ANOTAÇÕES.

1. Escreve o Pe. Labourdette a propósito da noção de "sobrenatural" nas obras de São João da Cruz:

"Sobrenatural... A diferença das duas ordens aparece presente em seu pensamento como uma diferença de nível".

Alude, certamente, à passagem de Subida II 4,2:

"Sobrenatural quer dizer o que sobe sobre o natural; logo o natural fica abaixo".

E prossegue o Pe. Labourdette:

"Tratando da união divina, 'sobrenatural' havia sido considerado e definido do ponto de vista de sua apresentação concreta, psicológica, na alma que o recebe. Alem disso havia sido descrito como um modo de operar totalmente diverso do modo natural". E anota depois: "O termo 'sobrenatural' não tem, na linguagem de São João da Cruz, o significado determinado e único que se costuma atribuir geralmente a ele. Por isso, o Pe. Crisógono (o.c., I p.231-43) adverte com razão que seu sentido deve ir ficando mais preciso à medida que aflora no contexto sanjoanista. Porem o mesmo Pe. Crisógono emprega um método defeituoso ao partir da noção teológica de sobrenatural quoad substantiam e de sobrenatural quoad modum para fixar, ao menos em algumas passagens, o sentido exato do termo. Na verdade, as realidades de que fala o Doutor Místico podem se reduzir e compreender, por transposição, segundo essa distinção; porem deve-se ter presente que seu vocabulário não se refere diretamente a ela, já que seu ponto de vista é sempre muito concreto".

Suas palavras expressam, certamente, o que encontramos nos textos: em nenhum se encontra outra noção de "sobrenatural" mais abrangente que a citada, que é, como vimos, nominal. Se, ao contrário, o discurso sanjoanista fala de realidades - que são as essenciais e constitutivas de toda a síntese -, estas resultariam incompreensíveis e até inomináveis prescindindo dessa distinção. Isto vale também para o texto em questão, já que seria ininteligível sem distinguir entre o sobrenatural e o natural. E o veremos confirmado quando mais abaixo analisarmos os textos de São João da Cruz que tratam da união natural e da união sobrenatural.

Poderíamos inclusive afirmar que as duas ordens - a natural e a sobrenatural - o Doutor Místico distinguiu com suma precisão e que nessa distinção se apoia o edifício de sua doutrina até as últimas conseqüências.

É certo que as palavras são múltiplas. Sem dúvida, nossa exploração não vai em busca de palavras, mas de realidades. Por outro lado, não é lícito submeter o texto sanjoanista a noções e distinções preparadas a priori, prendendo-o como a um prisioneiro entre regras. Porem, quando a coisa ou realidade aparece clara através da análise, parece-me que não há inconveniente em reter os nomes. Isto vale aqui, tratando do natural e sobrenatural, e valerá, sobretudo, mais abaixo, quando indagarmos o pensamento sanjoanista sobre "a noite ativa do espírito".

Em uma palavra: Considera o Doutor Místico o 'sobrenatural' "do ponto de vista de sua apresentação concreta, psicológica, na alma que o recebe"?

Na maioria das vezes, sim. Sem dúvida, em outras ocasiões já não é possível responder tão categoricamente. Por exemplo, em Subida II 5, onde a união de semelhança aparece como "Deus" que "comunica o ser sobrenatural".

Este texto corrobora minha convicção de que o tema da fé não foi abordado por São João da Cruz somente na linha da ação ou sob o aspecto dinâmico - o que ocorre principalmente na dinâmica da contemplação -, mas que o enfoca, antes de tudo, na linha do ser ou sob o aspecto entitativo. E, portanto, sua função na contemplação depende de sua realidade íntima e dela deriva.

Cabe ainda fazer uma última observação: o sentido do termo "sobrenatural", que o Pe. Labourdette nos oferece extraindo-o das obras de São João da Cruz, poderia talvez ser explicado a partir de outra angulação. Consta certamente que nos escritos do Doutor Místico há poucos elementos de pura especulação e abstração. Tudo o que se estuda na teologia teórica tem, nos escritos de São João da Cruz, um valor primordialmente vital. De alguma forma roça questões especulativas e abstratas, porem sempre argumentando pela experiência, e por esta via as esclarece. Este enfoque redunda necessariamente na maneira de apresentar e de escrever sobre as realidades místicas[28]. Por ele seria inútil buscar aí um tratado de pura teologia. Não obstante, se penetrarmos na profundidade e firmeza da letra, descobriremos a presença da letra e da alma da teologia clássica.

2. Quando se reflete sobre a semelhança essencial da fé com a Divindade, semelhança abertamente afirmada no texto de Subida II 8, parece sermos obrigados a desfazer a teoria proposta por J. Baruzi[29], que o Pe. Chevalier chama "mística da universalização do entendimento"[30].

Convém, sem dúvida, distinguir. Há, efetivamente, alguns textos que, considerados de maneira isolada - como Subida II 16,7 -, induzem a pensar que o entendimento projetado na união com Deus deve ultrapassar os limites de qualquer fronteira. Esta 'ultrapassagem' é atribuída à fé. Porem a semelhança sobrenatural essencial da fé com a Divindade afirmada corajosamente em Subida II 8, fecha o caminho para a aceitação da hipótese que atribui a algo natural a capacidade de transcendência designada como "universalização do entendimento". A hermenêutica exata do pensamento sanjoanista não deve perder de vista o que em Subida II 8 diz a respeito da índole essencialmente sobrenatural da fé. Com absoluta firmeza diz aí que a fé transcende a ordem da criatura, a ordem de qualquer limite criado, porque é sobrenatural em sua essência e porque está dotada de uma semelhança essencial com a Divindade. E, portanto, o ultrapassar qualquer "modo limitado" tem em São João da Cruz seu fundamento radical nesta semelhança essencial em relação à Divindade. Ou seja, em sua íntima sobrenaturalidade.

Assim vemos, uma vez mais, que o núcleo da questão da fé segundo São João da Cruz está indicado na breve e densa passagem de Subida II 8,3. A semelhança essencial com a Divindade e sua índole intelectual constituem o canal ideológico pelo qual a fé viaja continuamente nas obras do Doutor Místico.

Para corroborar o acerto da sobrenaturalidade da fé é oportuno analisar agora o texto de Subida II 5, onde declara 'ex professo' seu conceito de união.