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Prossigamos a análise de Subida II 8. Na explicação da idéia
básica parece que o Doutor Místico ilumina com maior clareza que nos
exemplos citados o sentido de "meio proporcionado". Em Subida II
8,3 introduz de imediato uma aplicação luminosa: Todo meio, seja
qual for, tem que unir o entendimento com Deus.
Estamos diante do estabelecimento direto da questão da fé dentro da
área de sua própria natureza:
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"De onde, para que o entendimento se venha a unir nesta vida com
Deus segundo se possa, necessariamente deve tomar aquele meio que une
a Ele e tem com Ele semelhança próxima".
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Eis aqui o ponto central no qual as qualidades próprias do meio
proporcionado manifestam seu pleno valor. Trata-se aqui,
evidentemente, de meio de união com Deus, de um meio ao qual a
razão de semelhança é imprescindível. Pois bem, essa qualidade
absolutamente necessária nenhuma criatura possui:
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"Entre todas as criaturas superiores ou inferiores, nenhuma existe
que proximamente se aproxime de Deus nem que tenha semelhança com seu ser".
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Poderíamos expressar a afirmação em forma causal, aplicando o
critério antes aludido: nenhuma criatura pode se aproximar de Deus,
porque nenhuma possui semelhança com seu ser.
É, no fim das contas, o que o Doutor Místico diz na continuação:
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"Porque, embora seja verdade que todas têm, como dizem os
teólogos, certa relação com Deus e traços de Deus, umas mais e
outras menos segundo seu grau de excelência, entre Deus e elas não
existe nenhuma relação nem semelhança essencial, antes a distância
que existe entre seu divino ser e o delas é infinita".
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O texto é extremamente valioso porque permite interpretar o que para
ele significa "semelhança". O Doutor Místico se adapta à
opinião comum dos teólogos, que afirmam que entre Deus e as
criaturas há certa semelhança quanto ao ser ('in ratione entis',
ou melhor, 'in ratione essendi'). Ou seja, enquanto existem,
enquanto têm ser, as criaturas são semelhança (analógica) de
Deus; mais ainda: quanto maior perfeição de ser têm, tanto melhor
nesta ordem se assemelham a Deus. O que se nega é a "semelhança
essencial": entre o que Deus é e o que é qualquer criatura, por
mais perfeita que seja, não há semelhança alguma, mas infinita
distância.
O texto sanjoanista aponta claramente para o plano das essências.
Suas palavras repetem, quase com idênticas palavras, a fórmula do
concílio Lateranense IV:
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"Entre o Criador e a criatura não pode haver tanta semelhança, que
a dessemelhança entre eles não seja maior" (Inter Creatorem et
creaturam non potest tanta similitudo notari, quin inter eos maior sit
dissimilitudo notanda - Denz. 432).
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A passagem citada de São João da Cruz reduz claramente essa
dessemelhança ao plano da essência. Portanto, nenhuma criatura,
ainda que a mais perfeita, pode se igualar por natureza à divina
essência. O que Deus é, seja o que for, é absolutamente
dessemelhante ao que é qualquer criatura, porque não há semelhança
essencial possível entre a Divindade e qualquer natureza criada.
O pensamento do Doutor Místico está livre de qualquer filete de
ambigüidade. Porem ainda assim convém insistir que no texto
trata-se propriamente da absoluta distinção entre a realidade divina
e a realidade criada de ambas as naturezas. E, sob este aspecto, o
que o Doutor Místico está nos propondo é a distinção entre o
natural e o sobrenatural. A razão da "distância infinita" não se
baseia precisamente em que as criaturas distam ou se distinguem
infinitamente de Deus, mas na falta de "semelhança essencial". Em
resumo: a diferença de natureza fundamenta, no texto citado, a
distinção absoluta Deus-criatura.
A afirmação da absoluta distinção entre o natural e o sobrenatural
desempenha o papel de premissa maior de um silogismo que a rigor se
encontra no texto e que verdadeiramente informa toda a doutrina mística
de São João da Cruz, constituindo um belo ornamento de sua lógica
incomparável, como seus comentadores têm rssaltado e celebrado com
freqüência.
Tratemos, pois, de procurar a premissa menor no texto. Para isto
será necessário recordar de onde brota toda a questão da
"semelhança essencial". Já vimos que nasce do "meio
proporcionado". Que é essencial à razão de tal meio. Negando,
como ressaltamos, "semelhança essencial" de qualquer criatura, por
muito perfeita que seja, a Deus, é fácil pôr sobre a mesa a
seguinte conclusão: nenhuma criatura pode servir de meio proporcionado
para a união com Deus, já que entre criatura e Deus existe
dessemelhança essencial.
Em que se fixa a carência de "semelhança essencial"? Na natureza
mesma, já que o ser é constituído por sua própria natureza. A
natureza da criatura aparece, portanto, como "o lugar próprio" e
como a causa da "dessemelhança". De onde qualquer criatura deve ser
excluída da função de meio proporcionado para a união com Deus.
Na linha da natureza não existe proporção de semelhança entre o
Criador e a criatura. Segue-se, pois, que as criaturas não podem
servir de meio para a união com Deus.
Devemos acrescentar ainda: não podem constituir meio de união com
Deus em relação ao entendimento:
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"Todas as criaturas não podem servir de meio proporcionado ao
entendimento para chegar a Deus".
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As últimas palavras são uma reveladora e bela surpresa: "chegar a
Deus", alcançar a Deus, colocar o entendimento de maneira efetiva
na Divindade até tocar a íntima essência de Deus.
A robusta expressão - "chegar a Deus" - determina por sua vez,
de um modo novo, a razão da semelhança, reduzindo-a ao plano da
representação: nenhuma criatura, invadida pela luz de seu próprio
entendimento, é capaz de revelar ou desvendar a essência divina
(Subida II 8,3).
Este é o sentido do texto de Subida II 8,3. Já indicamos como
esta distância entre Deus e a criatura se emprega aqui à área
dinâmica, ou seja, em relação à potência cognoscitiva. E então
a razão da "semelhança" adquire um novo valor: passa da ordem real
para a ordem intencional.
Por conseguinte, tudo o que estamos explorando nos oferece um largo
panorama para a compreensão de todo o tema: como se apresenta e se
resolve o problema da fé nas obras de São João da Cruz.
A epígrafe do capítulo ilumina com forte luz a oposição ou
negação de que as criaturas possam, por si, servir de meio para a
união com Deus. Como regra diz em seguida:
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"Não há semelhante a ti entre os deuses, Senhor (Sal
85,8), chamando deuses aos anjos e almas santas. E em outro
lugar: Deus, teu caminho está no santo. Que Deus grande existe
como nosso Deus? (Sal 76,14). Como se dissesse: O caminho
para vir a ti, Deus, é caminho santo; isto é, pureza e fé".
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Assim, a fé fica imediatamente elevada acima das mais altas
criaturas. Todas elas, com efeito, se excluem como meio para a
união, papel que se reserva para a fé. Ela é o meio proporcionado
de união. Portanto, entranha uma semelhança essencial com Deus.
Quer ele dizer que existe, de alguma maneira, conformidade entre a
essência da fé e a Divindade, que há alguma 'conveniência'.
Porem seguidamente, devemos lembrar, isto ocorre na ordem do
entendimento, que se une a Deus pela fé, e, por conseguinte, esta
é o meio proporcionado.
Em conseqüência, e sem ultrapassarmos os limites, podemos
insinuar: o breve e denso texto de Subida II 8,3 nos apresenta
meridianamente a questão da fé, indicando ao mesmo tempo, se bem que
ainda de um modo genérico e confuso, sua própria índole entitativa e
intencional.
Já indiquei anteriormente que o texto acima contem expressamente
formulado o silogismo que vem a se constituir a chave de abóbada da
"lógica mística" de São João da Cruz. Caberia propor ou
reduzir a forma simplificada esse silogismo. Eis aqui:
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[M] - Nenhuma criatura, vista na natureza que a constitui, possui
semelhança essencial com Deus.
[m] - Mas tal semelhança é necessária para exercer a função de
meio proporcionado de união com Deus.
[Concl.] - Portanto, nenhuma criatura, em seu ser natural, pode
servir de meio proporcionado para a união com Deus.
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Este primeiro silogismo se projeta a toda a doutrina mística de São
João da Cruz, invadindo-a e informando-a profundamente.
O segundo silogismo se refere já concretamente à fé, tirando do
anterior a afirmação fundamental sobre sua natureza:
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[M] - A fé serve de meio proporcionado para a união do
entendimento com Deus.
[m] - Pois bem, o meio proporcionado de união com Deus deve
possuir uma semelhança essencial com Ele.
[Concl.] - Portanto, a fé possui tal semelhança som Deus.
É, pois, um meio possuidor da "proporção de semelhança".
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Graças a esta argumentação, vemos nosso tema centrado em sua exata
perspectiva. Igualmente, a "semelhança essencial" nos introduz,
sem titubeios, nas entranhas e ordem das essências: ao negar a
possibilidade às criaturas, a negação se refere unicamente a suas
essências; ao atribuir a possibilidade à fé, estamos já tocando em
sua essência mesma. Deste modo, fica bem estabelecida a questão
sobre a natureza da fé segundo São João da Cruz: o constitutivo
da fé é algo que se assemelha à Divindade, já que a fé se
fundamenta nessa semelhança.
Simultaneamente, no texto sanjoanista citado se concede à semelhança
uma ordem própria relativamente ao entendimento: a fé tem valor de
semelhança por sua índole intelectual, e, em conseqüência, une
essa potência a Deus. Deste ponto de vista, o texto é de máxima
importância para resolver nosso problema. Teríamos que partir,
portanto, desta tese: a fé faz com que Deus seja evidente ao
entendimento, e disso nenhuma criatura é capaz, por muito elevada que
seja. A fé, pois, por sua essencial semelhança, pode unir o
entendimento a Deus.
Dito em termos mais simples: a fé possui uma semelhança essencial
com Deus enquanto entende. E isto nos situa em uma ordem ou plano
intencional.
Ambos os aspectos, segundo se depreende da análise, estão latentes
e ainda patentes no texto sanjoanista.
Quanto ao primeiro, fixam-se os limites diferenciais entre o natural
e o sobrenatural: a fé penetra a fronteira do sobrenatural. Possui,
portanto, aquela "relação e semelhança essencial com Deus" de que
carecem inclusive as supremas criaturas naturais. Com isto chegamos à
íntima essência da fé, que lhe permite desempenhar a função de
meio de união com Deus.
Quanto ao segundo, já que a "semelhança essencial" é atribuída
em relação a sua capacidade intelectiva, a fé se perfila como uma
virtude que faz com que o entendimento alcance a Deus segundo a
essência divina.
Isto abriga o contexto sanjoanista, e se verá melhor ao analisar
Subida II 8, 4-5. As outras criaturas não podem elevar o
entendimento até a essência divina, nem o entendimento que lhes é
conatural é capaz, por si só, de logra-lo. Pelo contrário, a
fé sim. Por que? Porque as demais criaturas não têm em si mais
que sua própria essência; ao passo que a fé possui em sua essência
uma "semelhança" com a essência de Deus.
Daqui se deduz que desempenha a função de meio proporcionado em um
plano intelectivo por duas razões:
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- primeira - por sua essencial semelhança com Deus. Ou seja, por
pertencer à ordem sobrenatural;
- segunda - por incluir essa semelhança essencial uma relação
direta com a virtude ou potência intelectiva.
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Ambas as dimensões - a entitativa e a intencional ou dinâmica -
determinam que a fé pode servir de meio proporcionado para a união do
entendimento com Deus.
E, por isso, o texto de Subida II 8 é, na realidade, chave e
eixo de nossa investigação.
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