços dos
sentidos, se adaptava a eles; agora provocam-lhe fastio. É evidente
que já não se nutre disto.
Pois bem, se o modo de gostar é uma conseqüência do modo de
conhecer, segue-se que, quando se adquire "o espírito" - segundo
declarou antes em Subida II 14,1 -, o entendimento transcendeu
já as formas particulares que a imaginação lhe brindava. E, por
isso, a vontade já não saboreia os produtos da imaginação.
Portanto, o entendimento, e após ele a vontade, encontram
dificuldade para seguir utilizando o trabalho dos sentidos, e começam
a transcender o velho modo de conhecer as verdades reveladas.
Comprova-se o primeiro sinal: "não pode discorrer". A alma
perdeu a confiança em seus antigos colaboradores. Por que? Em
Subida II 14,1 responde, reafirmando o fato de que a alma já
não pode discorrer nem meditar as coisas de Deus, nem encontra gosto
como antes, e indicando o motivo: "porque até então não havia
recorrido ao espírito que ali estava escondido". Ou seja, antes
não havia chegado ao 'espírito', e à 'essência' das coisas
divinas, apesar de medita-las ou rumina-las. Porque ruminação
feita mediante os sentidos e a imaginação tocava apenas a superfície
das verdades reveladas. Todo o trabalho se desenvolvia em uma espécie
de adaptação aos sentidos. Basta ler atentamente Subida II 12,
onde o Doutor Místico trata da função e trabalho da imaginação na
meditação, para nos convencer do fenômeno aludido: as verdades
reveladas estavam adaptadas aos sentidos. Sob este prisma
compreende-se também melhor aquela fruição objetiva, aquele "bem
espiritual" que a alma conseguiu com seus discursos e meditações.
Esta fruição supõe que, subjetivamente, a alma havia adquirido já
certa facilidade para meditar. Facilidade e gosto, porque no ato de
meditar ocorre sempre algum conhecimento amoroso. Na meditação,
pois, a alma caminha atada aos sentidos, e com a ajuda da imaginação
obtém certo conhecimento das verdades reveladas, a que corresponde
certo amor sensível em relação a elas. Permanecem em pé as
palavras do Santo: "não havia chegado até então ao espírito o que
ali estava escondido".
Estas palavras são um farol luminoso para nossa investigação.
Do exame do primeiro e do segundo sinal tiramos os seguintes
resultados: na passagem da meditação para a contemplação se produz
certa ruptura entre as potências superiores da alma e as inferiores;
essa ruptura afeta o modo de conhecer as verdades reveladas: antes se
conhecia gostosamente na oração interior mediante a imaginação e os
sentidos; agora se perdeu o gosto; no modo costumeiro de conhecer
falta o entendimento e, em conseqüência, a vontade. Surgiu a
inadequação, a desproporção.
E com isto damos por acabada a análise dos primeiros sinais. Resta a
análise do terceiro, que é o mais importante, segundo São João
da Cruz, para caracterizar a passagem da meditação para a
contemplação.
O terceiro sinal nos revela a notícia geral confusa, obscura e
amorosa. O Doutor Místico observa imediatamente que não quer
esgotar o estudo deste problema aqui, e que voltará a ele quando tiver
assinalado todas as "notícias" particulares. Remete a uma parte de
sua obra que ainda nos falta. No que temos transparece já um tratado
da contemplação. Não obstante o pouco que agora nos ensina, embora
seja parcial, é muito valioso para a questão que estamos indagando.
A explicação sanjoanista começa distinguindo as funções
específicas das potências superiores na meditação e na
contemplação. Na meditação trabalham com a ajuda das potências
sensitivas; é um trabalho discursivo. Na contemplação atuam o
entendimento, a memória e a vontade, confluindo na 'notícia
geral'. E, como afirma, este ato contemplativo, no qual se unem as
potências superiores, inclui um "gozo" especial, uma satisfação e
quietude, em que já não participam as potências inferiores.
Este é o primeiro traço da "notícia amorosa" vista sob o ângulo
das potências superiores. E nisto aparece a diferença entre a
meditação e a contemplação como diferença entre os afazeres ativos
e "o já recebido e trabalhado nas potências espirituais".
Logo indica São João da Cruz que esta noticia geral pode ocorrer
na alma com maior ou menor perfeição. Quanto mais "vestida e
mesclada ou envolta em algumas formas inteligíveis" - isto é,
vestida com o modo humano de conhecer e amar -, tanto com maior
facilidade a percebe o entendimento e, a par disto, tanto menos
"limpa [...] e simples, menos pura e simples" será. A verdade
desta afirmação é ilustrada com o exemplo clássico da luz que
atravessa o ar (Subida II 14,9).
A contemplação se nos apresenta, já desde o princípio, como uma
concentração das potências superiores em algum objeto, em alguma
notícia que não se deixa captar clara e distintamente, mas de um modo
obscuro, geral e confuso. Por parte do sujeito, a atenção ao
objeto obscura e confusamente presente é constitutiva. Por parte do
objeto, a notícia obscura, confusa e geral também o é. Requer,
portanto, a imperceptibilidade, a atual independência de qualquer
forma na qual o entendimento possa naturalmente descansar. O
entendimento, bem como as outras potências, se concentra na pura
sobrenaturalidade, isto é, sem a intercessão dos modos naturais de
conhecimento. E o natural, como já sabemos, é que o entendimento
possua e descanse no objeto de maneira própria. Se isto ocorresse na
contemplação, diminuiria sua perfeição.
Tanto o entendimento quanto as demais potências superiores descansam,
se satisfazem, "gozam" nessa notícia com a qual nenhum contato
natural mantêm; mais ainda, se algum contato natural se
introduzisse, a contemplação não seria perfeita. Para que o seja
se requer a plena obscuridade da notícia, isto é, a plena
independência em relação a todo o particular e limitado, e, ao
mesmo tempo, a plena quietude ou descanso do entendimento, da memória
e da vontade unidas no ato contemplativo.
Temos assim as linhas fundamentais da contemplação, seu aspecto
objetivo, a relação entre um e outro. Em uma palavra, alguns
traços que permitem entrever sua índole essencial, não sua estrutura
psicológica.
Transcrevemos a seguir, um texto sanjoanista que distribui dinâmica e
harmonicamente todos estes elementos.
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"[...] à vista da alma, que é o entendimento [...], esta
notícia geral e luz que vamos dizendo, sobrenatural, investe tão
pura e simplesmente, e tão despojada e alheia de todas as formas
inteligíveis, que são objeto do entendimento, que este não a sente
nem pode percebê-la. Antes, algumas vezes - quando ela é mais
pura - torna-se trevas, porque o aliena de suas costumeiras luzes,
de formas e fantasias, e então sente e percebe bem as trevas. Mas
quando esta luz divina não investe com tanta força na alma, não
sente trevas, nem vê luz, nem apreende nada que ela saiba".
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Quando a alma alcança essa obscura percepção da luz e essa suprema
atitude mental, pode-se afirmar que "esteve unida em pura
inteligência", "em inteligência celestial" e que "sabe de Deus
sem saber como" (Subida II 14,11).
Que se infere de todos estes dados para nossa questão?
Antes de tudo, encontramos algumas coisas que já nos eram
familiares. Quando São João da Cruz fala do contato entre a luz
sobrenatural e o entendimento, o que afirma é que a perfeição dessa
luz o excede e está presente sem a forma que lhe seria conatural; por
si, o entendimento busca a forma intencional natural.
Tudo isto sabemos de sobra pelo que vimos ao tratar da noite ativa do
espírito. Foi posta ali a distinção fundamental do natural e do
sobrenatural. Ao tratar agora da contemplação, o elemento
sobrenatural é designado com o nome de 'luz espiritual' ou, sob
outro aspecto, com o nome de 'notícia geral e obscura'. Com um ou
com outro nome, esteve presente na análise de Subida II 3, que
trata diretamente da fé.
Feitas as observações anteriores, podemos já concluir dizendo que
na doutrina sobre a passagem da meditação para a contemplação - que
é uma notícia obscura, geral e confusa alcançada em fé -
encontramos muitos elementos que já conhecíamos pela investigação
anterior e que constituem o corpo integral e constitutivo da fé; a
doutrina sobre a 'passagem' tem a mesma lógica intrínseca e os
mesmos princípios que a doutrina da fé.
Isto é tudo o que podemos dizer, no momento, depois da análise dos
textos de São João da Cruz. Mais tarde nos esforçaremos por
determinar melhor a natureza da fé, seu dinamismo e seu campo de
influxo.
Conformemo-nos, pois, com o que até aqui é possível estabelecer.
Antes de tudo, com o nexo ou íntima relação da fé com a
contemplação, entendida esta como notícia obscura, geral,
confusa, amorosa, "que ocorre em fé". Logo, quando a vimos
aparecer como terceiro sinal indicador da passagem da meditação para a
contemplação, a caracterizamos como uma concentração das potências
superiores da alma na luz sobrenatural; esta luz já conhecíamos pelo
que dissemos ao tratar da fé, quando a perfilamos como uma
comunicação do conhecimento divino ao entendimento, de que participa
pela fé. Finalmente, também sublinhamos que o influxo dessa
comunicação ou participação do divino termina pela fé nesta união
do entendimento com a essência divina; união obscura, porque o
entendimento, embora alcance contato com a Divindade, não logra
apoderar-se de sua forma intencional; o contato com a essência divina
está envolto em obscuridade. Daí que o entendimento não descanse
somente na fé, mas que sempre lhe falte o estímulo para seguir
caminhando para Deus.
Sobre este último ponto conseguimos alguns dados valiosos para
compreender melhor a natureza da fé.
Antes de tudo, a tendência do entendimento à essência do revelado
se descobre facilmente nos dois primeiros sinais. A análise mostrou a
ruptura que se produz entre as faculdades superiores e as faculdades
inferiores. Dito de outro modo: o entendimento adquiriu consciência
da desproporção existente entre o conhecimento das verdades reveladas
por meio dos sentidos e o novo conhecimento sobrenatural. Isto é
muito importante. Na oração mental, com efeito, a alma tende à
união, porque, achando-se em estado de graça, o amor a anima, e,
por ele, a fé é viva. A alma se mantém, durante a meditação
discursiva, em tensão de conhecimento e de amor às verdades
reveladas. Para isto é necessário que atue a fé, segundo o que
São João da Cruz nos diz ao tratar em Subida II 3 de sua
estrutura interna e de sua dinâmica: produzindo o "consentimento" -
seu ato essencial - às verdades reveladas. Na meditação,
portanto, a fé atua decisivamente, enquanto informa e dinamiza o
entendimento, abrindo-o para receber as verdades reveladas e, até
onde é possível, 'saborea-las'.
Ao dizer que, pelos dois primeiros sinais, o entendimento está
adquirindo consciência da desproporção entre o modo anterior e o modo
novo de conhecer - e de saborear também - as verdades reveladas,
parece-me que nos está 'assinalando' que isto se deve, em boa
parte, à fé, que atua na oração interior. Porque a fé, segundo
São João da Cruz, não é somente adesão do entendimento à
Divindade; afeta também o modo desta adesão, enquanto o reforma,
sem destruir o modo radicalmente humano de entender, para que, sendo
humano e enquanto tal, logre um melhor contato essencial com a
Divindade. Isto foi visto claramente na análise da noite ativa do
espírito.
Tendo em vista as considerações anteriores, pode-se concluir que os
dois primeiros 'sinais' estão em íntima conexão com a fé e com seu
dinamismo. A ela devemos atribuir a ruptura do entendimento com o
mundo dos sentidos na meditação; e, por conseguinte, influi também
na vontade, cujo ato - o amor sobrenatural - se configura no novo
modo de perfeição.
Cabe, pois, resumir o específico de ambos os 'sinais', primeiro e
segundo, dizendo que o entendimento, ao se fazer mais consciente do
excesso e da desproporção entre suas próprias forças e a essência
das verdades reveladas - o que ocorre de maneira experimental, vital
- "não pode" já meditar do mesmo modo que antes, ligado aos
sentidos; agora não lhe agrada esse modo. Eis aí o efeito da ação
da fé, que não só faz com que o entendimento se conforme à divina
essência, como também o 'trabalha' para que vá adquirindo maior
proporção psicológica ao divino e maior desapego de seu modo de
conhecer anterior.
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