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De ponta a ponta, a obra de São João da Cruz trata
primordialmente da união da alma com Deus: que é, quais são seus
meios próprios, como e por que vias se consegue esta união, qual é
sua forma definitiva. Em torno destes pontos se desenvolve
materialmente sua tetralogia. E percebe-se com clareza desde o
prólogo de Subida até a última página de Chama.
Pois bem, se a fé está subordinada à união , como o meio ao fim,
podemos ver quão importante é para nosso intento fixar a idéia de
união com a maior precisão possível, pois sabemos que os meios devem
ser proporcionais aos fins que pretendem alcançar. Por sua
ordenação intrínseca ao fim, é obvio que a índole específica da
fé aparecerá mais claramente através da noção de união.
São João da Cruz distingue em Subida II 5,3 duas espécies de
união da alma com Deus: uma natural, que chama também substancial
ou essencial; outra sobrenatural, e esta é, propriamente falando, a
'união de semelhança'.
A primeira consiste na presença substancial de Deus em qualquer
alma, inclusive na do maior pecador:
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"Deus, mora em qualquer alma e a assiste substancialmente, ainda que
seja a do maior pecador do mundo".
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Esta primeira união, que consiste no fato mesmo da presença
substancial de Deus na alma, resulta da comunhão no ser natural, e
está, portanto, vinculada à criação e conservação:
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"Deus está sempre na alma dando-lhe e conservando-lhe o ser natural
com sua assistência".
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Porem não é esta a união que São João da Cruz quer explicar em
suas obras. Ele se ocupa com a segunda, ou seja, a união
sobrenatural. Por isso, depois da necessária e passageira alusão à
união natural, esboça, com esplêndida visão de conjunto, o que é
e como deve ser entendida a união sobrenatural.
O elemento primordial para distinguir estritamente a união
sobrenatural de qualquer união natural é a diferente espécie de
comunicação; não se trata já de uma comunicação no ser natural,
mas de uma comunicação sobrenatural:
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"embora seja verdade que [...] Deus está sempre na alma dando a
ela e conservando-lhe o ser natural com sua assistência, contudo,
não lhe comunica sempre o ser sobrenatural".
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Este segundo tipo de comunicação se realiza mediante a graça e a
caridade (mediante o amor):
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"porque este não se comunica senão por amor e graça, na qual nem
todas as almas estão".
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Mais ainda: esta comunicação sobrenatural se verifica em almas
distintas segundo diferentes graus, que correspondem à diferença de
intensidade da graça e do amor.
Mais abaixo se verá melhor a importância própria do amor para a
realização da união. No momento basta assinalar que o Doutor
Místico insiste, no texto que estamos analisando, no papel decisivo
do amor para conseguir e aumentar a união. Assim resulta também
assinalada a índole dinâmica da união de que trata: a união
consiste na comunicação sobrenatural do ser de Deus mediante a graça
e o amor. E o amor torna possível seu crescimento.
Esta união sobrenatural através da comunicação da graça e do amor
é designada pelo Doutor Místico como uma 'nova geração', como
um 'nascimento' dos filhos de Deus. São João da Cruz aplica
aqui as passagens típicas de Jo 1, 13 e 2, 15. Sem dúvida,
nos damos conta imediatamente que nesta breve panorâmica da união já
se escuta uma nota verbal de máximo valor na teologia sanjoanista da
graça e do amor: a transformação. Sua característica peculiar é
um efeito do amor, que é o que produz a união sobrenatural, como
veremos mais detidamente analisando Subida I 4: o amor é o que
produz o aumento da união, e é também o que torna possível os
diferentes graus de transformação. Pelo amor, ademais, a função
unitiva e transformadora redunda na vontade. A seguir, São João
da Cruz recorrerá a uma espécie de axioma, com o qual topamos em
Subida II 5 e logo em muitas passagens mais:
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"Deus se comunica mais àquela alma que está mais adiantada no amor,
isto é, àquela que tem sua vontade mais conforme à vontade de
Deus. E a que a tem totalmente conforme e semelhante, está
totalmente unida e transformada em Deus sobrenaturalmente".
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Deste modo vemos que, por intervenção do amor, a união
psicológica se reduz à conformidade da vontade humana com a vontade
divina.
Acrescentamos ainda que esta conformidade é considerada de um ponto de
vista objetivo, e assim, São João da Cruz repetirá insistentemente:
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"a união sobrenatural se dá quando as duas vontades - a saber, a da
alma e a de Deus - estão de tal modo conformes, não havendo em uma
nada que contrarie a outra".
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Portanto, esta união é uma comunicação que consiste na
conformidade de vontades, progride pelo amor e pelo amor expressa seu
aspecto psicológico. Tal amor possui, simultaneamente, capacidade
transformadora.
Que entenderemos por "transformação"? São João da Cruz afasta
imediatamente a possibilidade de uma interpretação panteísta: não
se trata de uma transformação substancial ou essencial, mas de uma
transformação participada. O poeta São João da Cruz nos
esclarece seu pensamento primeiramente com uma imagem brilhante: a do
vidro investido pelos raios do sol, analogia famosa e muito conhecida.
Observa o Doutor Místico que se os raios solares encontram um vidro
limpo e transparente, tanto melhor lhe comunicará sua claridade, seu
influxo luminoso, suas qualidades específicas; e se o vidro estiver
absolutamente puro, absolutamente transparente, então o sol se
comunicará com ele em tal grau que o fará 'transluminoso',
brilhante com a mesma luz que brilha o sol, de forma que o
confundiríamos com ele, embora não se tenha transformado
essencialmente no sol, uma vez que não perdeu sua natureza de vidro,
evidentemente distinta da natureza do sol. O que ocorre é que está
participando em altíssimo grau da claridade solar: "embora se pareça
com o raio, tem sua natureza distinta do mesmo raio; mas podemos dizer
que aquele vidro é raio ou luz por participação".
Eis aqui, através de uma esplêndida analogia, toda a teologia da
comunicação sobrenatural pela graça e amor e da transformação
participada. De maneira análoga, pois, a alma participa da
comunicação sobrenatural pela graça e pelo amor e, em virtude deles
acaba por transformar-se, por participação, na mesma luz de Divindade.
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"A alma [...] logo fica esclarecida e transformada em Deus, e
Deus lhe comunica seu ser sobrenatural, de tal maneira que parece o
mesmo Deus e tem o que o mesmo Deus tem. E esta união se realiza
quando Deus faz à alma esta sobrenatural mercê, pela qual todas as
coisas de Deus e da alma são unificadas por transformação
participante; e a alma mais parece Deus que alma, e ainda é Deus
por participação. Embora seja verdade que conserve seu ser
naturalmente tão distinto de Deus quanto antes, ainda assim está transformada".
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Portanto, a transformação mais profunda não ultrapassa nunca os
limites da participação. E, posto isto, já pode o Doutor
Místico afirmar da alma: "é Deus por participação".
Todas estas explicações põem em relevo, unicamente, como as
realidades sobrenaturais, que na teologia teórica são expostas a
nível de pura especulação, são expressas de maneira muito mais
plástica e viva no mundo e na linguagem da experiência mística.
Vemos que o Doutor Místico apresenta a união como o fim de todos os
desejos da alma, como uma participação sobrenatural com Deus, como
uma participação da Divindade por graça e amor. E que a força
inata desta é capaz de crescer até a transformação, isto é, até
a união transformadora com Deus.
No amor também se inclui o aspecto especificamente psicológico: a
conformidade da vontade humana com a vontade divina, que é
conformidade objetiva: "não havendo em uma , nada que contrarie a
outra". Daí deriva a conformidade ou união moral: o mesmo querer,
o mesmo não querer.
Os grandes fundamentos que sustêm o edifício sistemático da doutrina
do Doutor Místico sobre a união podem ser condensados em três palavras:
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Comunicação - participação - transformação.
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A participação corresponde à comunicação, explica sua íntima
natureza e dá sua medida, e, ao mesmo tempo, tende à
transformação, dentro dos limites da participação, em forma de
amor e por sua força. Isto é, à transformação participada de
amor.
A doutrina de São João da Cruz sobre a união se encontra em germe
nesta passagem de Subida II 5; logo, ao longo de toda sua obra, o
germe irá se desenvolvendo e frutificando.
Para nosso intento, ou seja, para indagar seu pensamento sobre a
natureza da fé, este capítulo é fundamental. Nele podemos,
ademais, verificar a interpretação que fizemos acima de Subida II
8: a distinção do natural e do sobrenatural ali exposta corresponde
aqui à doutrina do Doutor Místico sobre a dupla união da alma com
Deus: união natural, união sobrenatural.
Pela primeira, qualquer criatura se 'comunica' com Deus pela razão
de ser, e, pela maior ou menor perfeição de ser, toda criatura
constitui um vestígio de Deus. Sem dúvida, o ser natural, por
maior vestígio ou pegada de Deus que seja, por muita perfeição
entitativa que tenha, não é capaz em absoluto de chegar por si mesmo
à união sobrenatural com Deus, não pode ultrapassar seus próprios
limites e adentrar no âmbito da essência divina, nem penetrar na
intimidade vital da Divindade. Nenhuma perfeição natural é
suficiente para tão subida união, já que a todas e a cada uma das
criaturas falta a "semelhança essencial" que é condição requerida
para remontar-se à ordem da Divindade.
Ao contrário, a fé possui essa "semelhança essencial".
Portanto, é apta para levar à união. O que eqüivale a dizer que
a fé ultrapassa a fronteira da ordem sobrenatural e penetra a
Divindade mesma, cooperando, de certa forma, ativamente na
transformação participada da alma, que se realiza sucessiva e
gradualmente por obra da graça e do amor. Tal capacidade se enraíza
em si mesma de onde brota sua função unitiva.
Tudo isto, embora não de maneira expressa, se percebe muito
claramente nos textos sanjoanistas analisados.
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