10. O FILHO DE DEUS QUE SE COMUNICA À ALMA EM FÉ.

Estas palavras tiradas da famosa passagem de Subida II 29,6, que utilizamos para estabelecer a função da fé na contemplação tanto na ordem eficiente quanto na formal, escondem ainda algum mistério que convém averiguar: na fé se comunica o Verbo ao entendimento, na fé o entendimento participa do conhecimento essencial divino.

O Verbo aparece nessas palavras como término do conhecimento pelo qual Deus se conhece a si mesmo de modo exaustivo e compreensivo e expressa sua própria e infinita perfeição pessoal.

O pensamento do Doutor Místico parece ser o seguinte: o entendimento humano, ao participar da 'sabedoria de Deus', é partícipe também, de algum modo, da geração do Verbo. Como o conhecimento do divino se realiza na fé sob a moção do Espírito Santo e sem que se perca a condição de obscuridade típica da fé, segue-se necessariamente que o entendimento se faz partícipe da geração do Verbo divino.

Este é o núcleo da doutrina mística "trinitária", que o Doutor Místico desenvolve especialmente em Cântico e em Chama. É preciso sublinha-lo.

Expressões similares acham-se não raras vezes em Subida. Vamos examina-las devagar, submetendo-as à análise para conseguir mais luz sobre sua noção de fé.

Em Subida II 22 estabelece ele mesmo a questão de por que na Lei Antiga foi lícito e algumas vezes de preceito pedir a Deus respostas por via sobrenatural, e na Nova Lei não. Ele responde: Porque então a fé ainda não estava bem fundamentada (no sentido objetivo, como complexo das verdades que se deve crer), nem a Nova Lei promulgada. Em outras palavras: Deus ainda não havia se manifestado em sua vida íntima tão abertamente como determinou em seu desígnio eterno. Portanto, havia motivo para que o homem perguntasse e Deus lhe respondesse. Esse motivo já não existe na Nova Lei. Por que? Ouçamos a resposta:

"[...] porém já que está estabelecida a fé em Cristo e manifesta a lei evangélica nesta era de graças, não há razão para perguntar-lhe daquela maneira, nem para que Ele fale ou responda como então. Porque dando-nos como nos deu, seu Filho, que é uma Palavra sua, como não existe outra, já nos falou tudo e de uma só vez nesta única Palavra, e não tem nada mais a falar".

Subida II 22, 5

Por conseguinte, a razão precisa pela qual já não é lícito pedir que Deus responda por via sobrenatural consiste em que já se manifestou plena e definitivamente em seu Verbo encarnado.

Aduz também, para corroborar a argumentação, ao texto bíblico:

"O que antigamente falou Deus pelos profetas a nossos pais de muitos modos, agora, à posteridade, nestes dias nos tem falado pelo Filho tudo de uma vez".

Heb 1, 1

No comentário insiste em afirmar, na linha do texto bíblico, que Deus manifestou pela encarnação do Verbo tudo o que de si queria revelar aos homens. Por isso, seguir perguntando-lhe por um caminho particular e privado, eqüivaleria, de certo modo, a pedir uma segunda encarnação do Verbo, pedir-lhe mais revelação e mais fé, como se a revelação feita não fosse suficiente. Atitude gravemente injuriosa e ofensiva:

"[...] era como apontar falta em Deus, a de que não havia dado o bastante por seu Filho".

Concluirá, cortante:

"Pois, tendo manifestado toda a fé em Cristo, não há mais fé a revelar, nem haverá jamais".

Subida II 22, 7

São João da Cruz dirige sua argumentação contra os inquietos buscadores de novidades, que em sua época pululavam em muitas partes. Porém o sentido da resposta nos parece muito profundo. Por um lado, indica a ordem progressiva da revelação das verdades da intimidade divina que sustentam o objeto da fé. Por outro lado, insiste na manifestação pessoal de Deus em Cristo [43] .

Se, pelo primeiro, a revelação objetiva constitui um complexo determinado de verdades fora das que não devemos buscar, pelo segundo nos diz que a revelação pessoal em Cristo é inesgotável. Sempre será fonte infinita de imitação e de conhecimento, e na íntima imitação e conhecimento amoroso se irá revelando cada vez mais; e conhece-lo será conhecer o mais oculto e misterioso de Deus:

"[...] põe os olhos Nele, e acharás ocultíssimos mistérios, e sabedoria, e maravilhas de Deus, que estão encerradas Nele".

Subida II 22, 6

Esta é a linha em que se move, avançando, o pensamento místico de São João da Cruz. São oferecidas ao entendimento verdades reveladas; se oferece, sobretudo, Cristo, vida dos cristãos. Nele se manifesta Deus ao homem. Nele nos propõe um modelo pessoal que sempre deverá ser imitado e sempre reproduzido por amor em cada cristão. Então a manifestação de Deus em cada um é plenamente participada e conseguida, e não no afã de investigar o revelado. A ordem da revelação tem seu vértice, segundo São João da Cruz, mais na manifestação pessoal que na notificação intelectual das verdades.

Neste sentido, Deus manifestou a si mesmo na revelação e, de certo modo, se esgotou nela. Assim considerando, não há mais nada a propor à fé. Ademais, na constituição da fé, que se faz objetivamente pela manifestação de Deus na revelação, o Verbo divino intervém de imediato enquanto revelante. O pensamento de São João da Cruz seria, pois: Deus gera o Verbo eternamente. E, ao instituir no tempo a economia da revelação, não só pela boca do Verbo encarnado, mas na própria encarnação, se manifesta aos homens. Todo o revelado é notificado a eles pela revelação e é recebido e subsiste pela fé. E enquanto culmina a revelação de Deus em seu Verbo encarnado, a fé nos dá objetivamente a Divindade total. Assim é fundamento e objeto da "inteligência obscura e confusa" e geral, que nos revela toda a Sabedoria de Deus, toda a Divindade comunicada pelo Verbo.

Tudo isto se afirma da fé objetivamente considerada. Quanto à virtude subjetiva da fé, já sabemos que consiste em certa comunicação da luz divina ao entendimento. Vimos isto na análise de Subida II 3, onde se falou da "luz excessiva" que invade o entendimento humano, e, não obstante a obscuridade, o faz aderir, com firmeza e certeza, às verdades divinas reveladas. Porém vimos também que esta luz eleva o entendimento até a essência do revelado, pois nessa luz "se manifesta Deus à alma" (Subida II 9,1). Encontramos logo a passagem de Subida II 29,6, tantas vezes citada, na qual se afirma que na contemplação, "que se dá em fé", nos é comunicada toda a Sabedoria de Deus de modo geral, que é o Filho de Deus comunicado à alma pela fé.

Caberia perguntar se a Sabedoria de Deus é considerada aqui objetiva ou subjetivamente. E, respondendo, diríamos que mais do que como luz participada ao entendimento pela fé (aspecto subjetivo), toma-se objetivamente, isto é, como expressão do que subsiste em Deus, do conhecimento que tem de si mesmo. Este conhecimento é comunicado à alma humana na fé e a alma dele participa. E, por conseguinte, pode-se falar de uma certa participação pela fé nesse conhecimento que é a geração do Verbo.

Compreendemos agora o nexo interior que tem este ensinamento na obra de São João da Cruz: a fé objetiva da Nova Lei consiste na manifestação definitiva da Divindade na encarnação do Verbo. E assim, se identifica, de certo modo, com este conhecimento que Deus tem em si e expressa de si; ou seja, não precisamente pelo lado das verdades reveladas que se recebe no entendimento, mas pelo lado da pessoa do Verbo revelada na encarnação.

Subjetivamente, a 'fé - virtude', enquanto consiste de uma participação da luz do divino saber, faz com que o entendimento humano participe, de algum modo, da geração do Verbo. Neste sentido é possível explicar o que São João da Cruz entende ao falar "do Filho de Deus que se comunica à alma em fé". A luz geradora do Verbo, participada em fé, faz com que o entendimento humano possa conhecer nesta vida a realidade revelada, realidade que aqui se identifica com a pessoa divina do Verbo; nela, a Divindade se manifesta aos homens, visível na encarnação, crível na encarnação.

Parece-nos que este é o pensamento do Doutor Místico. E se levarmos em conta o que dissemos ao falar, no capítulo anterior, da "notícia obscura que ocorre em fé", compreenderemos mais adequadamente a seguinte passagem de Subida II 15,4:

"[...] como a alma terminou seu trabalho de purificação e esvaziamento de todas as formas e imagens apreensíveis, permanecerá nela pura e simples luz, transformando-a em estado de perfeição, porque esta luz nunca falta na alma; porém, pelas formas e véus de criatura com que a alma está envolvida e embaraçada, essa luz não se lhe infunde livremente; se fossem tirados estes impedimentos e véus de tudo, como depois se dirá, ficando a alma em total desnudez e pobreza de espírito, logo a alma, já simples e pura, se transformaria na simples e pura sabedoria, que é o Filho de Deus. Porque, faltando o natural à alma enamorada, logo se lhe infunde, natural e sobrenaturalmente, o que é divino, para que não se dê o vazio na natureza".

Este texto supõe e implica muitos dos princípios doutrinais do Doutor Místico, e a sua luz devem ser entendidos. Trata da contemplação obscura e amorosa, na qual, como já sabemos pela análise precedente, uma especial moção do Espírito Santo ilumina a alma (cf. Subida II 29,6).

Essa iluminação introduz uma nova luz essencial? Parece que não, pois a moção iluminante do Espírito Santo consiste somente em intensificar a "luz excessiva", da qual o entendimento se fez partícipe pela fé. Porém a intensidade, como supõe necessariamente grande enraizamento da caridade, produz um efeito especial: concentra na luz revelada toda a parte superior da alma, todas as potências superiores (cf. Subida II 14,6).

As observações feitas acima também nos revelam que a intensidade de participação da luz divina se opõe à informação do entendimento e das demais potências superiores por qualquer forma intencional particular, extraída das criaturas por processo cognitivo natural.

O Doutor Místico supõe, por hipótese, uma alma que de fato já está livre desse modo de conhecer. Então a luz divina, ao invadir o entendimento, seria a única nele atuando. O entendimento não faria outra coisa senão participar da 'divina notícia' obscuramente em fé, suposta sempre uma caridade em grau alto, isto é, uma "alma enamorada". Mais ainda: a ausência de elementos estranhos e particulares denota já que a caridade alcançou níveis altos de intensidade.

Há aqui indícios patentes de uma grande abnegação, na qual já trabalha e aproveita a caridade, segundo o que já sabemos pela análise da noite ativa do espírito.

Junto com a caridade intensa supõe-se também o influxo decisivo do Espírito Santo, a que se atribui a contemplação infusa.

Tudo, pois, conflui, uma vez mais, em uma situação espiritual, especialmente do entendimento, participando em total quietude do conhecimento divino pela fé, conhecimento obscuro e geral. E assim, atendo-nos ao princípio do Doutor Místico em Subida II 5,7, seria lícito afirmar que a alma se transforma na Sabedoria de Deus de algum modo e participa na luz geradora do Verbo.

As reflexões posteriores aportam maior claridade para compreender a "luz excessiva" da fé, e, por conseguinte, um conceito mais profundo da fé. Por outro lado, estas reflexões nos levam pela mão a uma questão conexa às anteriores: a fé na perspectiva eclesiástica.

Já neste capítulo fundamental de Subida II 3 toca-se em alguns pontos luminosos. São João da Cruz, depois de expor seu pensamento sobre a obscuridade da fé, conclui:

"O homem que estava em trevas não poderia ser convenientemente iluminado senão por outras trevas".

Logo confirma a valente afirmação com a autoridade do Sal 18,3, fazendo um comentário abundante:

"O dia, que é Deus na bem-aventurança, onde já é dia aos bem-aventurados anjos e almas que também já são dia, comunica-lhes e pronuncia a palavra, que é seu Filho, para que o saibam e o conheçam. E a noite, que é a fé na Igreja militante, onde ainda é noite, comunica a ciência à Igreja e, por conseguinte, a toda alma, a qual é noite para ela, pois está privada da clara sabedoria beatífica; e na presença da fé, está privada de sua luz natural".

Trata-se, evidentemente, de uma dupla participação no conhecimento divino: uma clara, que é a que ocorre na Igreja triunfante, onde os anjos e os bem-aventurados vêm a essência divina; outra obscura, que é a que ocorre na Igreja militante pela fé.

O Doutor Místico persiste na idéia da manifestação do Verbo: no céu, Deus "pronuncia a palavra, que é seu Filho", sem véu algum, fazendo os anjos e os bem-aventurados partícipes do conhecer divino, aquele que Ele tem de si mesmo e que termina 'ad intra' pelo Verbo; enquanto isto ocorre no céu, na Igreja militante é ainda noite; uma noite iluminada por outra noite: a fé.

Já sabemos qual é o sentido das últimas palavras: a participação da luz divina, sempre "excessiva" e essencialmente idêntica (cf. Subida II 3,1), efetua-se, no estado de Igreja peregrina, pela fé; isto quer dizer que de um modo obscuro. Como? O Doutor Místico responde:

"a fé [...] mostra ciência à Igreja, e, por conseguinte, a qualquer alma".

A participação do conhecimento divino é dada a todos os viadores pela fé na Igreja, de forma acomodada à capacidade de cada um.

Isto é o que o Doutor Místico ensina em primeiro lugar sobre a função da Igreja em relação à fé. Logo, em Subida II 22, que trata da manifestação da fé na encarnação do Verbo, faz a seguinte observação geral:

"E assim, devemos nos guiar em tudo pela lei do Cristo-homem e de sua Igreja, e de seus ministros, humana e visivelmente, e por essa via encontrar remédio para nossas ignorâncias e fraquezas espirituais [...]; e não devemos crer coisa alguma por via sobrenatural, senão aquilo que é ensinado pelo Cristo-homem, e por seus ministros também homens".

Esta firme doutrina sobre a mediação da humanidade de Cristo e o ministério de outros homens, com seu reflexo no ato natural da fé, é confirmada com as palavras do Apóstolo (Gal 1,8) e com exemplos do Antigo Testamento; e se funda no seguinte princípio: Deus quer que tudo o que nos comunica sobrenaturalmente recebamos por mediação de outros homens, e assim nos exercitemos com atos de fé, coisa que faltaria se nos viessem as verdades reveladas por via de uma manifestação privada e pessoal.

Poderemos perguntar, sem dúvida, como esta autoridade humana mediadora, que realmente faz as vezes da autoridade divina, pode intervir, segundo São João da Cruz, no ato sobrenatural de crer.

A resposta está em Subida II 27, em um capítulo que trata precisamente das revelações privadas; cita aí novamente o que São Paulo diz aos Gálatas:

"Porém ainda quando nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho distinto daquele que vos temos anunciado, seja anátema".

Gal 1, 8

E, apoiado nas palavras do Apóstolo, conclui:

"Quanto à substância de nossa fé, não há mais artigos a revelar além dos que já estão revelados à Igreja. Assim não só não se há de admitir o que se revelar novo à alma a respeito dela, porém convém por cautela , não ir admitindo outras variedades misturadas. E para a pureza da alma, que convém manter em fé, ainda que se revelem de novo as verdades já reveladas, não crer nelas porque se revelam de novo, mas porque já estão reveladas suficientemente pela Igreja; assim, fechando o entendimento para elas, simplesmente se apoia na doutrina da Igreja e sua fé, que, como diz São Paulo, entra pelo ouvido".

A amplidão e a precisão de São João da Cruz neste ponto são admiráveis. A economia da revelação culmina em Cristo, manifestação pessoal plena de Deus; e essa economia se concentra também na Igreja de Cristo, sobretudo pelo condicionamento histórico da verdade revelada. E assim, o ato de fé, qualquer ato de fé, implica a aceitação da autoridade da Igreja, já que a fé não consiste na adesão ao revelado porque tenha sido revelado privadamente, mas pela autoridade da Igreja: só a ela se fez a revelação total, e a sua autoridade é necessário dobrar o entendimento no ato de crer.

Em conclusão, a fé não só supõe, segundo São João da Cruz, "consentimento" ou assentimento ao revelado por Deus - na obscuridade, sem claridade intelectual -; supõe, ademais, a adesão, enquanto o revelado é proposto pela Igreja.

A Igreja é elemento integrante do ato de fé.