ANOTAÇÕES.

1. O texto que estamos comentando indica a extensão objetiva da fé. São João da Cruz, ao colocar na fé uma luz divina intrinsecamente comunicada, segundo vimos na análise de Subida II 3, coloca também uma participação intrínseca da mesma. Em conseqüência, o conhecimento que deriva daí é conhecimento em fé.

Pois bem, o entendimento participa da luz do conhecimento divino tanto mais perfeitamente quanto mais obscuridade experimenta em sua potência natural; "segundo dizem Aristóteles e os teólogos, quanto mais alta é a luz divina e mais elevada, mais obscura é para nosso entendimento" (Subida II 14,13).

Estamos, uma vez mais, ante a proporção própria da fé. Portanto, quanto maior é a obscuridade natural, tanto mais profunda é a fé e mais perfeita a participação na luz do divino conhecimento.

Mas, porque esta obscuridade da fé é abnegação para o entendimento, implica a vontade, e, da mesma forma, a caridade: na caridade, ao crescer a caridade, intensificam-se os dons do Espírito Santo e seu influxo iluminante.

Eis aqui, em sua totalidade eficiente, o dinamismo circular da contemplação infusa.

Daqui se deduz o papel eficiente da fé na contemplação: embora sua função pareça um tanto remota, a fé é a realizadora da contemplação. Segundo São João da Cruz, na fé e só na fé se verifica a comunicação do divino conhecimento nesta vida; e, se é assim, segue-se que os diversos graus de participação estão ligados à evolução ou aumento de fé.

Eis aqui como a fé possui em suas entranhas, pela participação da luz excessiva, toda a substância da contemplação, dentro do grau de perfeição possível nesta vida. Possui certamente não em ato, mas virtualmente, enquanto se vai desenvolvendo mediante a iluminação do Espírito Santo, que é o fator decisivo da contemplação por seus dons. A tendência da alma à contemplação é dirigida pela caridade. E assim, a fé está, na ordem eficiente da contemplação, subordinada à caridade. Porém, no plano objetivo - isto é, no plano da trama constitutiva -, a contemplação é coisa da fé, porque participa da luz do conhecimento divino, que se vai 'revelando' mais e mais, sem perder nunca a condição inata da fé: a obscuridade.

2. Por outro lado, o texto de Subida II 29,6, junto com a análise da passagem da meditação para a contemplação, realçou a debilidade da fé para a eficiência da contemplação. Fica, pois, muito claro que não basta só a fé, sem diminuir porém seu papel decisivo.

Tal parece ser a opinião de São João da Cruz. Referindo-se à índole psicológica da fé, disse que era um hábito obscuro, uma tendência do entendimento a aderir a Deus pelo assentimento às verdades reveladas, cuja íntima essência vê obscuramente. Por este lado, sua contribuição ativa à contemplação é bastante remota, já que devemos situa-la em sua subordinação à caridade. A capacidade eficiente vem à fé da moção do Espírito Santo. Assim, a fé é feita 'contemplativa' em lugar de fazer a contemplação.

É necessário ressaltar bem a profunda desproporção entre o que a fé é enquanto participação da luz divina e o que é enquanto hábito ou virtude dinâmica dessa luz participada. Trata-se de duas dimensões da mesma fé: a ' fé - participação' da luz divina é superior, sob este aspecto, a qualquer grau de contemplação; a 'fé - hábito' do entendimento, neste sentido, é muito débil para ver com essa luz participada.

3. Todos estes pontos, nos quais se encontra ancorada nossa análise, constituem o objeto da muitas discussões, ensaios e livros. A encruzilhada está no problema da contemplação, ou no problema da passagem da meditação para a contemplação, ou no problema da 'contemplação adquirida - contemplação infusa', ou em outros problemas semelhantes. Na bibliografia desta obra oferecemos informação abundante sobre estes problemas, que na realidade são marginais para nosso tema; eles nos interessam unicamente enquanto de soslaio podem aportar alguma luz ao estudo da fé. Neste sentido, procuramos tê-los presentes e submete-los a exame.

Resenharemos, pois, algumas opiniões que podem projetar alguma luz a nossa pesquisa.

O Pe. Labourdette, ao estudar os sinais que São João da Cruz indica para conhecer o trânsito ou passagem da meditação para a contemplação, observa que aparecem "muitos elementos de continuidade e muitos de não-continuidade". Evidentemente, sob aspectos diferentes. Diz:

"A descontinuidade que separa a meditação da forma de conhecimento próxima se refere ao plano dinâmico e não à substância do conhecimento profundo que se espera. Por isso, o Santo não recorre diretamente à fé, como fez a propósito das visões e revelações, mas à atividade do conhecimento sobrenatural que chama "contemplação", e que identifica com a fé enquanto meio próximo do entendimento para a união divina; na realidade é o aspecto positivo da 'fé nua'. A fé é sempre corpo e alma de nosso conhecimento de Deus; a forma deste conhecimento varia, mas a fé segue sendo seu princípio e seu fundamento".

M. LABOURDETTE, o.c., p.16

Ouçamos agora o Pe. Crisógono de Jesus Sacramentado:

"[...] a notícia geral e indistinta não é pura negação, como não é negação o ser de Deus, mas ilimitada ou indeterminada, enquanto a determinação significa negação; enquanto determinação significa perfeição, essa notícia não pode chamar-se indeterminada. Ela segue o sentido da predicação de ser de Deus".

CRISÓGONO DE JESUS SACRAMENTADO
o.c., p.27; cf. ibid., I p.323

Finalmente, o Pe. Efrén da Mãe de Deus diz:

"A contemplação é uma notícia amorosa, porque sua razão de ser é a caridade; e por ser 'notícia' de Deus, a qual nos é dada pela fé, tem a raiz na fé teologal; e como pela posse em fé tende à plena posse em caridade, cresce na esperança".

EFRÉM DA MÃE DE DEUS
São João da Cruz e o mistério da Santíssima Trindade na vida espiritual p.443