ANOTAÇÕES.

1. A função da fé que apontamos está latente; isto é, não a indica expressamente o Doutor Místico. Porém chegamos a descobri-la pela análise de seus textos. De alguma forma, já que a função da fé não aparece muito explícita na descrição do primeiro e do segundo sinal, sugere-o a passagem de Subida II 14,1: "não havia chegado até então ao espírito o que havia ali para ele". Estas palavras indicam a tendência do entendimento à essência das verdades reveladas, que é o sentido que devemos dar ao termo "espírito" (Subida III 13,4). Pois bem, essa tendência é algo próprio da fé; mais ainda, o ápice da fé consiste em fazer com que o entendimento, ao ter consciência das verdades divinas pela revelação, tenda a elas efetivamente pelo impacto da luz excessiva. Ademais, todo o contexto da passagem citada está indicando que o entendimento era travado na meditação sensível das verdades reveladas; agora rompe as travas desse modo de meditar. A ruptura não pode ser explicada sem a ação da fé. Vimos antes, na análise da noite ativa do espírito, como é tarefa própria da fé o transcender intencionalmente as espécies particulares. Aqui ocorre algo parecido. Algo que não tem mais explicação que a intrínseca proporção do entendimento com a realidade divina. Alcançar essa proporção é obra da fé.

2. A fé de que tratamos aqui é a fé formada pela caridade. Isto está claro. Deve-se o fato de provocar os sinais primeiro e segundo a estar viva e galvanizada pela caridade. Não obstante, inclinamo-nos a atribuir especialmente à fé estes efeitos porque o que mais os distingue corresponde a sua índole própria e a sua ação específica, segundo pudemos conhecer à luz da obra do Doutor Místico.

A alma, portanto, "até agora não havia corrido ao espírito que ali havia para ela". Já começa a correr, porém de um modo que não agrada aos sentidos, embora abra a janela da alma a uma luz nova. Dirige-se efetivamente para o terceiro 'sinal'.

Já dissemos que isto cai dentro da lógica intrínseca da fé; a ela pertence a conexão do entendimento com a luz divina participada; a ela também o modo de consumar-se essa conjunção.

A maneira é idêntica: a luz sobrenatural ilumina o próprio objeto com potente intensidade, impedida unicamente pela interposição de alguma forma conatural à potência intelectual. É preciso, pois, elimina-la com base na luz sobrenatural. Porém, por outro lado, o excesso de luz faz com que não se perceba o Objeto com claridade pela potência intelectual, que conserva sua entidade. Isto prova que a lei fundamental e a proporção causada pela fé se impõe de maneira estrita. E assim, todo o conhecimento contemplativo se desenvolve na linha da fé, dela arranca e tem intrinsecamente sua dimensão. Compreendemos, pois, porque o Doutor Místico nos diz que a contemplação "ocorre em fé".

Porém, por outro lado, na contemplação há algo que não se explica suficientemente pela fé. Já vimos que todas as potências superiores da alma se unem na notícia obscura. Pois bem, essa união das potências não se deve, de nenhum modo, à fé, que sozinha não faz mais, segundo o Doutor Místico, que unir o entendimento à essência divina em virtude da luz sobrenatural participada. Portanto, a convergência das potências na 'inteligência' confusa não é obra da fé. Ainda mais, as outras potências cooperam cada uma segundo sua própria natureza e modo. E, por isso, a unidade ou concentração é também "amorosa". E o mesmo devemos dizer da 'notícia'.

Neste plano, pois, a fé é insuficiente.

Inclusive no que diz respeito ao entendimento, há algo que não se pode atribuir à fé: o "gozar", isto é, o repouso, a satisfação do entendimento, que necessariamente supõe para São João da Cruz que se alcançou intencionalmente a meta. (Leia-se a este propósito Subida II 14,6-7 e III 13,4).

Admite-se então que o entendimento chega a ver Deus? Na realidade, não. A contemplação, afirma-se, é "notícia obscura"; tanto mais perfeita quanto mais obscura; portanto, a comunicação da luz divina e sua participação são mais perfeitas e mais plenas quando o entendimento e as outras potências submergem quase totalmente na pura obscuridade; participam dela sem perder sua incapacidade e insuficiência naturais. Por este lado, pois, o entendimento não alcança repouso (o "gozar"). É a fé que permanece ereta, e a união do entendimento na contemplação não tem mais privilégio que qualquer ato de fé: a forma intencional divina impressa.

Por conseguinte, na contemplação há fé e há algo mais que fé. Há fé, pois, segundo vimos ao analisar Subida II 3, a fé une o entendimento com Deus em sentido essencial; porém trata-se de uma união que não é perfeita por não ter a forma divina intencionalmente clara. Isto supõe que a fé, ao implicar a união do entendimento com Deus, consegue, até certo ponto, a essência da realidade, de cuja existência se tornou consciente pelo ouvido; porém como não alcança plenamente a forma intencional divina, fica sem o repouso (sem o "gozar"). Fica às escuras.

Temos, por lógica derivação, que a fé mantém o entendimento em contínua tensão a Deus, alcançando em certo sentido, uni-lo a Ele, e, em outro sentido, sem lograr a fusão total, a claridade total. Durante toda a viagem - durante toda a noite - persiste a tensão, o esforço, e somente na visão beatífica se coroa.

Porém, por outro lado, dissemos que na contemplação se juntam e repousam as potências superiores. Como é isto? Como é , em especial , no que tange ao entendimento?

Na realidade, se apresenta aqui outro problema, alheio a nossa investigação sobre a fé; as interrogações se abrem sobre a natureza e a estrutura da contemplação mística. A nós interessava somente descobrir a função da fé na contemplação, e, ao fixa-la, escrutar em profundidade sua natureza. Quanto ao "gozar" do entendimento, na medida em que se dá na contemplação em fé, podemos e devemos repetir que não é um 'gozar' perfeito, que procede do ato mesmo, senão um "gozar" passivo, derivado e intimado pela disposição essencial da fé, à qual, no caminho da união, se adere o entendimento como ao meio próprio e proporcional.

Quanto a esse "gozo passivo", nos instrui São João da Cruz em Subida III 17,1, onde lhe opõe o "gozo ativo", que segue na vontade ao conhecimento claro e distinto do objeto. O "gozo passivo" não é produto de um tal conhecimento; a vontade 'goza' então "sem entender clara e distintamente [...] do que seja tal gozo, não estando em suas mãos tê-lo ou não".

O anterior se refere ao "gozo" da vontade. Que atribuímos ao entendimento? Quanto ao "gozo passivo" da vontade, este não conseguiu desde logo, a "substância entendida" de maneira perfeita na ordem intencional. E assim aparece como a fé potencializa e dinamiza o entendimento: fazendo que tenda a Deus e que ainda nesta vida, sem ultrapassar os limites do 'hábito obscuro', consiga aderir a Ele, unir-se a Ele, descansar Nele.

O Doutor Místico nos explica na esplêndida passagem de Subida II 29,6. Observemos antes de transcreve-la, que está encravado ali onde trata das locuções ou 'falas' interiores; estando a alma recolhida e atenta a elas, prontamente o Espírito Santo ilumina a verdade que está contemplando; o fenômeno é freqüente, segundo dissemos ao analisar a noite ativa do espírito. A situação muda por esta potente luz que a alma recebe do Espírito Santo.

Eis aqui a passagem:

"[...] que o Espírito Santo ilumina o entendimento recolhido, e que o ilumina na proporção de seu recolhimento, e que o entendimento não pode encontrar maior recolhimento senão na fé; e assim, não o iluminará o Espírito Santo de outra forma senão pela fé. Porque quanto mais pura e esmerada está a alma na fé, mais tem da caridade infusa de Deus, e quanto mais caridade tem, tanto mais a ilumina e comunica os dons do Espírito Santo, porque a caridade é a causa e o meio pelo qual os comunica. E embora seja verdade que aquela ilustração anterior de verdades comunica à alma alguma luz, porém, o que recebe em fé, sem entender claramente, é tão diferente desta quanto à qualidade, como está o ouro muito acima do mais vil metal; e quanto à quantidade, como excede o mar a uma gota de água. Porque a luz do conhecimento particular comunica sabedoria de uma ou duas ou três verdades, etc., e a luz da fé comunica toda a sabedoria de Deus em geral, isto é, o próprio Filho de Deus que se comunica à alma em fé".

A passagem está repleta de sentido e de doutrina. Talvez em nenhum outro lugar se ensine a contribuição da todos os elementos que integram a contemplação como aqui.

Percebe-se imediatamente que coloca como fundamento a fé tomada em seu aspecto subjetivo, isto é, enquanto realiza a purificação da alma na noite ativa.

Também aponta o santo Doutor que a fé aumenta a caridade; ou seja, que a mais viva fé corresponde mais intensa caridade. Isto já havia sido insinuado anteriormente, em Subida II 4,8. Agora insiste em que a comunicação dos dons do Espírito Santo é proporcional e está na dependência do maior grau de caridade na alma. (Observemos de passagem que a doutrina dos dons se acha muito difundida nos livros de São João da Cruz, sem precisão nem especificação, embora seja possível identificar muitos dos elementos que a teologia clássica geralmente lhe atribui. O texto que acabamos de citar é uma notável exceção).

O texto que comentamos ensina que os dons do Espírito Santo dependem da caridade. Quanto maior caridade existir na alma, tanto mais intensamente atua nela o Espírito Santo por seus dons. É a doutrina tradicional. Mediante a iluminação do Espírito Santo por seus dons, produz-se na alma recolhida na fé a 'notícia' obscura e geral, que qualitativa e quantitativamente é o maior conhecimento que nesta vida se pode ter de Deus: participação da Sabedoria de Deus, de seu Filho, comunicada em fé.

Até agora vimos que a fé concorre eficientemente para a contemplação da Sabedoria. Quando é viva, influi de um modo remoto no aumento da caridade; nesta se conectam os dons, nos quais sopra o vento iluminante do Espírito Santo. Em suma: o texto nos explica o fazer-se da contemplação, do ângulo de sua causalidade eficiente.

Porém o papel que desempenha a fé aparece melhor e mais amplamente considerando o texto anterior de outro ponto de vista. Observamos que o santo Doutor fala do recolhimento do entendimento na fé, que se opõe ao recolhimento em alguma verdade isolada, embora revelada e de fé. Que quer então dizer ao contrapor a este o "recolhimento em fé"? Para responder é preciso ter muito presente o exposto anteriormente e seu amplo contexto, remontando-nos também a Subida II 10.

O recolhimento em alguma verdade isolada ou separada, se ordenado a descobri-la, eqüivale à "notícia particular e distinta"; ao contrário, o "recolhimento em fé" significa a adesão do entendimento à própria essência das verdades reveladas sem nenhuma particularidade intencional, sem nenhuma distinção forçada. Esta adesão do entendimento humano em fé redunda em obscuridade para a potência, e então exclui todo afã de esclarecimento particular. Assim recolhido o entendimento, sobrevem a iluminação do Espírito Santo por meio de seus dons, conexos com a caridade, que sob tal iluminação se une e comunica de um modo novo ao entendimento - ou seja, de um modo resultante do influxo do Espírito Santo, embora sem claridade essencial alguma - é o que o Doutor Místico chama precisamente "contemplação que se dá em fé".

Obscura, confusa, geral, total. Isto é, que envolve toda a Divindade em obscuridade de fé. E por isso a contemplação é uma elevadíssima participação na Sabedoria de Deus, quanto é possível em fé e pela fé. Inclui, ao mesmo tempo, a 'notificação' total do Verbo, tanto quanto é possível ocorrer isto em fé.